Em 1897, quando a EEPA foi inaugurada, 57 alunos estavam matriculados entre os cursos de Agrimensura e Estradas, entre os quais, 45 estavam regularmente inscritos. Os cursos possuíam duração de três anos e, portanto, em 1899 se formaram os primeiros Engenheiros diplomados pela EEPA. No entanto, ao comparar-se o número dos primeiros matriculados com o dos primeiros diplomados, percebe-se uma grande disparidade. Mesmo se considerando que os ingressantes de 1897 pudessem ter concluído o curso apenas em 1900, a diferença continua. Ou seja, levando em conta apenas os primeiros alunos matriculados regularmente na EEPA, até 1900, menos de 40% havia concluído o curso no prazo normal.
Gráfico 1 - Ingresso e Egresso de alunos (1897-1900)
Fonte: Elaborado pela autora (2013).
Embora isto não comprove a desistência ou reprovação dos outros vinte e oito alunos, os dados chamam à atenção.108 A hipótese de que eles possam ter concluído o curso
posteriormente existe. Porém, nos relatórios da instituição, os dirigentes deixam claro o acentuado número de reprovação ocorrido no início da EEPA, o que, como já foi tratado, levou à criação do Ginásio do Rio Grande do Sul, em 1900.109 Além do mais, em 1898 apenas
dez alunos ingressaram na Escola110.
Segundo os Estatutos de 1900, o ingresso na instituição se dava por meio de exames de admissão, realizados nos meses de fevereiro e perante uma comissão de três professores. O candidato precisava pagar uma taxa de inscrição e ser aprovado em todos os exames, já que com a reprovação em qualquer uma das provas seria considerado inabilitado. Os conhecimentos exigidos centravam-se no domínio de Português, Inglês, Francês, Geografia, História, Aritmética, Álgebra, Geometria, Trigonometria (retilínea e esférica), Desenho elementar (desenho por meio do lápis e crayon, sobretudo, de figuras geométricas), Desenho geométrico e Aquarelas.
Nos relatórios da instituição não são muitas as informações sobre estes exames. Em A Federação, tampouco. Em geral, a Escola apresentava a listagem de alunos matriculados em cada ano dos cursos, mas pouco se sabe sobre a aplicação e níveis de dificuldade destes os exames admissionais. Porém, as áreas de conhecimento sobre as quais se exigia domínio mostram uma seleção criteriosa, em especial, ao que se refere às disciplinas exatas e de
108 Destes, dois alunos foram excluídos da Escola, em conformidade com o artigo 100 dos Estatutos. Sem acesso
aos primeiros estatutos, não se pode afirmar o motivo exato da exclusão de Felix de Faria Valle e Ricardo Quartin de Moura. Fonte: A Federação, nº 187, p. 2.
109 Hassen e Ferreira, p. 20.
110 Para o gráfico não se consideraram os dez alunos ingressos em 1898, pois a ideia seria de uma comparação
desenho. Dados anuais sobre a quantidade de alunos inscritos nos exames e de alunos matriculados permitiria mais inferências; sem eles, porém, pode-se apenas indicar algumas tendências, conforme tabela a seguir.
Tabela 1: Exames de admissão aos cursos superiores da EEPA - 1909
INSTITUTO: CANDIDATOS: APROVADOS: REPROVADOS:
Engenharia 23 22 1
Eletrotécnica 6 3 3
Agronomia e Veterinária 38 36 2
Fonte: Elaborado pela autora (2013)111
Seriam aceitos atestados de exames de outras instituições, tanto das oficiais quanto das livres. Entretanto, este critério não valia para as provas práticas (desenho), e atestados nas disciplinas de matemática deveriam ser emitidos por institutos congêneres à EEPA.
Para ampliar a análise, pode-se estabelecer um paralelo dos alunos que entraram na Escola após a criação do Ginásio e da inclusão de um ano de curso preparatório antes das aulas de engenharia e o número de formandos. Considerando o ano de 1908 como exemplo, e apenas os alunos ingressantes pelos novos estatutos, estiveram inscritos no primeiro ano de curso do Instituto de Engenharia Civil – o que correspondia ao ensino preparatório – oito alunos, dos quais apenas três graduaram-se na EEPA até 1916. No segundo ano – com disciplinas mais específicas – estavam inscritos quinze alunos, dos quais apenas quatro não se diplomaram no período. No Instituto de Eletrotécnica, que estava em seu primeiro ano de funcionamento, três alunos estiveram matriculados, dos quais um concluiu o curso até 1916. Eram estes os dois cursos superiores de Engenharia oferecidos pela Escola naquele momento. Assim, dos onze alunos que ingressaram na instituição em 1908, em curso superior de Engenharia, cinco graduaram-se até 1916, período de análise que este estudo abrange. Porém, quando consideramos os alunos do segundo ano da Engenharia Civil, o número de evasão diminui, o que indica uma tendência maior de desistência, abandono ou troca de curso entre os alunos da fase preparatória.
Para efeitos de comparação, analisou-se o nome dos alunos matriculados na Escola em 1901, considerando-se os alunos que estavam no primeiro ano – todos os alunos do primeiro ano estavam matriculados no curso de Engenharia de Estradas – e do extinto curso
111 Dados extraídos do Relatório da Escola de Engenharia de Porto Alegre, Instituto Julio de Castilhos, 1909,
preparatório, que devido à supressão, os alunos que ainda o cursavam estavam no segundo ano. No curso preparatório estiveram matriculados seis alunos, dos quais quatro concluíram até, no máximo, 1908. Dos alunos do primeiro ano de Estradas todos se diplomaram ao menos como Engenheiro de Estradas, até 1904.112 Ou seja, dos doze graduandos de 1901, quase
todos concluíram curso superior na instituição.
Apenas para se estabelecer um quadro mais geral e se ter uma ideia sobre os agrônomos, pode-se dizer que dos trinta e dois matriculados no primeiro ano do curso em 1912, dezesseis concluíram o curso até 1916. Uma análise geral dos graduados até 1920 mostra que os dezesseis alunos que não se diplomaram até 1916, também não concluíram o curso posteriormente. 113
Apesar de estes dados possuírem certa fragilidade, uma vez que se está considerando apenas um pequeno grupo de alunos e de anos diferentes e esparsos, acredita-se que eles podem indicar um pouco do universo de ingresso e egresso de alunos na instituição. De certo modo, pode-se dizer que uma parte significativa dos alunos que ingressavam nos cursos superiores não chegava a concluí-los, mas tais informações merecem estudos mais aprofundados. Seria necessário um estudo sequencial, ano a ano, para perceber se, de fato, a dificuldade maior era concluir o curso no qual se ingressava, já que ao menos pelos exames admissionais de 1909, nota-se que ingressar na instituição não seria um empecilho. Mais uma vez salienta-se que estes dados não significam que os alunos que não concluíram o curso até 1916 não possam tê-lo feito mais tarde. Trata-se aqui, de hipóteses que podem ser feitas a partir dos dados aos quais se teve acesso, mas que como dito, devem contar com estudos posteriores.
Quando em 1921 a EEPA celebrou 25 anos de fundação, o Jornal A Federação apresentou um balanço da instituição, publicando o número de matriculados até 1920, e o número de alunos que concluíram cursos nos diversos estabelecimentos de ensino. 114
112 Alguns concluíam o curso de Estradas/Agrimensura/Agronomia e, em seguida, cursavam as disciplinas
necessárias para graduarem-se em Engenharia Civil.
113 Os anos definidos para análise referem-se aos anos dos quais conseguiu-se acesso aos relatórios ou listas de
alunos.
Gráfico 2 – Quantidade de alunos matriculados na EEPA entre 1897-1920
Fonte: A autora (2013)
Tabela 2: Diplomados de todos os cursos da EEPA até 1921
CURSO FORMANDOS Engenheiros Civis 142 Ginasial 131 Capatazes rurais 81 Engenheiros Mecânicos-eletricistas 51 Engenheiros Agrônomos 46 Engenheiros de Estradas 26 Mestres de oficinas 25
Agrimensores ou Eng. Geógrafos 11
Montadores 8
TOTAL: 521
Como o foco desta dissertação é a análise sobre os diplomados nos cursos superiores da EEPA, destacaram-se na tabela aqueles que correspondiam a esta formação. Destarte, pode-se concluir que, ao menos, até 1920, a instituição caracterizou-se principalmente pelo ensino superior em Engenharia, pois formou duzentos e setenta e seis Engenheiros, em diversas especialidades. Mesmo assim, não se pode deixar de considerar a importância que tiveram o ensino ginasial e técnico profissional, que juntos diplomaram duzentos e quarenta e cinco homens. É notável ainda, a importância adquirida pelo Instituto de Agronomia e Veterinária que mesmo sendo inaugurado somente em 1910, formou entre Agrônomos e Capatazes Rurais, cento e vinte e sete pessoas, número próximo aos de Engenheiros Civis, curso que existia desde o início da instituição.
A tabela 2 também mostra o número relevante de Engenheiros Mecânicos-Eletricistas, principalmente ao lembrar que, até 1909, apenas quatro alunos estavam matriculados no curso, e dos quais apenas dois se formaram. O curso obteve um crescimento no número de alunos, sobretudo a partir de 1916. Até aquele ano, que compreende o período de análise dos diplomados, trinta e um Engenheiros Mecânicos-Eletricistas diplomaram-se na Escola, o que significa que, em quatro anos, teriam se diplomado mais vinte Engenheiros nesta especialidade.
É ainda possível observar que se até 1920 a Escola havia diplomado 276 Engenheiros, e na presente dissertação analisar-se-ia 203, em quatro anos graduaram-se mais setenta e três engenheiros. Este número é menor do que os diplomados entre 1915 e 1916, que juntos totalizam oitenta. No entanto, vão ao encontro do número de matriculados apresentados pela A Federação, em que podemos ver que entre 1910 e 1915 os matriculados quase triplicaram, enquanto que de 1915 a 1920 o número foi superior ao dobro. Evidencia-se então, um período de expansão da instituição iniciado em princípios da década de 1910.