Nesse momento do trabalho, buscou-se compreender a percepção dos idosos em relação aos papéis sociais que o grupo familiar deve desempenhar, especialmente em relação ao cuidado dos seus membros idosos. Para tanto, buscou-se compreender sua percepção sobre o papel da família no cuidado dos idosos e quando a institucionalização era cabível. Afinal, qual o papel da família em relação aos cuidados dos seus idosos e quando a institucionalização se justifica?
A análise das entrevistas revelou que, dos 36 pesquisados, 27 conheciam uma instituição asilar para idosos. Os relatos evidenciaram sentimentos de aprovação em 30,55% dos casos, indiferença em 2,77% e reprovação em 66,66% em relação à institucionalização.
Entre as reprovações, os relatos apontaram elementos que relacionam a experiência de morar num asilo à necessidade de cuidado, ausência da família, sofrimento, infelicidade, abandono. Essas percepções sinalizaram que, para os entrevistados, os idosos que viviam na instituição asilar estavam abandonados e carentes, num ambiente “triste”. Houve, pois, correlação entre a vida no asilo e o desamparo da família e, ou, dos filhos. O senhor F, por exemplo, considera erro a institucionalização do idoso e define que é atribuição da família o cuidado aos pais, especificamente dos filhos, tal como defende a Política Nacional do Idoso (Lei 8.842, de 04/01/94). Entretanto, reconhece que não é toda família que tem como cuidar, relativizando o papel da família como cuidadora, tal qual Debert (2004).
Eu acho que não é toda família que tem cuidado. Os filhos precisam cuidar dos pais até o fim da vida e não levar para um asilo. Eu acho isso errado! (F., homem, 64 anos, “casal de idoso e
outros”).
Ah! Eu passei outro dia lá e falei com minha menina, Deus que me perdoe se algum dia eu precisar. Eu não quero não, Creio em Deus Padre. Deixa ficar por aqui mesmo é melhor (G., mulher, 63 anos,
“casal de idoso”).
De acordo com o estudo de Perlini et al. (2007), a reprovação é decorrente da visão cristalizada no nosso imaginário, que vê as instituições asilares para idosos como lugar sombrio e triste e, geralmente, destinado a idosos pobres, devendo, portanto, ser evitado.
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Para as Senhoras A.R. e M.A., as pessoas que residem nos asilos são vistas como coitadas e abandonadas, sendo o asilo espaço onde se faz presente o sofrimento, conforme já evidenciado no trabalho de Scharfstein (2006).
(...) Eu não vou lá mais não, boba! Lá tem... Coitados!... Tem uns que choram. Ah eu não gostei não!... Eu não sou de ver os outros sofrendo não. Eles sofrem!... A gente vê que eles não estão felizes (A.R., mulher, 80 anos, “um idoso”).
Ih, não gosto não! Eu acho que as pessoas ficam muito mal lá. Eu acho que é muito abandono (MA., mulher, 64 anos, “casal de idoso
e outros”).
Quanto aos idosos que aprovaram as instituições asilares, as justificativas apresentadas dizem respeito à organização, à possibilidade de cuidado, ao divertimento, ao fato de ser “uma boa opção para quem não tem filhos e necessita de
cuidados”.
O que se observou, entretanto, foi que, mesmo entre as aprovações, a opção
pelo asilo para o grupo deve ser feita somente quando “não se tem alguém da família para cuidar”, naturalizando o papel da família como instituição cuidadora, quando se
espera que os parentes continuem a cuidar de seus velhos. Fato que não considera as transformações que ocorreram interna e externamente às famílias, tal como a entrada da mulher no mercado de trabalho e a utilização cada vez maior dos métodos anticonceptivos, refletindo um quadro de individualização que levou a um novo desenho familiar, redefinindo os papéis dos membros (SARTI, 2001). Como na
maioria das vezes, “parentes” e “família” são expressões usadas para encobrir mais
uma tarefa destinada à mulher, tem-se que cada vez mais a disponibilidade de cuidado aos idosos dependentes está comprometida (DEBERT, 2004).
Além disso, é importante discutir o papel que os indivíduos desempenharam na arena doméstica ao longo de sua vida, pois, ao tomar a família como lócus preferencial do idoso, desconsidera-se a trajetória de afetividade do grupo e toma-se a solidariedade entre os membros como natural, como um dever (GOLDANI, 2004). A presença ou ausência de afeto e solidariedade nas relações é um componente importante na oferta de cuidado ao membro familiar, uma vez que a responsabilidade dos filhos em relação aos pais considera a perspectiva da reciprocidade (meu pai cuidou de mim, eu devo cuidar dele). Desse modo, a ausência da família pode ser tomada não só como a falta de um membro para prestar o cuidado, mas a ausência de
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afeto e solidariedade, resultando em laços familiares enfraquecidos, durante toda a existência do grupo.
Eu acho um trabalho excelente. Porque desde que a pessoa, os parentes não podem cuidar do idoso, ali tem quem cuide. Ele tem ali uma assistência necessária... eu penso assim... tem um médico, tem os remédios, tem enfermeira, né ... tem a alimentação que as pessoas que cuidam ... é muito, muito... eu acho um trabalho muito útil...esse trabalho do asilo... Embora que eu não quero ficar lá não (M.J., 81 anos, Casal de Idoso e outros).
Ah, eu pelo menos achei assim, onde é que eles falaram, tudo bem arrumado, tudo limpinho, tudo arrumadinho... eu não acho que asilo é ruim não, né... que em outros asilos...eu já fui em um lá em Teixeiras também. Achei tudo bem organizadinho também lá. Eu se algum dia ficar bem de idade, eu não me incomodo de ir pra lá não (M.C., mulher, 70 anos, “Um idoso”).
Quando não tem ninguém da família para cuidar e nem dinheiro para pagar um pessoa de fora (M. I., mulher, 84 anos, “casal de
idoso e outros”).
Sei lá, eu gosto de lá, mas só fui uma vez. Sei lá, eu acho que asilo é para pessoa que não tiver parente, não tiver quem cuida... (MM.,
mulher, idade, “Um idoso”).
Ah, eu achei importante. Parece que eles levam uma vida boa. Vive fora da família, mas pelo menos, eu não sei agora, eles têm divertimento, o povo alegrava muito eles (E., mulher, idade, “casal de idoso e outros”).
Essas falas, ainda remetem às percepções de asilo enquanto espaço para cuidados médicos e paramédicos, ao seu caráter assistencial paralelamente à impotência da família ante a demanda de cuidados do idoso, além da garantia de satisfação das necessidades básicas diárias, como já verificado por Bessa e Silva (2008) e Alcântara (2004).
Desse modo, verificou-se que a institucionalização se justifica como uma
“modalidade de atendimento” ao idoso diante da impossibilidade de a família prestar
o cuidado, seja por incapacidade financeira e, ou, pelo fato de não haver pessoas disponíveis para prestar o cuidado, configurando-se, assim, como uma espécie de substituta da família. Tais associações encontram respaldo no estudo de Alcântara (2004), que falou da relação entre a institucionalização e a necessidade de cuidado e a incapacidade da família de prestar os devidos cuidados. Ou seja, asilo é para quem necessita de algum tipo de cuidado ou assistência e que a família, por razões diversas, não consegue atender.
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Em relação às motivações que podem propiciar a institucionalização, as falas
correlacionaram à “falta de filhos ou de alguém para cuidar” e a “necessidade de cuidado”, entre outros. Neste caso, tal qual encontrado no estudo de Perlini et al.
(2007) e Scharfstein (2006), o asilo representa a possibilidade de cuidados ao idoso que não possui descendentes diretos e para os que apresentam algum grau de comprometimento da sua autonomia. Assim, a institucionalização pode-se tornar realidade para idosos que apresentam alguma patologia e para aqueles em que as famílias não se fazem presentes.
Para Camarano (2007), a opção pela institucionalização, no Brasil, ainda é atitude considerada controversa e impregnada de preconceito, como pode ser comprovada na fala a seguir:
Bom, pode ter uma série de razões. Mas, no geral, eu acho isso uma covardia tão grande, porque a pessoa fica velha e você joga ela para lá!... Você joga ela fora? A obrigação é cuidar, não é? Eu acho um absurdo botar uma pessoa idosa num asilo, eu acho um absurdo, porque a gente tem tanto a aprender com eles, né? (E.,
mulher, 64 anos, “Um idoso”).
Na fala da senhora E fica evidente que nenhum motivo é justificativa
suficiente para a institucionalização do idoso. Para ela, “independente dos motivos
apresentados”, a questão de fundo é o isolamento. Assim, o asilo é um exílio, um espaço de segregação como já relatado por Groisman, (1999). Nesta perspectiva, o
asilo seria equiparado a um local de descarte, onde se “depositam” as pessoas, cujos
papéis sociais foram esvaziados, em decorrência do envelhecimento.
A sua fala também reforça a ideia de que cabe à família zelar pelos idosos e vê a experiência como atributo do indivíduo com 60 anos ou mais, ou seja, a idade por si só é capaz de conferir tal atributo como já apontado por Neri (2003).
Em relação à possibilidade de morarem em asilo, a pesquisa revelou que 72,22% dos idosos entrevistados não morariam em asilos, 16,67% morariam sem problemas e 11,11% só morariam “se não tivessem outra opção”.
Para os idosos que responderam que morariam em asilos, os argumentos apresentados denotavam sentimentos de resignação, independência, coragem (a
decisão requer coragem, “é preciso ser forte”) já que aquele é um “lugar de sofrimento”. Para a senhora R, o asilo se justifica para as pessoas com algum “problema de sociabilidade”, quando velhas, idosas, o que é caracterizado aqui como
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como velha e que a rabugice e enjoamento vão chegar para ela, quando a velhice se fizer presente. Ou seja, há desconsideração do envelhecimento enquanto processo que preconiza que as pessoas envelhecem com as características que se fizeram presentes ao longo de suas vidas, as pessoas não se tornam chatas e enjoadas porque envelheceram; elas são chatas e envelheceram. Por outro lado, a senhora R via o asilo como espaço onde se pode ter algum sossego.
Você sabe que eu moraria. Eu não sei ver uma pessoa sofrendo, muito doente. Mas se for eu naquele lugar, eu seria mais forte. Eu não gosto de ver os outros sofrendo. Eu acho que eu suportaria bem (D., mulher, 63 anos, “casal de idoso”).
Iria. Iria. Pelo menos ia ficar no meu cantinho sozinha, lá não tem ninguém pra me... (risos) ... ninguém pra me perturbar. ... Agora eu já falei com as minhas filhas... Se eu ficar velha, pode me colocar no asilo que eu vou ficar uma velha muito enjoada.. (risos)... Já falei...eu vou ficar uma velha muito rabugenta (R., mulher, 61 anos,” casal de idoso e outros”).
De forma geral o asilo foi relatado como espaço destinado às pessoas de difícil convívio, aos muito idosos (por volta dos 80 anos) e a opção pela institucionalização requer que se seja forte. Tais percepções vão ao encontro dos estudos de Born e Boechat, (2006) e Creutzberg; Gonçalves e Sobottka (2008), que afirmam que a experiência de institucionalização é carregada de estereótipos negativos.
Para 11% dos idosos, a institucionalização poderia acontecer “se não tivessem
opção”. As justificativas para esse grupo giraram em torno das incapacidades
financeiras e, ou, recursos humanos, como exemplificado a seguir:
Se não tiver outro jeito eu moro! Se for preciso eu moro. Se a gente envelhecer muito e não puder pagar uma pessoa para cuidar ou filho não puder cuidar (Z., mulher, 70 anos, “casal de idoso e
outros”).
No último recurso a gente mora, se não achar quem olha né? Uai, pois é, se a gente não aguentar e não tiver quem olha, onde é que a gente vai? Tem que ir para onde tiver o jeito de virar, né? (E.,
homem, 70 anos, “casal de idoso e outros”).
Por último, houve o grupo daqueles que não morariam no asilo “em hipótese alguma”, por também acreditarem que é dever da família cuidar de seus idosos, como
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Ah, eu acho que se a gente tem filho, não custa um filho cuidar de uma mãe não, minha filha. Mesmo tendo um salário de aposentadoria ou não tendo, a obrigação de um filho é cuidar da mãe. É a minha opinião. Eu acho um absurdo um filho por uma mãe no asilo (J., mulher, 84 anos, “idoso e outros).
Eu tenho medo de ir para lá. Eu falei com S. Oh! Não me põe no asilo não... Eu tenho medo, mas eu sou lúcida, para uma pessoa da minha idade, tem muita gente lá no asilo. E também se eu for para lá, eles vão tomar meu dinheiro todo. Eu ganho pouco. Diz que quem tem um salário mínimo entrega tudo para eles. E a gente fica sem nada. Não quero não. Não sou melhor do que todo mundo não, mas enquanto minha filha for viva, eu acho que ela não vai me deixar ir não (D., mulher, 78 anos, ”idoso e outros”)
Observem que, independentemente de se colocarem favorável ou contra a institucionalização para si, os argumentos apresentados revelaram, na maioria das vezes, a mesma percepção do grupo, qual seja: os idosos devem ser cuidados preferencialmente pela família. E, por mais favorável que seja o discurso, puderam- se visualizar elementos sinalizando a possibilidade de momentos difíceis. Tais perspectivas são compatíveis com as presentes nos estudos de Alcântara (2004), Camarano (2007) e Perlini et al. (2007), que também revelaram nos seus estudos que existe certa resistência à institucionalização, devido à crença de que é dever das famílias cuidar dos seus idosos e que o asilo é destinado aos “sem famílias”, “aos
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