7 Tolkning, Diskusjon og Konklusjon
7.1 Intensjonalitet: utvelgelse av haugfyll og dyr
Baudrillard esclarece, na sua obra Simulacros e Simulação, a diferença entre fingir (dissimular) e simular. Quando alguém finge estar doente pode, entre outras coisas, deitar-se numa cama, fazendo assim crer aos demais presentes que está doente. Mas se quiser simular a doença, essa pessoa terá que apresentar sintomas dessa doençaFingir não interfere com o princípio da realidade, apenas ilude ou disfarça essa realidade. Ao passo que a simulação questiona a diferença entre verdadeiro e falso, pondo, assim, em causa o domínio do real e o domínio
Taxandria na Contemporaneidade 115
do imaginário. Se o indivíduo que simula a doença tem os sintomas (verdadei- ros) da doença, ele não é um doente (por ser um simulador), mas também não é um não-doente. Neste caso seria impossível encontrar a veracidade da doença. Tendo em conta que a medicina avalia e trata as doenças (verdadeiras) pelos seus sintomas, encontramo-nos num beco sem saída, que se encontra represen- tado na obra Memórias do Eterno Presente, em forma de analogia, na sequência em que os sábios ficam alarmados com a temperatura provocada pelo duplo sol, porque embora dominassem os segredos da duplicação, não sabiam reverter esse processo.
Segundo Baudrillard, autor pessimista relativamente às novas tecnologias, actualmente não pensamos o virtual, somos sim, pensados pelo virtual199. E a
incapacidade de nos apercebermos disso afasta-nos progressivamente do real, como um vidro que separa uma mosca, que nele bateu, do mundo exterior.
Tal como, por exemplo, uma mosca não compreende nem consegue imaginar o que está a delimitar o seu espaço, não podemos dimensionar as transforma- ções nas nossas representações do mundo, realizadas pelo virtual. O virtual elimina não só a realidade e a imaginação do real, como a realidade do tempo e, consequentemente, a imaginação do passado e do futuro. No entanto, Lévy200
conceptualiza o virtual não como algo que nos distancia do real mas como uma oportunidade de repensá-lo:
“o virtual, rigorosamente definido, tem somente uma pequena afinidade com o falso, o ilusório ou o imaginário. Trata-se, ao contrário, de um modo de ser fecundo e poderoso, que põe em jogo processos de criação, abre futuros, perfura poços de sentido sob a platitude da presença física imediata.”201
Na opinião de autores como Baudrillard e Virilio o mundo já não pode vol- tar a ser original. A maldição do écran catódico ditou-nos, de acordo com a
199 BAUDRILLARD, Jean – Tela total: mito-ironias da era do virtual e da imagem, Sulina, Porto Alegre, 1997 200 LÉVY, Pierre – O que é o Virtual? São Paulo: Editora 34, 1995.
linha de pensamento anti-tecnológica, um triste fado: o real já não existe. Os acontecimentos reais desvanecem-se por detrás da informação e entram no domínio do virtual. Mas, estas premissas parecem partir de suposições erradas, porque, conforme refere Lévy, o virtual não pode ser visto enquanto contrário do real202:
“(…) o virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual. Contrariamente ao possível, estático e já constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objecto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a actualização.”203
Ainda relativamente à dicotomia entre o real e o virtual, Baidrillard204 lembra
que a interactividade está por todo o lado (Internet, vídeo, consolas de jogos, conteúdos multimedia, realidade virtual); o que antes estava separado, hoje está misturado, devido à retenção do espaço físico.
A distância foi abolida entre sexos, entre protagonista e antagonista, entre sujeito e objecto, entre o original e a cópia. Assim, para Baudrillard205, já não
pode haver juízo de valor, a retenção do espaço físico tornou tudo incontestável, autêntico. O acontecimento torna-se virtual devido à proximidade aguda hiper- real, que lhe rouba a dimensão histórica e a memória.
Segundo o autor206, a interactividade com máquinas não existe, ou pelo
menos não implica uma troca verdadeira. Ou seja, no sentido de troca não existe interactividade. Por detrás do interface encontramos um interesse de rivalidade
202 Deleuze e Guattari partilham da mesma opinião de Lévy: “O virtual não se opõe ao real, mas somente ao atual. O virtual possui uma plena realidade enquanto virtual. Do virtual, é preciso dizer exatamente o que Proust dizia dos estados de ressonância: «Reais sem serem atuais, ideais sem serem abstratos», e simbólicos sem serem fictícios. O virtual deve ser entendido como uma estrita parte do objeto real - como se o objeto tivesse uma de suas partes no virtual e aí mergulhasse como numa dimensão objetiva”. (DELEUZE, Gilles e GUATTARI, Félix. O que é a filosofia. Rio de Janeiro: Editora 34, 1993. p. 335-336.)
203 LÉVY, Pierre – O que é o Virtual? São Paulo: Editora 34, 1995, p. 16.
204 BAUDRILLARD, Jean – Tela total: mito-ironias da era do virtual e da imagem, Sulina, Porto Alegre, 1997. 205 Ibid.
Taxandria na Contemporaneidade 117
ou de dominação. Um exemplo extremo dessa competitividade seria o mediático jogo de xadrez entre o jogador Kasparov e o computador jogador Deep Blue.
Então, a potencial crise provocada pelo alargamento do virtual que implica uma desterritorialização do espaço real e descorporização do homem, não é verdadeira: é apenas virtualmente catastrófica207.
Neste contexto a informação deixou de ter qualquer consequência, devido às auto-estradas de informação (e as perspectivas de desenvolvimento absoluto de todas as redes de informação através da ligação universal) que nos tornaram, na óptica de Baudrillard208, completamente impotentes.
De acordo com o autor, a informação desenvolve-se no hiper-espaço, onde não existe verdadeiro e falso209, estando assim acima da verdade. A informação
é mais verdadeira que o próprio acontecimento, é verdadeira em tempo real e assenta na premissa da credibilidade instantânea. A informação em tempo real é sempre verdadeira, pelo menos enquanto não for desmentida (o que, refira-se, acontece com qualquer verdade ou com a construção de qualquer realidade).
Se a Internet simula em espaço de descoberta, então não é possível descobrir realmente algo, diz Baudrillard. Assim sendo, a liberdade do cibernauta é ques- tionável, tendo em conta que interage através de códigos instituídos, com sites estabelecidos. Ou seja, tudo o que esteja fora dos parâmetros de busca não existe e todas as questões já têm uma resposta (e uma ordem de respostas) estabelecida (automatizada).
Para de Baudrillard, a atracção do homem pela máquina virtual está relacio- nada com a possibilidade de se dissolver num convívio fantasma (que simula a felicidade) e não tanto no desejo de informação e na procura de conhecimento. A virtualidade dá tudo sem dar nada. Elimina as referências e, por isso, aproxima- se de uma felicidade onde o indivíduo se sente realizado.
207 BAUDRILLARD, Jean – Tela total: mito-ironias da era do virtual e da imagem, Sulina, Porto Alegre, 1997. 208 Ibid.
209 Para Lévy: “Longe de circunscrever o reino da mentira, o virtual é precisamente o modo de existência de que surgem tanto a verdade como a mentira. Não há verdadeiro e falso entre as formigas, os peixes ou os lobos: apenas pistas e engodos. Os animais não têm pensamento proposicional. Verdade e falsidade são indissociáveis de enunciados articulados; e cada enunciado subentende uma questão. A interrogação é acompanhada de uma estranha tensão mental, desconhecida entre os animais. Esse vácuo ativo, esse vazio seminal é a essência mesma do virtual. Lanço a hipótese de que cada salto a um novo modo de virtualização, cada alargamento do campo dos problemas abrem novos espaços para a verdade e, por conseqüência, igualmente para a mentira. Viso a verdade lógica, que depende da linguagem e da escrita (dois grandes instrumentos de virtualização), mas também outras formas de verdade, talvez mais essenciais: as que são expressas pela poesia, religião, filosofia, ciência, técnica, e finalmente as humildes e vitais verdades que cada um de nós testemunha em sua existência cotidiana.” (LÉVY, Pierre – O que é o Virtual? São Paulo: Editora 34, 1995, p. 148).
Para Baudrillard, o real (domínio do material) e o virtual (domínio do imate- rial) são esferas não coincidentes e a crescente subjugação do segundo sobre o primeiro conduz, em última instância, ao fim do real, onde o mapa reocupa o lugar do território, como acontece em Sobre o Rigor da Ciência de Jorge Luis Borges.
Pelo contrário, Deleuze enfatiza a importância da distinção entre o virtual (que se relaciona com o passado [domínio do onírico, da imaginação, da memó- ria]) e o actual (que se relaciona com o presente [impregnado de imagens vir- tuais]). Assim, se o virtual e o actual, enquanto constituintes do real, diferem, acima de tudo, na sua temporalidade, talvez possamos pensar o actual enquanto explicitação do presente e o virtual enquanto explicitação do Eterno Presente (ponto de convergência de todos os passados).