Em 1673, Claude Perrault realizou a tradução francesa Lex dix livres d´architecture
de Vitruve, sendo essa dedicada para Louis XIV. Mais tarde, em 1684, Perrault publica a segunda edição revista, corrigida e com inserções de notas. O francês da academia Real de Ciências e doutor em medicina pela Faculdade de Paris, Claude Perrault, não menciona de forma direta o seu posicionamento e, por consequência, a época em que Vitrúvio redigiu o tratado. Na visão de alguns estudiosos vitruvianos, Perrault defende a ideia de que Vitrúvio viveu na época de Tito. Porém, analisando muitas das suas notas, nos parece que Perrault aceita a ideia de que Vitrúvio viveu na época de Augusto e não de Tito como alguns afirmam.
O frânces Victor Mortet, nos seus artigos de 1902308 e 1904309, concorda que, segundo Perrault, o arquiteto Vitrúvio viveu na época de Tito. Essa afirmação é repetida na publicação Archaeological Discussion´s: summaries of original articles chiefly in current
periodicals, realizada pelo American Journal of Archaeology, de 1903, onde vemos:
A data de Vitrúvio - Revista de Arqueologia XLI, 1902, pp. 39-81, VICTOR MORTET analisa as passagens de Vitrúvio em Arquitetura, especialmente a introdução, e afirma que o autor viveu na era de Vespasiano, para quem, e não para Augusto, o trabalho é dedicado. Vitrúvio provavelmente veio da África e viajou por várias regiões310.
306 Perrault, Lex dix livres d´architecture de Vitruve, 1.
307 Tardieu & Fils, Les dix livres d´Architecture de Vitruve, avec les notes de Perrault, 1. 308 Mortet, “Recherches Critiques sur Vitruve et son Oeuvre na Revue Archeologique”. 309 Ibid.
Analisando o artigo de 1902, constatamos que, no início da sua explanação, Mortet realiza um estudo minucioso sobre as diferentes visões quanto à data que Vitrúvio escreveu sua obra. A sua defesa, que converge para a época de Tito, pode ser verificada não somente durante toda a primeira parte do artigo311, mas também na segunda parte do texto, onde Mortet realiza um exame da dedicatória do livro de Vitrúvio e características do seu trabalho312. Apresenta Mortet a seguinte passagem feita por Perrault: “Há várias coisas que podem fazer as pessoas acreditarem que Augusto a quem este livro é dedicado e não a Tito, de maneira que poucos assim desejam”313. Apesar de Mortet não indicar onde se localiza essa passagem, podemos encontrá-la na 2ª edição da obra Lex dix livres d´architecture de
Vitruve, publicada em 1684, que está contida na nota 1, no prefácio do primeiro livro de Vitrúvio. É apresentado por Perrault que:
Existe um Imperador César no texto. Alguns questionam para qual imperador Vitrúvio dedicou seu livro, parece que não há nenhum apontamento nos antigos exemplares que nomeiam Augusto. Philander314 é o primeiro que intitula o livro M.
Vitruvii Pollionis de ArchiteEtura lib. X. ad Cafarem Auguftum. Há várias coisas que podem fazer as pessoas acreditarem que foi para Augusto a quem este livro é dedicado, e não para Tito, como alguns querem.315
Porém, somente com essa afirmação não fica claro o posicionamento de Perrault quanto à atribuição da data em que Vitrúvio viveu ou redigiu seu tratado. Analisando a mesma nota na edição Les dix livres d´Architecture de Vitruve, avec les notes de Perrault, revista e corrigida pelos arquitetos Eugène Tardieu e Ambroise Coussin Fils, publicada em 1837, é apresentado que:
311 Mortet, “Recherches Critiques sur Vitruve et son Oeuvre na Revue Archeologique, 39-43. 312 Ibid., 44-81.
313 Ibid., 41.
314 No caso, Philander é o romano Gulielmi Philandri Castilionii, edição de 1544, como visto anteriormente. 315 Perrault, Lex dix livres d´architecture de Vitruve, 1.
Há imperador Cesar no texto. Alguns questionaram para qual imperador Vitrúvio dedicou seu livro, parece que não há nenhum apontamento nos antigos exemplares que nomeiam Augusto. Philander é o primeiro que intitula o livro: M. Vitruvii
Pollionis de Architecturâ lib. X, ad Caesarem Augustum.316
É interessante perceber que, nesse texto, as informações apresentadas começam a diferir da nota dada por Perrault, na sua edição de 1684. Como visto, na 2ª edição de Perrault é narrado que existe vários fatores que podem fazer as pessoas acreditarem que o livro de Vitrúvio foi dedicado para Augusto, e não para Tito. Na continuação dos seus argumentos, Perrault explana a linguagem latina para defender a sua ideia em qual época Vitrúvio viveu.
Na edição de 1837 de Perrault, revista e corrigida por Tardieu & Fils, é apresentado que:
No entanto, não é sem mérito que acreditamos ser o imperador Augusto para quem este prefácio é destinado, bem como as conjecturas que podem ser extraídas de várias particularidades que estão neste livro, como, entre outros, quando no capítulo 3 do livro 9, Vitrúvio fala dos mais célebres autores romanos, e fazendo uma enumeração dos altos sacerdotes e fazendo menção apenas de Ênio, Pacúvio e Lucrécio317.
Percebe-se, nesse momento, uma apresentação direta dos autores Tardieu & Fils na qual Perrault aceita que Vitrúvio viveu na época do Imperador Augusto.
Mais a frente, tanto na nota de Perrault, como na nota de Tardieu & Fils, é apresentada uma passagem muito particular do texto de Vitrúvio. Trata-se da época que envolveu Masinissa (rei da Numídia), Júlio César e Augusto. Na 2ª edição de Perrault no
Lex dix livres d´architecture de Vitruve, de 1684, é apresentado no livro 8, capítulo 4, verso 2, a seguinte passagem escrita por Vitrúvio:
316 Tardieu & Fils, Les dix livres d´Architecture de Vitruve, avec les notes de Perrault, 1. 317 Ibid.
No momento em que Júlio César, filho de Masinissa, a quem pertencia todas as terras que estão ao redor desta cidade, serviu no exército ordenado pelo Imperador César vosso pai, ele passou em casa e lá permaneceu algum tempo, e enquanto conversávamos todos os dias e conferíamos belas palavras. 318
Sobre essa passagem, Perrault insere uma nota onde afirma que “Masinissa está muito distante de Augusto, parecendo ser possível que Vitrúvio tenha visto seus filhos”319. Perrault afirma que essa passagem do texto serve de argumento para aqueles que não desejam ter Vitrúvio na época de Augusto. Porém, para contrapor esse argumento, Perrault afirma que Masinissa, não é o “grande Masinissa dos Romanos”320.
Na continuação da nota, Perrault afirma que Masinissa poderia ter tido muitos filhos. Inclusive, aos 92 anos, nada impediria que Masinissa tivesse um filho com uma concubina, conforme Perrault expõe. E assim, conclui Perrault, que em termos cronológicos, não é impossível que se passasse cerca de 100 anos entre o nascimento do filho de Masinissa e o início do Império de Augusto. Nessa linha de pensamento, para Perrault, Vitrúvio escreveu sua obra com idade avançada, sendo essa vista por Júlio César quando jovem.
Na nota de Perrault, contida no prefácio do livro 1, o autor aborda esse assunto, o qual pode ser visto também na nota de Tardieu & Fils, quando escrevem que:
Mas há um lugar que marca mais precisamente o momento em que Vitrúvio viveu; está no capítulo 4 do livro 8, onde ele fala sobre uma conversa que teve com Júlio C., filho de Masinissa. Porque sabemos que Masinissa viveu muito tempo antes de Augusto, era necessário que Vitrúvio estivesse com uma idade bem avançada quando ele escreveu esse livro para ter visto o filho de Masinissa, mesmo que este filho tenha nascido quando seu pai estava com 92 anos, conforme Florus.
Sobre esse debate da datação que envolve Masinissa abordaremos com mais detalhes no item 2.2. O fato é que, de acordo com os nossos estudos, Perrault acreditava
318 Perrault, Lex dix livres d´architecture de Vitruve, 261. Essa mesma passagem, se localiza nas edições
contemporâneas no livro 8, capítulo 3, verso 25.
319 Ibid. 320 Ibid.
que Vitrúvio viveu na época de Augusto, o Imperador. Esse posicionamento se estende em outros momentos do texto e notas de Perrault. Na sua 1ª edição publicada em 1674, por exemplo, Perrault afirma que ninguém poderia merecer melhor mérito do que Vitrúvio: a honra de Júlio César e Augusto, pois esses são “os dois maiores e mais magníficos Príncipes da Terra, num século em que todas as coisas tiveram o supremo grau de perfeição” 321. A figura 23 ilsutra essa passagem.
Figura 23. Vitrúvio: honras para Júlio César e Augusto, conforme Perrault, edição de 1674.
A questão sobre qual data Perrault acreditava que Vitrúvio viveu pode ser concluída quando lemos, nos seus comentários, apresentados tanto na edição de 1684322, quanto na edição revista e traduzida de Tardieu & Fils323, a seguinte afirmação:
Mas a grande autoridade de Vitrúvio não é apenas baseada na veneração que temos para os tempos antigos, nem sobre quaisquer outras razões que estão à estimar essas coisas por prevenção. É verdade que, como um arquiteto de Júlio César e Augusto, e
321 Perrault, Lex dix livres d´architecture de Vitruve, 2. 322 Ibid, 5.
da reputação do século onde viveu, onde se acreditava que tudo era original na extrema perfeição, devo muito a assumir o mérito do seu trabalho.
Tantas menções realizadas por Perrault, parecem demonstrar que o autor francês acreditava que Vitrúvio era o arquiteto de Júlio César e Augusto. Opinião que difere de alguns comentadores como, por exemplo, Mortet, quando apresenta a seguinte menção:
Perrault também reconhece que os argumentos que defendem em favor da atribuição da obra de Vitrúvio na época de Augusto, não satisfazem em partes "Estas conjecturas”, disse ele, “que a verdade não são convincentes, no entanto, parecem mais fortes do que o contrário, como aqueles que são retirados do Templo de Fortuna Equestre de Roma, que é falado sobre o segundo capítulo do livro e alguns querem que este tenha sido construídos depois de Augusto”324.
Porém, o que deve ser visto nessa passagem contida na nota 1, da segunda edição de 1684 de Perrault, é que o autor coloca as diferentes visões de outros comentadores de Vitrúvio sobre a data em que o arquiteto viveu. Isso pode ser verificado na continuação da nota 1, onde Perrault apresenta o caso Masinissa. Outro exemplo pode ser visto logo em seguida, na nota 2. No prefácio do primeiro livro, Vitrúvio escreve “o Imperador vosso pai”. Em nota, Perrault afirma que, somente essa menção, não é argumento suficiente para os que desejam que Augusto não é, neste momento, o Imperador ao qual Vitrúvio dedica o seu livro.
Mas o fato que mais nos chama a atenção é o desenho inserido por Perrault na sua 2ª edição de 1684. A figura 24 ilustra a primeira página do livro 1, dos Dix Livres
D´Architecture de Vitruve, que contém o prefácio de Vitrúvio.
Figura 24. Edição de 1684 de Perrault, livro I do prefácio de Vitrúvio.
O destaque que desejamos enfatizar está na capitular. A figura 25 apresenta a capitular em tamanho maior, se comparada com a figura 24.
Figura 25. Capitular existente na edição de 1684 de Perrault, livro I do prefácio de Vitrúvio.
Fica claro que temos a descrição “IMP CAES.AVGVST.” na capitular apresentada na figura 25, ou seja, a descrição em questão se refere ao Imperador César Augusto. O desenho dessa capitular pode ser uma ilustração da moeda de cobre, cujo peso é 1,966 gramas e diâmetro de 17,7 milímetros, datada entre 15 a 10 a.e.c. conforme mostrada na figura 26325.
Figura 26. Moeda datada em 15 a 10 a.e.c, homenageando Augusto César.
325 Forum Ancient Coins.
Segundo Joseph Sermarini, o lado da moeda frontal, apresentada no lado esquerdo na figura 26, é creditado para Augusto César. Percebe-se, dessa forma, que Perrault realiza uma homenagema Augusto César, em forma de desenho, na sua 2ª edição.
Na linha de pensamento de Mortet, muitos comentadores foram influenciados a dizer que Perrault acreditava que Vitrúvio viveu na época de Tito. E essa afirmação ainda está presente. Fato que podemos exemplificar através do artigo Sobre a História do Texto
de Vitrúvio, publicado por Júlio César Vitorino, em 2004, onde o autor apresenta a visão de Mortet:
Assim, houve quem, como Claude Perrault e os irmãos Wiliam e James Newton, trouxesse a datação do tratado para o I século da nossa era, julgando-a, portanto, dedicada não a Augusto, mas a Vespasiano, uma tese que mesmo no século XX foi defendida por Mortet e aceita por Schlösser-Magnino326.
De acordo com os argumentos apresentados podemos concluir que Perrault não deixa claro seu posicionamento se Vitrúvio viveu na época de Augusto ou de Tito. Porém, muitas das suas notas parecem apontar para o fato de que ele aceita a ideia de que Vitrúvio homenageou em sua obra o Imperador Augusto.