A proposta que apresentei aos profissionais ao iniciar a pesquisa objetivava integrar as iniciativas de apoio dos diversos sujeitos das redes sociais como forma de incrementar as ações de saúde e, desse modo, superar algumas das dificuldades enfrentadas no trabalho das equipes. Todos os profissionais se mostraram receptivos à idéia, alguns, inclusive, se mostraram bastante entusiasmados com a proposta, apontando formas possíveis de interação.
Ao longo da pesquisa, porém, surgiram dificuldades para uma maior aproximação desses profissionais com as atividades propostas e planejadas, especialmente em função da rotina de trabalho nas unidades de saúde da família. Nos momentos em que houve maior interação dos profissionais, seja através de sua participação nas reuniões com a rede social, seja através de contatos individuais onde discutíamos questões relativas a algumas das pessoas com deficiência, sentíamos a potencialidade que a articulação entre as diversas ações em curso traria para as práticas de saúde. Constatávamos, assim, que o potencial de transformação das situações sociais pode ser reforçado através de práticas de saúde integradas à rede social. Verifica-se que ao fortalecermos a rede social externa e intensificarmos o apoio social familiar, ajudamos afortalecer o interno dos sujeitos, a autoconfiança, a identidade e o senso de controle diante das situações da vida. A possibilidade de ter profissionais de saúde integrados em rede amplia o acolhimento e o cuidado dos sujeitos doentes e seus familiares. (LACERDA; VALLA, 2003).
Todavia, um dos fatores que dificultavam bastante uma interação mais sistemática dos profissionais das equipes de saúde da família com as demais pessoas da rede social era a falta de tempo por parte desses profissionais para participar de reuniões e até mesmo para discutir na unidade questões pertinentes ao trabalho em curso. Os profissionais, em geral, estão sobrecarregados com as tarefas rotineiras da unidade de saúde e não encontram disponibilidade para ampliar ou modificar sua atuação. Além disso, as dificuldades enfrentadas no trabalho nesse nível de atenção à saúde vêm causando frustração e desânimo nesses profissionais, não favorecendo o desenvolvimento de novas propostas de trabalho. Aquela atividade representava uma forma de alargamento da abordagem dos problemas de saúde e como tal, tinha um custo institucional, implicando a criação de espaços educativos e reflexivos, bem como uma reorientação da rotina de trabalho dos profissionais que se preocupe também com a sobrecarga emocional do trabalhador de saúde. (VASCONCELOS, 1999).
Essa questão ficou bem caracterizada nas colocações da médica. Ela é uma profissional muito empenhada nas suas funções, dedicada ao trabalho na USF, mostra-se sempre receptiva e entusiasmada com as propostas que lhe apresentamos. No entanto, ficou evidente o desânimo diante de tantas dificuldades que vem encontrando no trabalho no PSF e a sobrecarga de atividades que estão sendo impostas às ESFs. Estas questões vêm comprometendo a atuação dos profissionais no sentido de uma modificação da lógica de atuação na estratégia saúde da família. Essa profissional se preocupa com a pouca resolutividade das ações que realizam na USF em função da falta de material, como também pelos impedimentos no sistema de referência. Revela sua angústia com as dificuldades que a população enfrenta para adquirir os medicamentos e realizar exames complementares. Ao mesmo tempo, se irrita com a falta de compreensão da comunidade, que cobra dos profissionais a insuficiência dos recursos e a falta de resolutividade em ações que não estão na competência da equipe de saúde da família em resolver.
O acúmulo de tarefas nas USFs não se dá apenas em decorrência da elevada procura por atendimento clínico, mas também pela necessidade de que os profissionais dêem conta de tarefas administrativas e burocráticas. Essa médica explica que tem uma série de questões de estrutura e de manutenção da unidade que caberiam a uma gerência prover, mas que resta aos profissionais preocuparem-se com essas demandas, dando conta, inclusive, do estoque de receituários, de requisição de exames etc. Há, ainda, a questão burocrática como o preenchimento dos formulários que alimentam o sistema de informações do SUS. A marcação de consultas nos serviços de referência é outro problema, pois é feita por telefone, requerendo horas para se conseguir uma ligação. De acordo com ela, as oito horas que permanecem na unidade não são suficientes para dar conta de tudo. Essa médica considera que os profissionais perdem muito tempo com essas atribuições, dificultando a realização de outras atividades, a exemplo das ações de educação em saúde. Atesta também que essa falta de materiais, de insumo, de medicamentos causa muito desgaste, e acha que os usuários se irritam facilmente com esses problemas.
Esse desabafo, vindo de uma profissional comprometida com o SUS, que acredita na estratégia saúde da família como uma forma de reorganização do sistema de saúde, revela a dimensão das dificuldades por que passam as equipes de saúde da família. Entretanto, revela também a necessidade do envolvimento da população na organização desse sistema de forma que ela possa ser parceira da ESF, ao invés de se colocarem na posição de opositores.
Costumeiramente, os profissionais de saúde são vistos pela população como representantes dos poderes públicos e como estão mais acessíveis fisicamente, deles são
cobradas as questões que comprometem o funcionamento dos serviços. Esses profissionais sentem-se duplamente atingidos, sem respaldo por parte dos gestores e cobrados pela população. Em um trabalho de Educação Popular em Saúde os profissionais buscam se aliar à população, contribuindo com a organização coletiva no sentido de assegurar as conquistas sociais e o cumprimento das obrigações governamentais. Assim sendo, a perspectiva de integração entre os profissionais e os moradores da comunidade, com suas lideranças, na condição de atores da rede social reforça essa relação de parceria, podendo contribuir para encaminhar as possíveis saídas para os problemas.
Vale ressaltar que a articulação das diversas práticas de apoio social parte da necessidade sentida pelos sujeitos envolvidos nessa trama social e do compromisso com a busca de soluções mais adequadas à realidade concreta de saúde da população. A interação com os atores da rede social faz parte do cotidiano dos serviços de atenção básica, e embora esteja instituída sob a denominação genérica de participação popular, pode ser incentivada e apoiada pelos gestores de saúde.
Em função das dificuldades mencionadas, a participação dos profissionais de nível superior das equipes se deu, principalmente, de forma mais pontual, em torno de questões concretas e mais imediatas. Isso não invalida sua participação como membro da rede social, pelo contrário, compreendo que nas condições de trabalho em que eles se encontram atualmente, talvez seja essa a forma de atuação mais viável. Vale ressaltar que essa ativação pontual das redes já acontece sem que as pessoas envolvidas se dêem conta disso. O que propomos é reconhecer sua existência, dar visibilidade a essas redes, articular suas ações fragmentadas, dando reconhecimento e valorização à atuação dos membros da rede que não costumam ter visibilidade.
Em alguns momentos houve uma interação mais efetiva dos profissionais da equipe com o grupo que estava se formando, extrapolando as atividades rotineiras na unidade de saúde. O envolvimento da enfermeira na organização, divulgação e realização da apresentação do grupo da FUNAD foi um desses momentos. Ela tomou providências no sentido de conseguir um meio de transporte junto ao Distrito Sanitário, participou da tarefa de apanhar as pessoas em suas casas e estimulou os moradores a participarem. Era um trabalho em parceria, onde as ações dos vários sujeitos facilitavam a realização da atividade.
O trabalho da equipe de saúde é sempre articulado com uma rede mais complexa que envolve serviços de referência, além de outros setores governamentais, numa ação inter- setorial. A proposta da pesquisa tratava, principalmente, da articulação desses profissionais com os atores locais, em nível da rede pessoal e comunitária, sem perder de vista a interação
com os segmentos mais amplos da rede, a qual também fazia parte do processo e com a qual eles tinham mais facilidade de contato do que os moradores.
Evidentemente, um envolvimento mais sistemático dos profissionais das equipes teria facilitado muito o encaminhamento das reivindicações resultantes da discussão nas reuniões, uma vez que o apoio deles nos ajudaria a dar seguimento ao processo em nível institucional, promovendo, por exemplo, um envolvimento dos gestores municipais de saúde. A participação desses profissionais nas reuniões também nos apoiaria no sentido de enfatizar, junto às pessoas com deficiência de suas áreas de abrangência, a importância de participar das reuniões, reforçando nosso convite, e assumindo-se como membro da rede social daquelas pessoas.
Outro entrave para a atuação dos profissionais de saúde, em geral, no trabalho com as redes sociais diz respeito ao seu papel na rede e à postura perante os demais atores. Essa é uma dificuldade que interfere nas práticas de saúde em geral, e que vem sendo apontada pelos debates na Educação Popular em Saúde. Diz respeito à arrogância de muitos profissionais que colocam o saber científico como o único válido e verdadeiro, e por serem detentores desse saber, se consideram em condição de superioridade em relação às pessoas com menor nível de educação formal, estabelecendo-se, assim, relações autoritárias. A postura que essa atuação propõe requer uma relação horizontalizada entre o profissional e os clientes, o que não acontece facilmente, pelo menos não sem que ele repense seus conceitos e preconceitos em relação a uma população pobre e com nível de escolarização extremamente baixo. A concepção de que essas pessoas “carentes” têm dificuldades intelectuais, patente nas falas da maioria dos profissionais entrevistados, dificulta essa relação.
Esse preconceito, oculto, muitas vezes, sob a idéia de que respeitamos as crenças e mitos populares, apenas porque não os condenamos, embora tampouco os incorporemos ao processo de tratamento, ficou claro em alguns momentos. Sua superação exige que a prática de saúde seja práxis, isto é, que a ação seja refletida e reorientada a partir dessa reflexão, o que, conseguintemente, exige espaços próprios de reflexão, e isto, lamentavelmente, não acontecia no grupo de profissionais do qual nós também fazíamos parte. Essa necessidade ressalta a relevância da base teórica da Educação Popular como um caminho que viabilize a reflexão, mas não havia momentos de debate onde os princípios da Educação Popular pudessem ser trazidos à discussão visando contribuir com essa reflexão.
Uma dificuldade adicional que enfrentamos no sentido da adesão das equipes à proposta das reuniões com as redes sociais foi a rivalidade que existe entre elas e a falta de
integração com as lideranças comunitárias. As três equipes implantadas no Grotão não costumam se reunir para debater suas experiências e dificuldades.
Face a essas dificuldades que afetavam mais fortemente os profissionais de nível superior das equipes, a participação dos agentes comunitários de saúde foi mais efetiva nas reuniões. Já havíamos tido outras experiências de trabalhos em grupo com eles, que funcionaram muito bem. O agente de saúde, ao se incorporar à equipe de saúde da família, “traz consigo as suas redes, as suas experiências de participação em grupos, associações, clubes, enfim a sua vida em comunidade” (FONTES, 2004, p.130). Ademais, o fato de que os ACS tinham uma vinculação maior com as pessoas da comunidade, sendo, de fato, parte de suas redes, propiciava o envolvimento nas atividades da pesquisa.