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B. Toleranse hos dyreartene i målgruppen

9. Interaksjoner

O que pretendemos demonstrar neste estudo é que o jornalismo que aproxima e põe em conversa jornalistas e públicos é factual, e não especulação hipotética. Ainda que esteja a percorrer um caminho de experimentação, o jornalismo integrador convida deliberadamente as audiências ativas a participarem na construção conjunta do real. Estamos a assistir a uma evidente necessidade das empresas noticiosas televisivas se aproximarem das suas audiências, quer, por um lado, por via da personalização de conteúdos on e offline quer, por outro, pela convergência de conteúdos profissionais e não-profissionais nos alinhamentos dos jornais televisivos.

Mas como se processa este encontro? Aparentemente trata-se de um processo que se desenrola com relativa naturalidade, ao contrário do que inicialmente se poderia supor. Um processo que, no entanto, não deixa de exigir um alargamento de competências de escrutínio e tecnológicas por parte dos jornalistas e de outros atores que a redação entretanto acolheu, nomeadamente especialistas em software, linguagem online, dinâmicas das redes sociais digitais ou designers multimédia, os chamados tecnoatores (Canavilhas et al., 2014).

Estaremos, globalmente, a assistir a uma reconfiguração do jornalismo e da forma de contar histórias: com fontes alargadas, com conteúdos amadores, com a proliferação das oportunidades e desafios que a tecnologia disponibiliza a profissionais do jornalismo bem como a utilizadores (Allan, 2013, 2007). Segundo Karin Wahl-Jorgensen (2015), a integração de conteúdos amadores nos alinhamentos dos noticiários broadcast televisivos desencadeia dois tipos de defesa dos jornalistas: a cooptação e a segregação. Defrontamo-nos aqui com o período de negociação, mais ou menos tenso, da convergência de conteúdos pro-am (profissionais e amadores). Em última análise, como propõe a autora, “é um desafio epistemológico (…) às teorias do conhecimento associadas ao jornalismo convencional”165 (p.

170). Trata-se, portanto, de uma abordagem que

(…) implica uma compreensão de como os processos de justificação dos jornalistas envolvem a construção de narrativas que operam dentro das convenções estabelecidas pelas formas institucionais do saber, circunscritas por relações de poder. (…) Noutras palavras, esta abordagem compreende a ‘vontade pela verdade’ do jornalismo dentro de um quadro ideológico mais amplo.166 (pp. 170, 171)

Assim sendo, a avaliação positiva que as audiências fazem do conteúdo gerado pelo utilizador ‒ maioritariamente, no que diz respeito ao jornalismo televisivo, imagens amadoras, que são valorizadas por serem mais ‘autênticas’ do que as profissionais ‒ acarreta uma nova

165 Tradução do texto original: “an epistemological challenge (…) to the theories of knowledge associated with conventional journalism”.

166 Tradução do texto original: “entails an understanding of how journalists’ processes of justification involve the construction of narratives that operate within conventions established by institutional forms of knowing, circumscribed by power relations. (…) In other words, this approach understands the ‘will to truth’ of journalism as embedded within a larger ideological framework”.

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concepção do storytelling, mais pessoal, mais emotivo e mais realista. O que aparenta contrastar com a “distância profissional do jornalismo, que envolve uma abordagem ‘fria’, ‘individual’, ‘objetiva’ e ‘distanciada’”167 (p. 172) e exige uma ampla discussão acerca da

mais-valia do verificador profissional.

O que temos, então, é uma incorporação crescente pelo jornalismo de conteúdos gerados pelo utilizador ‒ dos quais destacamos as testemunhas oculares que disponibilizam as suas gravações na rede ‒, caracterizados pela falta de ‘polimento’ (p. 173), e a transformação desse conjunto de material recebido em conteúdos confiáveis e enquadráveis numa estrutura noticiosa. Tal posição, sustenta Wahl-Jorgensen, reafirma a necessidade de limitação, por parte do jornalismo profissional, das contribuições não-profissionais. É o chamado trabalho de fronteira. O que indica, por um lado, que o jornalista vê o conteúdo amador como um acrescento à agenda ou ao alinhamento, e, por outro, que as audiências que contribuem com material com possível valor noticioso são fontes importantes.

Assim, afirma a autora, as organizações noticiosas estão a optar por estratégias claras para fazer frente à nova realidade de abertura do jornalismo às audiências: a integrar estes conteúdos a par dos criados pelos profissionais, portanto, a cooptá-los; e a distingui-los discursivamente dos profissionais, ou seja, a segregá-los. Desta forma, a utilização destes conteúdos é normalizada e bem aceite pelas audiências e pelos jornalistas. Pela nossa parte, não vemos nesta estratégia uma diminuição da importância destes contributos, mas sim uma necessidade de enquadramento, contextualização, verificação e edição que continuam a ser exigidos aos profissionais de jornalismo e não às audiências. Posto isto,

(…) o jornalismo tem localizado estratégias bem-sucedidas para defender o seu território e policiar as suas fronteiras: os profissionais dão relevância, consistentemente, à importância duradoura das habilidades jornalísticas, e cuidadosamente protegem e delimitam as oportunidades de participação (…), e afirmam o controlo sobre o processo de produção. Ao mesmo tempo, verifica-se também que novas formas de (…) narrativa jornalística (…), bem como as mais antigas (incluindo notícias convencionais) estão a ser moldadas e irreversivelmente alteradas pela inclusão de conteúdo gerado pelo utilizador, que é muitas vezes mais pessoal, subjetivo e baseado na experiência do que a reportagem jornalística ‘objetiva’.168 (p. 182)

Isto tem levado a que as organizações noticiosas estejam a desenvolver um trabalho cuidadoso, consistente e escrutinado na integração destes conteúdos, abrindo espaço ao jornalismo de cooperação, mas preservando o lugar de relevância que a profissão continua a ter em qualquer sociedade democrática.

167 Tradução do texto original: “professional distance of journalism, which involves a ‘cold’, ‘detached’, ‘objective’ and ‘distanced’ approach”.

168 Tradução do texto original: “journalism has located successful strategies for defending its turf and policing its boundaries: professionals consistently make the case for the lasting importance of journalistic skills, and carefully design and delimit participatory (…), and assert control over the production process. At the same time, it is also the case that new forms of journalistic storytelling (…), as well as older ones (…) are being shaped and irreversibly changed by the inclusion of user-generated content, which is often more personal, subjective, and experience-based than “objective” journalistic reporting”.

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O trabalho de Peter Lee-Wright, Angela Phillips e Tamara Witschge, intitulado Changing Journalism (2012), veio traçar algumas das principais alterações que as redações vivem dentro de um cenário de desafio ao jornalismo, no qual a produção, a interpretação e a distribuição são redefinidas. Foi, aliás, a partir desta obra e do trabalho que a sustentou que resolvemos avançar para a observação participante de três anos na redação de informação da TVI. Entre as conclusões dos autores encontra-se um dos argumentos que perfilhamos no nosso estudo: a internet não veio acabar com os média tradicionais, veio, em sentido oposto, reestruturar algumas modalidades de formulação noticiosa e de captação de fontes, alargando o espectro de atuação do jornalismo profissional. As possibilidades que as novas tecnologias trouxeram às audiências tiveram implicações, naturalmente, no trabalho do jornalista, quer ao nível da seleção quer ao nível da verificação. Tanto assim é que, como destacam os autores, os contributos dos utilizadores tornaram-se indispensáveis, passando mesmo a haver agências que se dedicam a procurar imagens amadoras para as fornecer às organizações noticiosas.

Outra das ilações dos autores foca-se nos cidadãos, que recebem bem as contribuições amadoras nos noticiários que veem, sem deixarem de eleger o trabalho profissional dos jornalistas como essencial para a gestão da sua vida. Se os novos meios diluíram as barreiras à entrada de conteúdos de não-profissionais no campo das notícias, as empresas noticiosas só se manterão essenciais se continuarem relevantes para as audiências que

(…) agregam notícias, disseminam notícias e comentam as notícias. Estes são todos atos válidos que podem providenciar um serviço público. Mas nós precisamos de nos assegurar de que continua a haver notícias para agregar, disseminar e comentar. As notícias, como a democracia, são importantes demais para serem deixadas às vicissitudes do ciclo económico ou dos caprichos da tecnologia da moda.169 (Lee-Wright, Phillips, & Witschge, 2012, p. 20)

Ou ainda, acrescentamos nós, às motivações pessoais de utilizadores que não têm qualquer obrigação com a verdade ou sequer são julgados pelas publicações marcadamente parciais que possam fazer. O que pretendemos reforçar é que o ofício do jornalista não deve ser entregue a uma mera discussão tecnológica ou a uma possível substituição pelo dito jornalismo cidadão. No entanto, não é possível escamotear que estas novas variáveis ‒ de participação e de disseminação ‒ trouxeram sérias implicações ao jornalismo. Nomeadamente, e no que respeita ao jornalista broadcast, são-lhe exigidas cada vez mais horas em direto e a capacidade de atuar num cenário de mix-media, lidando com várias linguagens em diferentes plataformas a propósito de um só conteúdo.

Os autores concluíram que os jornalistas e os editores entrevistados reconhecem a atual necessidade da participação do utilizador, embora a forma como essa participação é empregue leve a que os jornalistas tenham uma visão ‘minimalista’ sobre a mesma, essencialmente baseada nos comentários. Quanto a este ponto, o nosso estudo apurou um

169 Tradução do texto original: “aggregate news, disseminate news and comment on news. These are all valuable acts that can provide a public service. But we need to ensure that there continues to be news to aggregate, disseminate and comment upon. News, like democracy, is too important to leave to the vicissitudes of the economic cycle or the whims of technological fashion”.

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acréscimo, quer de material amador nos noticiários televisivos, quer do apelo à participação nos sites dos canais noticiosos, quer ainda da atenção sobre preferências dos utilizadores nas redes sociais digitais.

Por isso, concordamos com os autores quando concluem que o

(…) jornalismo está de facto a mudar. Pode bem estar a entrar uma era de maior escrutínio, de maior acesso a dados, de possibilidades excitantes para a interação em dois sentidos com a audiência e experimentação com modos de distribuição. (…) Este é um momento crítico para o futuro do jornalismo, e requererá os esforços de muitas pessoas que não são jornalistas, tal como aqueles que são, para assegurar que os média noticiosos genuinamente responsáveis, livres e diversos emirjam desta ‘tempestade perfeita’.170 (p. 153)

O que nos parece igualmente evidente, e lembrando Kovach & Rosenstiel (2014), é que esta falta de clareza sobre o que é ou não jornalismo pode gerar um enfraquecimento do mesmo. O que, em consequência, deixa

(…) os jornalistas e os cidadãos menos equipados para lidarem com os efeitos da transformação digital, a qual obriga a uma maior clareza do propósito daqueles que produzem as notícias e uma consciência acrescida daqueles que as consomem.171 (Kovach & Rosenstiel, 2014, p. 8)

Torna-se, pois, difícil aceitar a ideia de substituição do jornalismo profissional por um conjunto de perspetivas que, em comum, na maior parte das situações, têm somente interesses subjetivos, particulares, meramente ampliados pela força que as tecnologias de informação e comunicação hoje permitem. Continuamos, por isso, a sublinhar que a facilidade de acesso à informação e partilha da mesma não substitui ‒ ou sequer diminui ‒ a importância do jornalismo profissional. Com efeito, o jornalismo como profissão e know-how, atesta Erik Neveu (2010), está a presenciar um conjunto significativo de mudanças que, no nosso entendimento, resultam num quadro de grande desafio para jornalistas e para as empresas noticiosas. O autor refere que:

a vontade de muitos leitores e telespectadores de desempenhar um papel mais proativo, o surgimento de uma faixa de suprimento de informações entre o amadorismo e o jornalismo profissional, e o número crescente de websites adicionais não são coqueluches ‒ eles vão durar. Montar e domesticar o tigre são então uma tática mais esperta do que opor uma resistência sem sentido. (p. 47)

A visão de Neveu acentua a importância do caminho para o jornalismo integrador: não impedir ‒ até porque nem seria possível nem pertinente ‒, mas antes delimitar a integração de temas, conteúdos e contribuições que realmente tragam valor acrescido, num processo que se quer mais aberto, mais inclusivo, e também mais escrutinador, mais apurado e mais transparente. Desse modo, esta aproximação entre jornalistas e não-profissionais poderá resultar na combinação do melhor de dois mundos, como reforça Neveu: “o melhor das

170 Tradução do texto original. “(…) journalism is indeed changing. It could be entering an era of greater accountability, more access to data, exciting possibilities for tow-hay interaction with audiences and experimentation with modes of delivery. (…) This is a critical moment for the future of journalism, and it will require the efforts of many people who are not journalists, as well as those who are, to ensure that genuinely accountable, free and diverse news media emerge from this ‘perfect storm’”.

171 Tradução do texto original: “journalists and citizens less equipped to cope with the effects of the digital transformation, which demand more clarity of purpose from those who produce the news and greater awareness from those who consume it”.

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aptidões analíticas e expressivas dos jornalistas com o recurso investigativo e omnipresente da audiência” (p. 48). Por isso mesmo é que a exigência se deve centrar agora na exploração e inovação de géneros jornalísticos, que resulte de uma aproximação da atividade às audiências. E mesmo que o jornalismo continue a depender da força do mercado, “um mundo sem jornalistas seria mais impenetrável, mais difícil de compreender, mais aberto à manipulação” (p. 53).

Deter-nos-emos, em seguida, numa das funções que mais caracterizam e vincam o papel do jornalista profissional: o gatekeeping, a seleção, escolha e edição do que entra no gate mediático, o qual não escapa naturalmente ao enunciado fenómeno de transformação acelerada.

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