A mistura de línguas estrangeiras com o próprio idioma é um procedimento presente na prosa de Guimarães Rosa que afirma em sua entrevista a Lorenz (1973) ser mais afeito à metáfora do alquimista, em suas lides com a palavra, que à ideia de racionalidade. Ao reunir palavras de sistemas diferentes, o autor mineiro elabora novos sentidos e sons que não só exprimem um estado de alma ou uma percepção de seus personagens, como também convidam o leitor a interagir de outro modo com a obra. Em Grande sertão: veredas (1956), esse procedimento está em “comblém”, “condena”, “estripitriz”, “lordear”, “rededores”, entre outras palavras que também foram selecionadas para serem observadas de perto no glossário deste trabalho.
Acerca desse procedimento compositivo, Castro (1982) assevera:
Guimarães Rosa invoca os seus conhecimentos de poliglota para tirar da palavra o máximo efeito em função da dinâmica do discurso, ou bem de uma co-realidade de estruturas que se projetam em seu laboratório produtivo. Ele atenta para o fato de que se uma palavra é [...] um simples fragmento arbitrário ou convencional do enunciado [...] a propriedade do seu uso há de conferir-lhe a faculdade de transcender essa medida (CASTRO, 1982, p. 35).
Assim, o crítico salienta a habilidade do autor mineiro para não somente intervir no léxico de seu idioma, mas também propor aproximações muitas vezes imprevistas ao transpor os próprios limites. Compreende-se que a utilização de outras línguas diz muito a respeito do original e de sua maneira de enformar o mundo.
As traduções para o espanhol em suas singularidades ora lançaram mão desse procedimento ora o apagaram. Tal percurso de composição ou de apagamento é
160 significativo para entender os rumos tomados pelos tradutores em seus respectivos projetos e para pensar como interagem com a recepção crítica.
As palavras “esmarte”, “frisso” e “lontão” se destacam de maneiras diferentes no que diz respeito à tendência de fazer uso ou não do procedimento presente no original. Então, em primeiro lugar, analisa-se “esmarte”, em seguida “frisso” e, finalmente, “lontão” de acordo com as especificidades notadas.
“Esmarte”118 na obra de partida tem duas aparições ligadas à personagem
Diadorim e uma última relacionada a Zé Bebelo. Inicialmente, a palavra é usada no episódio do primeiro encontro entre Riobaldo e a personagem, destacando o efeito que causa no protagonista desde então: “O vacilo da canoa me dava um aumentante receio. Olhei: aquêles esmerados esmartes olhos, botados verdes, de folhudas pestanas, luziam um efeito de calma, que até me repassasse. Eu não sabia nadar.” (ROSA, 1956, p. 104). Em seguida, a palavra aparece em uma digressão de Riobaldo: “Diadorim, sempre atencioso, esmarte, correto em seu bom proceder. Tão certo de si, êle repousava qual- quer mau ânimo” (ROSA, 1956, p. 185). E, em sua última ocorrência, na fala de outro jagunço chamado Lacrau, é usada para cacterizar Zé Bebelo: “ele Lacrau, aliviado se gracejou de rosto, como falou: — ‘O esmarte homem que é este chefe nosso Zebebéo! Outro não vi, para espiritar na gente o pavor e a ação de acerto...’ As agudezas. A vez da má verdade.” (ROSA, 1956, p. 361).
Este neologismo, segundo Castro (1982), é criado a partir da palavra smart, que em inglês é apontada com os significados de esperto, inteligente119. Martins (2001) confere outras acepções para ela, como vivo e belo. Sobre o primeiro momento em que a palavra se insere, a linguista ainda coloca:
Aqui o sentido é diverso, sendo de notar também o efeito da repetição dos três fonemas iniciais do adjetivo anterior. Em comentário a este passo, F. Utéza diz ser o anglicismo esmarte explicado e reduplicado pelo vernacular esmerado, remetendo ambos à esmeralda, ou seja, à pedra preciosa de grande poder regenerador, segundo a tradição, e que é também a Pedra de Hermes (MARTINS, 2001, p. 301).
Ao ser traduzida para o espanhol, a palavra recebe uma multiplicidade de tratamento. Como ocorre em Crespo: “El vacilar de la canoa me producía un
118 Esta palavra e algumas formas de sua utilização foram estudadas na dissertação Tradução e criação
literária em Gran sertón: veredas (2013). Este neologismo é abordado no atual trabalho com maior profundidade.
161 aumentante recelo. Miré: aquellos esmerados esmaltes ojos, puestos verdes, de frondosas pestañas, lucían un efecto de calma, que hasta me embebían. Yo no sabía nadar” (ROSA, 2000, p. 116). Posteriormente, no trecho: “Diadorín, siempre cortés, esmalte, correcto en su buen proceder. Tan seguro de sí, calmaba cualquier mal ánimo” (ROSA, 2000, p. 196-197). E, por fim, quando se refere a Zé Bebelo: “El Alacrán aliviado alegró el rostro, como habló: ‘¡Qué esmarte de hombre es este jefe Zé Bebelo! Otro no he visto, para inspiritarle a uno el pavor y la acción del acierto!’ Las agudezas. La ocasión de la mala verdad” (ROSA, 2000, p. 370).
Em Garramuño e Aguilar há: “El vacilar de la canoa me daba un recelo creciente. Miré: aquellos esmerados ojos esmaltados, vueltos verdes, de pestañas frondosas. Lucían un efecto de calma, que hasta me superaban. Yo no sabía nadar” (ROSA, 2009, p. 108). No excerto em que se dá a digressão de Riobaldo: “Diadorim siempre atento, astuto, correcto en su buen proceder. Tan seguro de sí, él reposaba cualquier mal ánimo” (ROSA, 2009, p. 182). E, ao tratar de Zé Bebelo: “El Alacrán aliviado se agració de rostro, como habló: - ‘¡El astuto hombre que es este jefe nuestro Zé Bebelo! Otro no vi, para espiritar en la gente el pavor y la acción de acierto…’ Las agudezas. La vez de la mala verdad” (ROSA, 2009, p. 341).
Por meio do relato publicado por Crespo na Revista de Cultura Brasileña (1967), tem-se o conhecimento da busca do tradutor por aproximar-se da fala local. Possivelmente, comparando com a experiência obtida, decidiu inserir nesse momomento um rotacismo do portugués em sua tradução (esmalte > esmarte). Lembre- se que esse é um fenômeno muito comum da linguagem falada no sertão mineiro e que se aproxima da sonoridade do neologismo a ser traduzido. Conclui-se que houve uma clarificação no sentido “iluminador” estabelecido por Berman, já que a decisão do tradutor encontra uma solução que estava latente na forma do original. Ao lado disso, Crespo aproveitou o potencial criativo da palavra ao utilizar do mesmo processo em sua terceira ocorrência. Ainda assim, há a destruição das redes de significantes subjacentes, já que a palavra perde a tonalidade afetiva e polissêmica120 presente nas duas primeiras repetições, quando Riobaldo particularmente se refere a Diadorim, e enfatiza a sua procedência como anglicismo, ao relacionar-se exclusivamente a Zé Bebelo.
120 De acordo com Martins (2001) pode-se atribuir à palavra também os sentidos vivo e belo no excerto
em que o narrador se remete a Diadorim. Diferencia-se, então, de quando a palavra se remete a Zé Bebelo, estando mais próxima das acepções de esperto e inteligente (MARTINS, 2001, p. 301).
162 Os tradutores argentinos, no entanto, escolhem substituir o neologismo. Primeiramente, por “esmaltados” e nos dois momentos seguintes por “astuto”. Esse fato, acrescido ao de que Garramuño e Aguilar conheciam o aparato crítico que envolve a linguagem do romance na atualidade ampara a conclusão de que os tradutores tomaram a escolha que melhor se adequava ao projeto que traçaram. Nesse caso, além de clarificarem a tradução do mesmo modo como procederam com as onomatopeias do tópico anterior e apagarem a superposição de línguas, os tradutores argentinos realizaram sobretudo o que Berman denomina de empobrecimento quantitativo, pois afetaram uma palavra que assumia centralidade no romance traduzido.
Em “frisso” notou-se que a atução de Crespo e de Garramuño e Aguilar se distinguia pela forma como estabeleceram a correspondência com a obra de partida. “Frisso”, no romance de Guimarães Rosa, é uma palavra mecionada para indicar rapidez, estridência: “Todo vejo, o sangue dêle a mofos cheirasse. Anda que vinham voo os mosquitos chupadores, e môsca-verde que se ousou, sem o zumbo frisso, perto no ar. Porque os tiros. E nem um momento de vela acesa o Garanço não ia poder ter.” (ROSA, 1956, p. 214). No contexto maior, confunde-se com o som das balas acentuando a celeridade do momento do conflito, quando Riobaldo percebe que não pode dar ao companheiro morto o luto necessário, porque a situação de perigo era premente121.
Martins (2001) aponta os sentidos de rápido e de estridente como prováveis, mas Castro (1982) relaciona ao húngaro a procedência da palavra, que também aparece no prefácio “Pequena palavra” (1957). De acordo com o crítico:
Paulo Rónai, a quem se deve a elucidação do termo, observa que Guimarães Rosa usou o termo, meio camuflado pelo francês frisson, em “Pequena palavra”, prefácio da Antologia do Conto Húngaro, p. 17: “O fervor tenso agilíssimo de alegria doidada que alucina com um inaudito frisson” (CASTRO, 1982, p. 112).
O Gran sertón espanhol traduz o trecho em que se situa a palavra “frisso” da seguinte forma: “Todo lo veo, su sangre olía a moho. Anda que venían vuelo los mosquitos chupadores, la mosca-verde que osó, sin el zumbido friiiss, cerca en el aire. Porque los tiros. Y ni un momento de vela encendida no iba a poder tener el Garanzo”
121 O momento continua com a narração do protagonista: “— ‘Vem, tu vem, que estamos no amém
estreitos!’ — que, enfezado, o Hermógenes chamou. Dei para trás. O perigo saca tôda tristeza” (ROSA, 1956, p. 214).
163 (ROSA, 2000, p. 225). E a obra argentina traduz como: “Veo todo, su sangre que olía a moho. Anda que venían en vuelo los mosquiros chupadores, y la mosca verde que se posá, sin el zumbido frisado, cerca en el aire. Porque los tiros. Ni un momento de vela encendida iba a poder tener Garanzo” (ROSA, 2009, p. 207).
Observa-se que no Gran sertón espanhol houve continuidade no processo de elaboração do vocábulo encontrado no original. Assim, por meio de “friiiss”, utiliza outra língua para propor uma nova forma. Enquanto que, na obra de chegada argentina, o mesmo vocábulo é substituído por palavra em que o teor criativo encontra-se menor ou ausente, já que “frisado” está registrado no dicionário da Real Academia Española – RAE (2012).
A palavra, no entanto, corresponde a um nelogismo semântico, porque as acepções de “frisado” não dialogam com o contexto utilizado no romance122. Nota-se
que, nesse caso, além da clarificação, há o apagamento das superposições de línguas, pois, o que estava misturado em Grande sertão: veredas, foi suprimido no texto alvo ao ser substituído por forma padronizada.
Em “lontão” há uma diferença no que foi examinado até aqui a respeito dessa tipologia. No romance de Guimarães Rosa é uma palavra que é duas vezes utilizada pelo narrador, primeiro para fazer referência a uma morada distante: “A gente parava debaixo dum paratudo — pau como diz o goiano, que é a caraíba mesma — árvore que respondia à saudade de suas irmãs dela, crescidas em lontão, nas boas beiras do Urucúia. Acolá era a vereda” (ROSA, 1956, p. 371). Na vez seguinte, a palavra é empregada com o sentido de lugar afastado, desvalido, em uma reflexão de Riobaldo sobre a condição dos catrumanos: “Ah, mas não eram. Que o que acontecia era de serem só esses homens reperdidos sem salvação naquele recanto lontão de mundo, groteiros dum sertão, os catrumanos daquelas brenhas” (ROSA, 1956, p. 379). Castro (1982) e Martins (2001) convergem sobre a procedência da palavra “lontão” como um italianismo que significa o que está longínquo, distante.
Na tradução de Crespo, o primeiro trecho aparece como: “Parábamos debajo de un paratodo — palo como dice el goiano, que es la caraibera misma— árbol, que respondía a la añoranza de sus hermanos, crecidos lejotes, en las buenas orillas del Urucuia. Acullá estaba la vereda” (ROSA, 2000, p. 380). Em seguida, na reflexão de
122 O dicionário da Real Academia Española (2012) possui duas acepções para “frisado”: “1. Tecido de
seda cujo pelo se frisava formando pequenas bolas. 2. Ação e efeito de frisar” [tradução nossa] (Real Academia Española, 2012, publicação online).
164 Riobaldo: “Ah, pero no lo eran. Que lo que pasaba era que eran sólo hombres de esos reperdidos sin salvación en aquel rincón lejano del mundo, patanes de un sertón, los catetos de aquellas breñas” (ROSA, 2000, p. 388).
Garramuño e Agular traduzem primeiramente como:
La tropa paraba debajo de un paratodo – árbol así llamado por el de Goiana, que en verdad es la caraíba – árbol que respondía a las nostalgias por sus hermanos, crecidos en la lontananza, en las buenas orillas del Urucuia. En aquel lugar era la vereda (ROSA, 2009, p. 350).
E o trecho posterior, como: “Ah, pero no lo eran. Que lo que pasaba era que eran sólo hombres reperdidos sin salvación en aquel rincón distante de mundo, gruteros de un sertón, cuadrúmanos de aquellas breñas” (ROSA, 2009, p. 357).
As duas traduções interrompem o que no original era criação, visto que, em todas as escolhas realizadas, não produzem um neologismo e selecionam palavras que atualmente estão registradas em dicionário (2012). Nesse caso, ambas submetem o original à clarificação e apagam a superposição de línguas, explicitando o que no texto fonte se encontra latente. Ainda assim, as escolhas relativas ao primeiro trecho merecem ser mencionadas, já que a RAE (2012) fornece informações de grande interesse em um exame mais atento. O vocábulo utilizado por Crespo está registrado como um coloquialismo próprio da Venezuela, enquanto que o eleito por Garramuño e Aguilar tem a sua proveniência italiana assinalada em sua etimologia123.
Percebe-se, então, que suas escolhas funcionam como dispositivos para a realização de seus projetos tradutórios, pois Crespo insere uma forma que é específica a um falar da América Latina, enquanto que Garramuño e Aguilar empregam um termo em que a influência italiana está posta de maneira mais contundente.