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Para o senhor Ito, o preconceito é gerado por falta de conhecimento da cultura do outro. A partir do momento que o imigrante começa a interagir de forma contínua com a cultura do país onde está vivendo, passa a ter uma compreensão cultural entre os diferentes grupos.

[...] a gente pensava que existia um certo preconceito. Não entendia direito a questão do preconceito. Nós somos operários, que coisa chata! Depois que a gente passou a frequentar a escola japonesa, escola pública, “começamos ganhar” a sociedade. Nós que criamos os nossos próprios preconceitos falando que eles são preconceituosos. É uma falta de entender a cultura deles. Você está no local diferente e você tem que “adequar” à cultura deles. Na verdade o homem é assim: como não conhecemos a cultura, fala que é preconceito, preconceito. Não é. É que a gente está fazendo errado. O que rege os costumes, o que rege a educação, a gente não conhecia. Falava que era preconceito. Da escola passamos para biblioteca. Queria deixar de ser operário e pegar um serviço que trabalhava com japoneses. O preconceito estava na gente mesmo, na nossa formação. O que mudou? A partir daí, ela começou a ter contato. Eu também peguei um serviço melhor. Não mais na linha, era no almoxarifado. (Anexo A/Sr. Ito).

O preconceito para a senhora Haru foi sentido de imediato no ambiente escolar. O sentimento que surgiu foi o de exclusão e de desprezo por parte dos pais japoneses, na participação da reunião escolar. Depara-se com o sentimento de “ser invisível” diante do outro, de não poder se fazer presente na condição de imigrante. Justifica que perante a comunidade japonesa os brasileiros “não são bem vistos” na cidade e, em decorrência disso, são discriminados.

Então, os professores, eles mesmos já estavam acostumados a lidar com brasileiros. Apesar dos japoneses serem frios e tudo, o tratamento é igual, né? Eles cumprimentam e tudo. Os

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professores em si, eu não senti diferença, né? Eles tratavam as crianças iguais, mas por parte dos pais, que a gente sente essa discriminação. (Anexo D/Sra. Haru).

Continuando:

Pesquisadora: O que você sentiu dos pais japoneses? Sra. Haru: Eles têm. Porque o brasileiro lá no Japão é muito mal visto, né? Já começa pela questão disso. Por causa de poucos que acabam fazendo muitas coisas, acidentes, rouba e isso e aquilo, matam. Então, por causa desses poucos nós somos muito mal vistos. Eles têm medo, têm receio de se aproximar da gente e da gente fazer isso. A cabeça deles ainda é muita fechada. Eles não conhecem muito o Brasil. Então, eles não sabem como que é o país, as pessoas de lá. Então, eles generalizam. Formou essa cabeça, esse pensamento com relação ao brasileiro. Então, é assim. É difícil a gente quebrar isso daí. Só que com a convivência eles sabem que não é bem assim. Na creche não foi tanto. Eu senti mais quando eu coloquei ele na escola. Eu me senti mal. Até pensei: “Será que o meu filho está se sentindo bem?” Porque o primeiro dia que teve a reunião dos pais, eu me senti uma pessoa totalmente diferente. Eles me excluíram assim de uma forma tão visível, que eu me senti mal. Pesquisadora: Como eles te excluíram? Que você sentiu? Sra. Haru: Assim, tem muita coisa que tem participar junto, conversar, né? Eles não perguntaram a minha opinião. Acabou assim: “Ela é brasileira, ela não entende. Pode passar e rodar.” Então, pensei que poderia perguntar e chamar, mas nem isso. Eles decidiram: “É assim, é assim”. Pesquisadora: Qual era o Estado em que vocês estavam e a cidade em que vocês moraram no Japão? Sra. Haru: Estado “Nagano-Ken”, a cidade “Matsumoto-Shi”. Só que eu tava, lá era uma vila. Que acabou virando cidade de “Matsumoto”. Lá o pessoal é muito mais fechado. Tem muito idoso. Então, a cabeça mais fechada ainda deles. Eles não aceitam muitas coisas, né? Tanto é que a gente fala que é brasileiro, tem lugar que eles não dão serviço, né? Por ser brasileiro e fazer muitas coisas erradas. Então, a gente acaba ficando mal visto nisso, né? (Anexo D/ Sra. Haru).

Diante da experiência da discriminação vivida pela senhora Haru na escola japonesa, passa a se questionar sobre o filho Goro na escola. A preocupação da mãe com o filho é se ele está podendo se sentir bem na escola. A criança, ao ser indagada pela mãe, diz que “tudo bem”. Porém, se queixa das crianças japonesas que fazem comparações físicas mostrando que Goro é diferente do japonês nativo.

Mas eu percebia que ele ia para a escola, mas não se sentia muito bem. Ele sempre falava que: “As crianças falam muito do meu cabelo”. Que o cabelo dele é enrolado. “Falam que eu sou cabelo enrolado. Ficam me chamando de vários nomes”. Comparam que o olho dele é diferente de grande. Então, não tem nada a ver com japonês, e a pele dele é branca e não chega a ser amarela igual os japoneses. Então, ele fala: “Por que que sou assim diferente?” Porque seu pai é brasileiro, diferente. Por isso que você é assim. Mas ele não entendia. Acabava não entendendo. (Anexo D/Sra. Haru).

O trabalhador imigrante é visto como “estranho” perante a sociedade em que vive. A marginalização sofrida pelo imigrante traz mudanças de comportamentos em ambas as culturas. Alguns incidentes de roubos, furtos e homicídios que são praticados pelos imigrantes

106 acabam, concretamente, alvo de condenação aos olhos dos japoneses. Tudo isso acaba dificultando a aproximação e a formação de vínculos entre ambas as culturas.

A adaptação é a maneira de ajustar-se ao meio onde está vivendo. O processo de adaptação é uma forma de mudança, em que o indivíduo, no contato com o meio, vai se ajustando, acomodando às necessidades do grupo onde passa a morar.

A adaptação é também um ajuste entre as fantasias e a realidade. Tanto os dekasseguis chegam ao Japão com uma série de fantasias sobre esse país, como também os japoneses natos possuem uma série de fantasias sobre o Brasil, os brasileiros e os próprios dekasseguis. As fantasias nem sempre condizem com a realidade e isso exigirá um ajuste nada fácil, especialmente, quando esbarram em imaginações e idealizações bem estabelecidas.

É comum haver preconceitos de ambas as partes, resistências em se absorverem uns aos outros e vencerem as diferenças. Há um receio mútuo de perda da identidade: os imigrantes temem perderem sua cultura de origem e os nativos temem também terem sua cultura modificada pela presença de “estrangeiros”, mesmo quando esses “estrangeiros” são, como no caso dos dekasseguis, descendentes de emigrados do próprio solo.