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2. Theoretical Background

2.3 Intercultural Competence in the EFL Classroom and Norwegian Education

Mas não era apenas ao campo intelectual que Lobato demonstra a necessidade de adequação à nova realidade. Em uma de suas cartas a Godofredo Rangel, escrita em 8 de novembro de 1925, o autor deixa transparecer que sua relação com o Rio de Janeiro é marcada pela falta de identificação com a cidade (LOBATO, 1959: 283):

A paisagem tropical me cansa. Sinto que vou logo me enjoar destes

verdes eternos, destas palmeiras […] e do eterno Pão de Açúcar. Meu

sonho é a paisagem dos países frios, com invernos, árvores desfolhadas, outonos vermelhos, neve – e depois a maravilha que há de ser a "ressurreição" da cor na primavera. […] Não tenho o índio ou o negro na alma. O tropicalismo me parece coisa de índio e negro da África [sic].

As características naturais refletem o primeiro ponto de estranhamento de Lobato ao Rio de Janeiro. Mas transparece também um caráter cultural fundado em uma noção racial, quando Lobato aponta o tropicalismo como “coisa de índio e negro”. Dessa forma, o Rio de Janeiro é visto por Lobato sob uma perspectiva negativa

relacionada também às características atribuídas à sua população. Nesse sentido, as críticas de Lobato prosseguem (LOBATO, 1959: 64):

O mal é a cabeça do país ser o Rio – aquela mazela em ponto cidade. O Rio é um fenômeno de parasitismo consciente e organizado, que em nada crê, pilheria a propósito de tudo, tem graça, é leve e por isso tudo terrivelmente venenoso e envenenante [sic].

Como discutiremos adiante, o parasitismo é apontado por Lobato como característica inerente à população brasileira, diferindo-se das características encontradas no povo de São Paulo. Assim, o Rio de Janeiro, como cabeça do país, reflete as características negativas do Brasil, tornando a capital a expressão mais clara das mazelas que o autor atribuía à nacionalidade brasileira. Como forma de reforçar essa sua impressão do Rio de Janeiro, Lobato lança mão também da opinião de um político influente do período, a despeito das divergências entre eles. Monteiro Lobato escreve na carta de 8 de novembro de 1925 a Godofredo Rangel (LOBATO, 1959: 284):

O Artur Bernardes me disse isto em Belo Horizonte, antes de ocupar a

Presidência: “Só não mudarei a Capital Federal se me for impossível.

Nunca haverá governo decente nessa terra enquanto a sede for no Rio

– naquele antro”. Eu hoje compreendo o que há de certo em tais

palavras [sic].

Dois pontos tornam essa passagem extremamente interessante. A ideia de transferência da capital para outra região do país que se apresentasse livre dos vícios encontrados no Rio de Janeiro. Assim, por um lado, Lobato afirma sua visão extremamente negativa da cidade como lugar desprovido do compromisso com o trabalho, dada a característica de parasitismo de sua população, e que se torna, como a cabeça do país, um péssimo exemplo para a nacionalidade. Por outro lado, Lobato lança mão da opinião de Artur Bernardes com quem tem inúmeras desavenças. Essa também é uma forma de percebermos como Lobato molda as opiniões alheias de forma a corroborar sua própria visão. O que une as opiniões desses dois homens, cujas

diferenças já eram percebidas no momento da escrita dessa carta e que se acirrariam logo em seguida – tendo como marca os textos de Mr. Slang e o Brasil –, é uma ideia de decência necessária ao governo e que não podia ser encontrada no Rio de Janeiro. Se até mesmo Artur Bernardes, eleito por Lobato como símbolo da imoralidade na Primeira República, atribuía ao Rio de Janeiro tais características, o que pensaria um homem moldado pela moralidade típica da Paulistanidade?12

Referências a essas críticas ao Rio de Janeiro também foram feitas por Assis Chateaubriand, proprietário de O Jornal, com o qual Lobato colaborara durante sua permanência no Rio de Janeiro. Segundo Chatô, Artur Bernardes não suportava o Rio de Janeiro e já sugerira anos antes a mudança da capital para o interior de Goiás. O carioca era visto como um “malandrim”, um sátiro, ofensor da moral com sua nudez pecaminosa que faz desacreditar o prestigio da autoridade (MORAIS, 1994: 164). A possibilidade de uso político dessas críticas ao Rio de Janeiro, atribuídas a Artur Bernardes, não apaga sua proximidade com a visão de Monteiro Lobato. O fato de o autor paulista reconhecer em seus textos essas críticas demonstra que as divergências políticas não extinguia uma moral conservadora comum que moldava o caráter desses dois homens.

Contudo, é exatamente o caráter político que dá um sentido próprio às representações do Rio de Janeiro nos textos de Monteiro Lobato. Percebemos nas críticas feitas pelo autor à capital federal o caráter político de seus textos. A contraposição às características do Rio de Janeiro é encontrada em São Paulo. Nessa contraposição ao parasitismo carioca, Lobato destaca a vitalidade de São Paulo, percebida após o levante tenentista de 1924. Segundo o autor, “a guerra terminara pela manhã, e à tarde já havia homens remendando as fachadas” (LOBATO, 1959: 265). A crise de 1924 e o bombardeio da cidade são motivos de revolta para Lobato, pois para ele, “São Paulo é a terra da paz” (LOBATO, 1959: 266). Nas representações da cidade de São Paulo, a capital paulista é apontada também como a cidade moderna, onde “tudo é movido pela eletricidade” (LOBATO, 1959: 278).

12 As questões relativas à ideia de Paulistanidade e o lugar atribuído por Monteiro Lobato a Artur Bernardes na história da República serão mais atentamente discutidos no segundo e terceiro capítulos, respectivamente.

Em contraponto, o Rio de Janeiro tem como característica sua natureza imutável. Enquanto São Paulo é o símbolo do trabalho humano, o Rio de Janeiro dá a ideia de um enorme cancro que parasita e suga toda a seiva do Brasil. Dessas características do Rio de Janeiro, Lobato molda a ideia de parasitismo defendido pelo personagem Mr. Slang. Esse é o principal motivo do inglês, estudioso do parasitismo social, residir por tanto tempo, cerca de 30 anos, na Tijuca, o lugar mais exótico e mais revelador do parasitismo humano já encontrado por Mr. Slang. Essa visão negativa de Lobato é sintetizada na frase: “ou o Brasil dá cabo desse Rio de Janeiro, ou o Rio de janeiro dá cabo do Brasil” (LOBATO, 1959: 284).

Não é novidade nesse período o conflito, por vezes velado, entre as elites intelectuais de São Paulo e do Rio de Janeiro pelo posto de centro irradiador da cultura nacional. Monteiro Lobato carrega a marca da disputa já presente durante o Império (RICÚPERO, 2004) e acirrada durante o período republicano entre elites que buscavam o domínio do campo intelectual brasileiro. Os conflitos entre São Paulo e Rio de Janeiro se estendem entre o campo político e cultural. Os dois estados disputaram o lugar de centralidade da cultura nacional devido ao crescimento econômico, verificado em São Paulo, ao final do século XIX, e à posição privilegiada que o Rio de Janeiro possuía por ser a capital do Império e permanecer como capital na República.

O curioso é perceber como o fortalecimento das ideias nacionalistas provoca o aumento do conflito no campo cultural entre as diferentes regiões do país. Esse conflito revela a busca pela essência da nacionalidade que, em São Paulo, disseminou a comparação entre o estado com as outras regiões do país como forma de valorizar as características da Paulistanidade. Seguindo esse roteiro, Monteiro Lobato aponta o Rio de Janeiro como um lugar “pavoroso” (LOBATO, 1959: 277) e Minas Gerais como “um estagno” (LOBATO, 1959: 291). As características de cada região podiam ser captadas na personalidade de seu povo. Essa possibilidade era apontada na indicação da operosidade do paulista ou na forte relação dos mineiros com sua tradição, sendo que tanto a operosidade quanto a tradição eram qualificações apontadas por Lobato como indicativas de caminhos de formação opostos para as referidas regiões. Essa visão também se aproxima do que Assis Chateaubriand aponta como características de Artur Bernardes. Segundo Chateaubriand, o comportamento do presidente à frente do governo estava relacionado ao ambiente isolado de Minas Gerais no qual fora criado. Essas

características impediriam que o presidente tivesse uma visão moderna que acompanhasse os anseios de São Paulo ou a vitalidade do Rio de Janeiro (MORAIS, 1994: 164) – ponto em que a visão de Assis Chateaubriand se afasta das ideias de Monteiro Lobato.

Na Barca de Gleyre, em carta de 11 de fevereiro de 1926, encontramos uma síntese da visão de Lobato sobre essa relação entre lugares e experiências diferenciadas, que pode ser aplicada à sua experiência em São Paulo e no Rio de Janeiro. Segundo Lobato, “no contraste reside o sabor das coisas e ninguém conheceria o doce do mel se desconhecesse o amargo da quassias” (LOBATO, 1959: 288). Dessa forma, estar no Rio de Janeiro reforçava em Lobato, como percebido em seus textos de Mr. Slang e o

Brasil, as características positivas de São Paulo como lugar de modernidade, progresso

e trabalho, e exemplo a ser seguido pela nação.

Outro ponto a se destacar é o fato de a então capital federal apresentar a Monteiro Lobato um novo cenário de debates em um período de crise econômica, política e social. Estando no Rio de Janeiro ao final do tumultuado governo de Artur Bernardes, Lobato acirra suas criticas ao que via como desmandos do presidente e como vícios do próprio regime político republicano. Nesse contexto, o autor não encontrava- se como voz isolada. No campo intelectual, foram inúmeras as criticas ao governo federal. O meio de ação mais influente e mais atuante desses intelectuais no Rio de Janeiro foi a imprensa. Do mesmo modo, junto a sua atuação como editor, o escritor Monteiro Lobato buscou seu lugar no campo intelectual carioca também através da imprensa.