percurso clínico inesperado que implica uma série de consultas, profissionais, exames complementares de diagnósticos, tratamentos e protocolos terapêuticos. Assim sendo, a vivência de uma doença oncológica invade a vida da pessoa e família alterando a sua rotina habitual nas várias dimensões. Com a Sra. Ana não foi diferente, deixando-a vulnerável e frágil. Todo o processo desde o diagnóstico, até aos tratamentos decorreu de forma rápida, não dando tempo para compreender e/ou assimilar o que se estava a passar e em que consistia o seu itinerário terapêutico, encontrando-se numa constante adaptação face às propostas terapêuticas que se vão sucedendo.
Aquando do diagnóstico a questão da Sra. Ana era: “E agora?”, quando lhe apresentaram a proposta cirúrgica e depois de quimioterapia a questão foi: “O que falta?”. Com a RT: “Tenho que ir?”, após estes tratamentos questiona- se: “E depois?”. A desintegração provocada pelo diagnóstico não foi só ao nível da vulnerabilidade existencial. No caso da Sra. Ana provocou o seu afastamento do núcleo familiar pondo em causa o projeto de vida e remetendo- a para incertezas. Gerir estas emoções de maneira a conseguir proteger os filhos tem sido a grande luta na gestão da sua doença. Questionou-se muito do porquê a si, “sempre fiz as vigilâncias nos tempos que o médico mandava”. A Sra. Ana consegue falar sobre as inquietações que a invadiram de forma clara. Assim sendo, a intervenção de enfermagem deverá focar-se em ajudar a Sra. Ana a estruturar e reorganizar os seus pensamentos e sentimentos, gerindo as emoções emergentes, sendo fundamental o acompanhamento e envolvimento da equipa multidisciplinar.
Quando questionada acerca do futuro, apoia-se na sua fé, planeia regressar ao seu ambiente, ao seu trabalho e construir uma vida ao lado do seu companheiro. Sabe que o seu prognóstico é positivo, contudo existem interrogações que ninguém responde, colocando-a inevitavelmente numa posição de incerteza face ao futuro. A incerteza é uma experiência comum às pessoas que lidam com a doença oncológica, sendo fundamental a gestão da informação como um meio de lidar com a incerteza relacionada com a doença (Miller, 2014). Neste sentido, os enfermeiros deverão planear intervenções
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dando continuidade aos cuidados após o tratamento do cancro de modo a facilitar a sua adaptação e promover a sua confiança e segurança.
As dificuldades têm surgido ao nível da adaptação à cidade e afastamento da família sendo gerador de stress. Como fatores facilitadores tem o apoio da irmã, da sobrinha, dos filhos e companheiro mesmo distantes.
Terminada a RTE, irá ainda realizar 2 sessões de braquiterapia intracavitária e posteriormente as vigilâncias e resultados serão realizados no hospital de origem. Neste sentido questiona: “posso acreditar que voltarei a ser mulher?”, referia-se à vivência da sua sexualidade. Ao longo do percurso terapêutico que ainda irá realizar terá uma consulta de enfermagem de oncosexologia 2 semanas após a braquiterapia com o objetivo de capacitá-la para a prevenção da estenose vaginal e diminuir as dificuldades no início da atividade sexual e intimidade do casal. Esta mostrou ser uma das suas grandes preocupações no futuro próximo do pós tratamento, tendo sido fundamental informá-la acerca do percurso a realizar e as estratégias que serão adotadas para facilitar a sua readaptação, nomeadamente a utilização do dilatador vaginal ou manual. A sexualidade é um construto multidimensional, devendo ser avaliada dessa forma e, consequentemente, a intervenção de enfermagem deve assentar sobre uma abordagem holística na prestação de informações e apoio às mulheres com cancro ginecológico (Cleary & Hegarty, 2011). A sobrevida destas mulheres requer uma intervenção ampla que vise o bem-estar físico, psicológico, social, relacional e sexual (Gilbert, Ussher & Perz, 2011).
Encontrando-se esclarecida acerca do seu percurso e portanto das etapas que a esperam, mostrou-se mais confiante e segura no sentido de conseguir orientar o seu dia a dia, bem como, a partilha mais objetiva com o companheiro sobre o futuro de ambos enquanto casal.
Caso a Sra. Ana continuasse a ser seguida no IPO de Lisboa, teria ao seu dispor o acompanhamento na unidade de RT enquanto fosse considerado pertinente. Nesse sentido, teria a consulta de oncosexologia e ginecologia onde seria dada continuidade aos cuidados através do grupo de oncosexologia que faz reuniões mensais e onde são discutidos os casos em equipa multidisciplinar, sendo definido um plano de intervenção de acordo com as necessidades vigentes nesta fase da vivência da Sra. Ana.
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CONCLUSÃO
A realização deste estudo de caso no contexto deste ensino clínico permitiu-me sistematizar informação, bem como estruturar todos os aspetos inerentes à abordagem da enfermagem à pessoa submetida a RT pélvica com doença oncológica do foro ginecológico. Neste sentido, permitiu-me espelhar a minha participação nas consultas de enfermagem no âmbito do objetivo definido, bem como organizar a informação definindo um plano de cuidados, identificando as necessidades alteradas, estabelecendo prioridades de intervenção, bem como fornecer, reforçar e/ou aconselhar a pessoa e família na gestão dos cuidados e ambiente durante e pós tratamento.
A situação da Sra. Ana manifestou-se particularmente interessante e por isso optei pela sua abordagem neste trabalho pela relação de empatia que foi desde logo criada, bem como pela construção do plano de cuidados de enfermagem em parceria com a mesma de acordo com as suas necessidades e prioridades, respeitando a sua vontade e individualidade, adaptando as intervenções à sua situação particular e tratamentos a realizar. Este acompanhamento permitiu-me clarificar a Sra. Ana e fazê-la perceber o seu percurso desde o início da RTE até às vigilâncias do pós tratamento, fazendo- me simultaneamente integrar os protocolos estabelecidos na unidade e a dinâmica de intervenção de enfermagem.
A Sra. Ana experimentou alterações de ordem física, mas enfatizou de forma mais constante as emocionais e ambientais.
O acompanhamento ao longo deste processo de questionamento acerca da sua existência deu-lhe força e fez com que se redefinisse a si mesma e procurasse o seu bem-estar neste “pós doença”, sendo fundamental a intervenção de enfermagem no apoio e capacitação para a vivência deste período, para a redefinição do seu projeto de vida procurando mobilizar o potencial da pessoa em questão de acordo com a sua singularidade.
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Apêndice 12.