A instituição religiosa investigada é uma ala da Igreja Católica fundada em janeiro de 2000 por dois padres italianos que teriam recebido a “inspiração da imagem de Maria Imaculada do Espírito Santo”. Constitui-se como uma Associaçãoprivada de fiéis28, com sede na Arquidiocese de São Paulo. O movimento atua em 36 cidades brasileiras e está presente também na Bélgica, na Itália e em Portugal.
A Associação promove, periodicamente, encontros para converter aqueles que estão afastados da Igreja, especialmente os jovens, com várias ações voltadas, essencialmente, para eles. Os que fazem parte da Associação são chamados “filhos da misericórdia”, e têm como missão evangelizar as “ovelhas perdidas”, colocando em prática o “amor misericordioso de Deus”. Consideram que faz parte de sua missão, também, oferecer oportunidades de reinserção social para grupos marginalizados, como moradores de rua ou de favelas e prostitutas29.
28 Doravante, a instituição religiosa será denominada Associação.
78 Há, inclusive, um tipo de evangelização destinado especialmente para as prostitutas, a evangelização Maria Madalena:
A evangelização Maria Madalena busca atingir adolescentes, jovens e adultos (as) marginalizados pela prostituição, na tentativa de devolvê-los a dignidade humana de acordo com os princípios éticos, morais e cristãos, e de seus direitos e deveres como cidadãos integrantes de uma sociedade civil e organizada. Este trabalho é feito através de diálogos, evangelizações de rua, visitas domiciliares, incluindo-os em atividades fora do isolamento em que vivem, proporcionando-lhes novos ambientes e novas amizades. (...) busca ser para eles um local de refúgio, força e acolhida através de gestos concretos do Amor misericordioso. A história conta que Maria Madalena foi prostituta e, quando se encontrou com Jesus o seguiu sem olhar para trás. Foi uma das mulheres que permaneceu aos pés da cruz e foi a primeira a vê-Lo depois da Ressurreição. Portanto, há sempre uma esperança de que essas pessoas após se encontrarem com Jesus busquem a vida nova que só Ele pode oferecer.30
Este tipo de evangelização, em Sorocaba, é realizado junto com a pastoral de rua: os evangelizadores caminham pelas ruas do centro à noite, abordando moradores de rua e prostitutas, lendo trechos da bíblia, orando e perguntando se eles desejam “mudar de vida”.
Às prostitutas e mulheres em situação de rua é oferecido um “Caminho”, que consiste em abrigamento em uma Casa de Triagem por 20 a 30 dias, onde elas seguem uma rígida disciplina, na qual não é permitido possuir telefone celular, ligar a televisão ou sair desacompanhada da casa. São estabelecidos horários determinando cada uma de suas atividades, de modo que essas atividades consistem basicamente em rezar, descansar e fazer trabalhos domésticos, o que é chamado por eles de labor terapia. Teresa, freira responsável pela Casa de Triagem de Sorocaba (figura 8), explica:
Que é o nosso trabalho? Nós somos como uma aliança de misericórdia, o nosso desejo é tirar todas as mulheres da rua, só que para tirar elas do mundo da prostituição ou então tirar elas da rua, o nosso trabalho, primeiro, é levar elas a fazerem experiência com Deus, não é? Então a gente tenta tirar ela das ruas, não força elas a saírem da rua, se elas querem. E chegando aqui elas fazem o caminho de triagem, cerca de 20 dias a um mês, então aqui é por graça de Deus, não é? Elas querem... Então aqui que faz o trabalho de oração, não é? Então aqui elas têm
30 Disponível em http://www.misericordia.com.br/mariamadalena/?page_id=6, consultado em 09/09/2013.
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meditação da palavra, rezam o terço, não é? Elas que tomam conta da casa, elas que cozinham, elas que fazem tudo. Então o nosso eixo é levar elas a fazerem experiência de Deus, não é?
Figura 8: Casa de Triagem de Sorocaba.
Fonte: Acervo pessoal.
Quando chegam mulheres que não tiveram uma trajetória com a Igreja Católica, durante o período que passam naquele espaço elas também são batizadas, fazem crisma e primeira comunhão. Após esses dias na Casa de Triagem, as mulheres são então encaminhadas para uma Casa maior, em Piracicaba, onde residem durante um ano em condições muito semelhantes. Por fim, a última parte do “Caminho” constitui-se no retorno para a Casa de Triagem por cerca de três meses para a “reinserção social”, na qual a Associação as auxilia a conseguir um emprego.
Esta iniciativa lembra os “Lares de Madalena”, citados por Roberts (1992), que se constituíam em comunidades monásticas de ex-prostitutas, e fizeram parte de um forte movimento da Igreja durante o século XII para “salvá-las”, baseados na figura de Maria Madalena como prostituta arrependida que teria sido salva e perdoada por Deus. Este ideal de perdão e salvação divina fica claro nas palavras da freira Teresa e da coordenara Inês:
A gente tenta levar elas, voltar elas para a família, nosso objetivo é levar elas para o seio da família e também inserir novamente na sociedade, que é procurar emprego,
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não é? Voltar à divindade de ser mulher, não é? Divindade filha de Deus, não é? Então a gente tenta de todas as formas abarcá-las com isso (...) e levar essas experiências de Deus, não é? E a gente tem formações, não é? Para sentir esse amor, não é? Largar do mundo das drogas, da prostituição. (Teresa)
Muitas não ficam. Mas viveram alguma experiência. Alguma experiência viveram, né. Então, tem uma frase dita de Madre Teresa de Calcutá, que fala que nós não podemos deixar que uma pessoa passe por nós sem sentir o amor de Deus. E é o que a gente tenta fazer, que elas possam sentir. (Inês)
A prostituição é definida pela coordenadora da Casa de Triagem, Inês, como uma “deficiência”, mas uma deficiência para a qual há solução e perdão:
É uma deficiência porém elas têm uma solução não é, não é uma deficiência que não tem mais jeito, elas têm jeito. Elas só perderam a dignidade delas como mulher, e só enxerga que aquele é o meio de saída delas. Porém, o que a comunidade tenta fazer é mostrar que há um novo mundo, há um outro jeito.
De acordo com a freira Teresa,
O que a gente pode fazer, tentamos acolher elas, não é? Não julgar o que elas estão fazendo, mas a gente vai contra o pecado, não contra o pecador, então a gente vai conscientizar do caminho que elas estão fazendo que é errado, mas a gente acolhe, a primeira católica nossa é acolhida levar a misericórdia para elas.
Quando questionadas a respeito da opinião delas sobre as razões que fazem com que exista a prostituição, muitas explicações aparecem concomitantemente. Inês atribui grande responsabilidade à “degeneração” da família, assemelhando-se, até certo ponto, ao discurso de caráter moralista do CONSEG, com a diferença de que a Associação esforça-se por adotar uma postura de menor julgamento e maior empatia em relação às prostitutas:
Então, aquilo que eu retomo, não é... É, toda raiz está na família, toda raiz né, é... a rejeição da família por algum motivo, é o não cuidar da família, então assim, toda realidade que chega aqui na nossa casa, tudo é envolvendo família, não é.. Tudo... Então já ouvi assim “por que foi que eu entrei na droga cedo? Porque meu pai oferecia...”; “Porque meu pai batia em mim para eu pegar o cigarro”; “Porque eu era
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obrigada a vender com a minha mãe”. Então assim, toda realidade vem da família, a raiz está na família. Então elas não estão nesse mundo, nessa situação porque querem. Inconscientemente talvez, como adulta um “eu quero... ah, eu quero...” não. Mas não, por trás disso tudo existe uma realidade que é a família, que é a raiz entendeu, de alguma coisa... talvez, a rejeição... É difícil de a gente analisar né... Mas é, incluí a família. E quando adulta, de repente, uma traição do marido... Uma traição que leva... Então tem vários pontos, não é, tem vários pontos que levam a pessoa a essa vida.
A explicação que aparece com mais força, contudo, é a de que “escolheram o caminho mais fácil porque Deus deu aos seres humanos o livre arbítrio”; mas também enxergam que, em algumas situações, a falta de emprego ou necessidade de moradia também podem ter influenciado:
Por que elas querem ir para o lado mais fácil, não é? (...) Mas também tem outras que não tem opção, mas é a liberdade, Deus deixa cada um livre, mas infelizmente a gente é contra isso, nosso corpo é do espirito santo, não é? Nosso corpo é santo, mas assim é escolha de cada um, mas depois que elas estão lá, a gente tenta tirar, é um trabalho de formiguinhas, né? (Teresa)
Em relação à regulamentação da prostituição, a Associação é contrária, pois acredita que irá incentivar a expansão e banalização da atividade, como pode-se observar nos discurso de Inês:
(...) Porém eu acredito, olhando com outro olhar, que é o que nós costumamos olhar, que é o olhar de espiritualidade, que não ajuda. Por que? Porque vai incentivar muito mais. Muito mais, sabe, “se é uma profissão, então eu vou ganhar meu dinheiro” Por que? “porque vai me dar prazer, não é... e é fácil”. Então assim, é, olhando para elas, a realidade, o governo quer apropriar, quer que seja uma profissão, porém eu acredito que isso vai aumentar muito mais.