Desde 1982, pesquisadores buscam associações entre a diversidade de
advento de novas técnicas de biologia molecular e redução dos custos possibilitaram a realização em maior escala de tais estudos. Hoje, é abundante a quantidade de pesquisas nesta área, utilizando diferentes técnicas, enfocando a relação entre alelos de BoLA e uma série de enfermidades que acometem os animais, dentre elas mastite, leucemia bovina viral, dermatofilose, quetose e ectoparasitoses (Tabela 1).
Tais pesquisas foram bem sucedidas em identificar alelos que se relacionam com a susceptibilidade ou resistência às enfermidades. Para mastite, estudos têm enfocado os genes de Classe II, com destaque ao DRB3 (para referências, ver Tabela 1). Sharif et al. (1998a) e Sharif, Mallard e Sargeant (2000) trouxeram importantes contribuições nesse campo, onde foram capazes de identificar alelos associados com a susceptibilidade à mastite clínica severa e posições de aminoácidos importantes nesta susceptibilidade.
Apesar disso, existem resultados contraditórios entre estudos no que diz respeito ao efeito de alguns alelos específicos (DIETZ et al., 1997; KELM et al., 1997; SHARIF et al., 1998a; STARKENBURG et al., 1997; MACHADO et al., 2005). Tais contradições podem ser decorrentes do tamanho amostral e modelo estatístico, diferentes ambientes e patógenos responsáveis pela enfermidade e do próprio haplótipo de BoLA dos animais estudados. Esse último se deve ao fato de que estudos utilizando marcadores moleculares não necessariamente revelam efeito causal do alelo estudado, podendo representar indiretamente o efeito de regiões próximas mantidas em ligação (como acontece em estudos utilizando associação ampla do genoma; BUSH; MOORE, 2012). Portanto, diferentes populações, apesar de terem o mesmo alelo para um gene de BoLA, podem ter este ligado a variantes distintas de outros genes responsáveis pelo fenótipo resistente ou suscetível observado. Estudos com quadros clínicos provocados por diversos agentes tornam a identificação de associações com
BoLA mais elusiva e complexa.
Enfermidades causadas por apenas um agente etiológico também foram avaliadas. Como exemplo disso, tem-se o vírus da leucemia bovina (Tabela 1). Juliarena et al. (2008) identificaram alelos associados tanto à resistência quanto à susceptibilidade a perfis de infecção pelo vírus. O alelo que conferia maior susceptibilidade à enfermidade já foi correlacionado em outros estudos com susceptibilidade à mastite e contagem de células somáticas (KELM et al., 1997).
Esses resultados podem indicar a possibilidade de seleção de animais resistentes a múltiplas enfermidades.
Uma vez que essas doenças, como discutido anteriormente, afetam a produção do animal, é possível relacionar alelos de BoLA com tais parâmetros (Apêndice A). Tais associações mostram o efeito indireto dos loci de MHC sobre o desempenho do sistema imune, podendo ser reflexo de resistência e susceptibilidade às condições ambientais que o rebanho enfrenta. Mejdell et al. (1994) demonstraram associação de alelos de BoLA de Classe I com a fertilidade, sendo que os indivíduos com os alelos A2 e A11 eram, no geral, mais férteis pela avaliação de taxa de não-retorno ao estro após 60 dias de inseminação. Mais recentemente, Machado et al. (2005) encontraram alelos de
DRB3 associados à maior produção de leite em rebanhos da raça Gir do Estado
de Minas Gerais. Percebe-se assim a importância de BoLA nos aspectos produtivos da pecuária.
Em populações naturais da ave Chapim-real (Parus major), foi observado associação do MHC com o fitness do organismo, com impacto tanto na sobrevivência quanto no sucesso reprodutivo (SEPIL; LACHISH; SHELDON, 2013). A associação de MHC com aspectos da vida de animais silvestres e domésticos, como a quantidade de prole durante a vida, tempo de vida produtiva e tamanho da prole, apresentam-se como um interessante campo de estudos em genética animal e ganho genético.
Ressalta-se, assim, a importância destes estudos para o manejo do rebanho bovino. Pesquisas com este objetivo devem preocupar-se principalmente com o número de animais avaliados, o(s) agente(s) etiológico(s) presente(s) no quadro clínico e os loci estudados. A avaliação do haplótipo de genes de Classe I, II e/ou III pode ajudar a solucionar inconsistências entre estudos, bem como a real relação da resistência e susceptibilidade de alguns animais a doenças.
Tabela 1 — Associação de alelos de BoLA-DRB3 com doenças.
Doença¹ Raça Alelo² Associação³ Técnica4
Ectoparasitoses
Martinez et al. 2005 Crioulo e Brahman *2701, *2801 Resistência PCR-RFLP
Martinez et al. 2006 Raça mista *18, *20, *27 Resistência PCR-RFLP
Untalan et al. 2007 Raça mista *4401 Resistência PCR-RFLP, Clonagem
Duangjinda et al. 2013 Sahiwal, Raça Mista *2, *3, *16, *20 Susceptibilidade PCR-RFLP
*14, *10, *41, *51 Resistência
Brucelose
Martinez et al. 2005 Crioulo e Brahman *0601 Susceptibilidade PCR-RFLP
Mastite
Kelm et al. 1997 Holstein *23,*24 Resistência PCR-RFLP
*16 Susceptibilidade PCR-RFLP
Starkenburg et al. 1997 Holstein *24 Susceptibilidade PCR-RFLP
*8 Resistência
Duangjinda et al. 2008 Holstein x Zebu *15, *22, *51 Resistência PCR-RFLP
*1, *52 Susceptibilidade
Rupp et al. 2007 Holstein *3 Resistência PCR-RFLP
*8 Susceptibilidade
Sharif et al. 1998a Holstein *23 Susceptibilidade PCR-RFLP
Hameed et al. 2008 Holstein *23 Susceptibilidade MPT-PCR
Kulberg et al. 2007 Nowergian Red *11, *18, *24 Resistência PCR-RFLP
*22, *26 Susceptibilidade
Yoshida et al. 2009 Holstein *0101, *1501 Susceptibilidade PCR-SBT
*1101, *1201 Resistência
Yoshida et al. 2012 Holstein *1201, *1501 Susceptibilidade PCR-SBT
*0101, *1101, *2703 Resistência
Cetose
Sharif et al 1998a Holstein Sem associação
Ovário cístico
Tabela 1 — Continuação
Infecção por BLV e PL
Juliarena et al. 2008 Holstein *11, *12 Resistência PCR-RFLP, PCR-SSO
*16 Susceptibilidade
Juliarena et al. 2009 Holstein *11, *12 Resistência PCR-RFLP, PCR-SSO
*11, *12, *02 Resistência
Miyasaka et al. 2013 Japanese Black *0902, *1101 Resistência PCR-SBT
*1601 Susceptibilidade
Painei et al. 2009 Holando-Argentino *23, *25, *28, *40
Resistência
PCR-RFLP
*22, *24 Susceptibilidade
Febre Aftosa
Garcia-Briones et al. 2001 Hereford *1, *3, *7 Resistência PCR-RFLP
*12, *18 Susceptibilidade
Gowane et al. 2013 Raça mista *0201, *0801, *1501 Resistência PCR-SBT
*1801 Susceptibilidade
Baxter et al. 2010 Holstein x Charolais *0901, *1001 Resistência PCR-SBT
*1601, *2707 Susceptibilidade
Retenção de placenta
Sharif et al. 1998a Holstein *3 Resistência PCR-RFLP
Paratuberculose
Ratislav & Mangesh 2012 Holstein x Slovak spoted Val53Glu, Val53Leu, Asp57His, Arg84GluAsp57Asn, Phe60Tyr SusceptibilidadeResistência PCR-SSCP
Pancitopenia neonatal bovina
Ballingal et al. 2011 Holstein Sem associação
Infeccão por Neospora caninum
Schwab et al. 2009 Holstein Sem associação
1Trabalhos que relatam associação de alelos RFLP utilizando apenas 1-2 enzimas foram omitidos. BLV, bovine leukemia virus; PL, persistente lymphocitosis;
²A nomenclatura utilizada para o alelo varia dependendo da técnica utilizada para determiná-lo; ³A forma de diagnóstico da enfermidade e modelo estatístico variaram entre cada estudo;
4PCR-RFLP, polymerase chain reaction (PCR) using restriction fragment length polymorphism; MPT-PCR, multi-primer target PCR; PCR-SBT, PCR using sequence