Consideramos a narrativa como caminho para a compreensão do fenômeno e não como parte do processo anterior – de emergência do mesmo –, porque entendemos que, ao narrar, de alguma forma já estamos realizando a redução. Isto porque a narrativa implica uma seleção dos conteúdos a serem narrados, deixando outros aspectos de lado. Esta seleção acontece de acordo com o modo como o pesquisador é tocado, o modo como o fenômeno o afeta pessoalmente, suscitando questões que emergem no contato com o próprio ambiente da pesquisa, e que ele trabalhará para responder ao longo da mesma. Este movimento faz parte do método fenomenológico na forma como é apresentado por Van der Leeuw (2009), que o denomina inserção na própria vida. Não olhamos o fenômeno como algo alheio a nós, mas a partir do modo como ele nos afeta, do modo como ele suscita em nós interesses, intuições, perguntas. Podemos tornar isso um modo de conhecer a partir do momento em que conseguimos rever estas impressões, trabalhá-
las – reconhecendo, por exemplo, algum ponto de preconceito em nós – e deixar que elas nos orientem no processo de pesquisa.
Na apresentação da obra de Edith Stein Psicologia e Ciências do Espírito, Ales Bello afirma que “nas pesquisas de Stein, nada é preconstituído por um pensamento que já pense na totalidade, mas se busca, com paciência, repercorrer os fios que tecem a realidade” (ALES BELLO, 1999, p. 25).
Inspirada por essa postura, a utilização da narrativa teve como objetivo explicitar o caminho percorrido pela autora para chegar à emergência do fenômeno a fim de proporcionar ao leitor a possibilidade de acompanhar esse percurso e ilustrar a ideia de conhecimento como fruto de um processo que busca a compreensão da experiência viva, vivida. Além disso, a narrativa pareceu-nos um caminho interessante por permitir abordar o fenômeno da articulação não como algo pronto, estático e acabado, mas como uma realidade em construção, com seus movimentos complexos que unem diferentes expectativas, realizações e frustrações, proximidades e distâncias.
Narrar, na concepção de Benjamin (1994), refere-se à possibilidade de intercambiar experiências. Para o autor, a narrativa é uma forma de comunicação artesanal que está em vias de extinção devido ao modo de vida da moderna sociedade capitalista. Segundo Gagnebin (1994), Benjamin afirma que a arte de contar é favorecida por algumas condições que já não existem nesta sociedade.
Na narrativa, a experiência transmitida deve ser comum ao narrador e ao ouvinte. Ela pressupõe uma comunidade de vida e de discurso que se apoia, sobretudo, na atividade artesanal. O ritmo lento e orgânico do artesão permite uma sedimentação progressiva das diversas experiências e uma palavra unificadora. Na visão do autor, seus movimentos precisos, respeitosos com a matéria que transforma, têm uma relação profunda com a atividade narradora, pois para ele, esta também é “uma maneira de dar forma à imensa matéria narrável, participando assim da ligação secular entre a mão e a voz, entre o gesto e a palavra” (GAGNEBIN, 1994, p. 11).
Sendo assim, a figura do narrador, daquele que conta, identifica-se com o artesão experiente, o velho sábio que ocupa uma posição privilegiada ao se aproximar da morte.
Alguém capaz de transmitir com autoridade uma experiência aos mais jovens. Alguém que transmite um saber prático sob a forma de uma moral, uma advertência ou mesmo de um conselho. Segundo Benjamin (1994, p. 200), “aconselhar é menos responder a uma pergunta que fazer uma sugestão sobre a continuidade de uma história que está sendo narrada”. Esta definição destaca a inserção do narrador e do ouvinte dentro de um fluxo narrativo comum e vivo, pois a história continua e está aberta a novas propostas e ao fazer junto. O conselho, tecido na substância viva da existência, é o que o autor chama de sabedoria e que indica como fora de moda pelo fato das experiências hoje estarem deixando de ser comunicáveis. Na visão do autor, a narrativa se perdeu no ritmo acelerado da sociedade moderna, em que os grupos humanos foram separados por grandes distâncias; a produção artesanal cedeu lugar à produção em série da indústria, à visão compartimentada e utilitária das coisas; o velho passou a ser visto como inútil e a morte uma ameaça a ser banida do olhar dos mortais.
Nesse contexto, onde a experiência coletiva já não encontra espaço, a narrativa foi substituída pelo romance e pela informação jornalística, duas formas de comunicação que possuem em comum a necessidade de encontrar uma explicação para os acontecimentos, sejam eles reais ou ficcionais. No caso da informação, por exemplo, aspira-se a uma verificação imediata, pois é indispensável que ela seja plausível e isso a torna incompatível com o espírito da narrativa. Para Benjamin, metade da arte de narrar está em evitar explicações. Nela, o extraordinário e o miraculoso são narrados com exatidão, mas o contexto psicológico da ação não é imposto ao leitor, que interpreta a história como quiser. O autor afirma que, quanto maior a naturalidade com que o narrador renuncia às sutilezas psicológicas, mais facilmente a história se gravará na memória do ouvinte, mais completamente ela se assimilará à sua própria experiência e mais irresistivelmente ele cederá à inclinação de recontá-la um dia (BENJAMIN, 1994, p. 204).
Ainda segundo o autor, esse processo de assimilação se dá em camadas muito profundas e exige um estado de distensão que se torna cada vez mais raro hoje em dia, pois tem como grande aliado o tédio.
Se o sono é o ponto mais alto da distensão física, o tédio é o pássaro de sonho que choca os ovos da experiência. O menor sussurro nas folhagens o assusta. Seus ninhos – as atividades intimamente
associadas ao tédio – já se extinguem na cidade e estão em vias de extinção no campo. Com isso, desaparece o dom de ouvir, e desaparece a comunidade dos ouvintes. (BENJAMIN, 1994, p. 204)
Para Benjamin, o narrador não está interessado em transmitir o puro-em-si da coisa narrada. A narrativa está impregnada da sua experiência e do seu modo de ser, “ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirá-la dele. Assim se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão do oleiro na argila do vaso” (BENJAMIN, 1994, p. 205).
Geralmente suas histórias começam com uma descrição das circunstâncias onde foram informados sobre os fatos que vão contar. Benjamin afirma que os vestígios do narrador estão presentes de muitas maneiras nas coisas narradas, seja na qualidade de quem as viveu, seja na qualidade de quem as relata.
Como dissemos anteriormente, narrar, para Benjamin, refere-se à possibilidade de intercambiar experiências. Neste sentido, a fonte a que recorrem os narradores é a experiência que passa de pessoa a pessoa. O autor afirma que as melhores narrativas escritas são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores anônimos. Afirma ainda que, para compreendermos a figura do narrador, precisamos recorrer a dois tipos fundamentais que representam dois grupos distintos de narradores: o viajante, ou seja, o narrador imaginado como alguém que vem de longe, representado na figura do marinheiro comerciante; e o homem local, que ganhou a vida sem sair de seu país, que conhece suas histórias e tradições e que é representado pela figura do camponês sedentário. Para Benjamin, a extensão real do reino narrativo, em todo o seu alcance histórico, só pode ser compreendido se levarmos em conta a interpenetração desses dois tipos arcaicos (BENJAMIN, 1994, p. 199). O autor complementa afirmando que o sistema corporativo medieval contribuiu para essa interpenetração, pois, nele, o mestre sedentário e os aprendizes migrantes trabalhavam juntos na mesma oficina. E cada mestre tinha sido um aprendiz ambulante antes de se fixar em sua pátria ou no estrangeiro.
A narrativa nesse estudo teve como base as observações, os encontros e a entrevista com o grupo de alunos. Foi o resultado do processo de imersão da pesquisadora na situação de pesquisa. Tomando a imagem do marinheiro comerciante, do narrador como
aquele que vem de longe, as narrativas construídas tiveram um sentido de busca de compreensão de uma realidade à qual a narradora era estrangeira. As narrativas surgiram da necessidade de registrar e organizar experiências vividas e ouvidas, buscando tecer um percurso para melhor compreendê-lo. Surgiram ainda da necessidade de partilhar esse percurso com outros, como o viajante que registra em seu diário as situações, as conversas, a descrição dos lugares inusitados pelos quais passa a fim de compartilhar futuramente essa experiência com os que ficaram. As narrativas surgiram como uma necessidade de fotografar, de querer guardar uma imagem. Surgiram da necessidade de registro. É como se o registro trouxesse concretude, visualização para o invisível, “garantisse a eternização” de cada uma das experiências vividas na situação de pesquisa, permitindo-nos voltar a elas e visualizar um percurso, um processo. Um processo que fala da construção de um conhecimento, tecido passo a passo em cada nova experiência e em cada nova compreensão que cada experiência traz. Sendo assim, a narrativa tem o sentido também do aprendiz migrante, que vai em busca de um conhecimento que os mestres locais podem lhe oferecer.
Consideramos a narrativa como necessidade porque foi realmente isso o que pesquisadora viveu. A necessidade de, cada vez que chegava de uma manhã na EMEF, sentar em frente ao computador e escrever, escrever. Escrever quase num ato compulsivo e de tal forma intenso que nenhum detalhe poderia ser perdido. Escrevia para não perder a riqueza e a preciosidade daquelas experiências.
As narrativas foram, portanto, o texto de referência55 para a realização da análise compreensiva do fenômeno. As observações e os encontros estão narrados no item 5.1
Andanças, e a entrevista reflexiva, no item seguinte.
Passaremos, agora, à descrição da análise compreensiva.