2. Background and literature review
2.5 Institutions and Organizations
O campo da historiografia passou por várias transformações que culminaram na ampliação das temáticas e, consequentemente, das fontes a serem utilizadas em pesquisas históricas, entre elas, incluem-se os periódicos, ou seja, jornais e revistas que têm dado respaldo a diversas pesquisas, suprindo lacunas e contribuindo com a memória histórica de diversos objetos e sujeitos escolhidos mundo afora.
As renovações ocorridas na historiografia são consideradas para muitos como o rompimento das amarras positivistas que fabricavam uma espécie de História estanque, cristalizada, sem que o fluxo da longa duração pudesse permear as narrativas. Esta quebra possibilitou que novos problemas e abordagens viessem à tona diante do olhar inquieto e curioso do historiador, que passou a questionar-se ainda mais sobre o social, o político, o cultural, numa perspectiva de microabordagens de que, até então, a História cronológica, factualista e metódica não fazia uso.
Estas transformações foram paulatinamente acontecendo a partir dos anos de 1930, com o advento da Escola dos Annales e, efetivamente, ampliadas na sua terceira geração (1968-1989) que trouxe doses mais variadas de temáticas numa perspectiva interdisciplinar, que permitiram diálogos com outras áreas, a exemplo da Linguística, das Ciências Sociais, da Antropologia. A História Cultural, tanto quanto a Nova História Cultural, permitiram que a História estivesse próxima do cidadão comum, desconhecido durante muitas décadas pelo tradicionalismo heroicizante, de cunho elitista, elementos característicos da metanarrativa.
Por volta de 1970, o cenário das pesquisas acadêmicas começava a enfrentar os discursos de alguns intelectuais que ainda resistiam ao periódico como fonte, alegando que estes estavam imbuídos de ideologias, de interesses políticos, como se as fontes de natureza oficial também não tivessem suas influências. Embora o uso dos jornais já estivesse sendo colocado em prática por alguns pesquisadores, o debate em torno da sua credibilidade enquanto fonte permanece. (LUCA, 2010)
Ao longo do tempo, estes periódicos tomaram uma proporção gigantesca de natureza e, consequentemente, de tiragem; o que antes era restrito às classes intelectuais, tornou-se cada vez mais próximo dos cidadãos comuns, de segmentos populares. Para Elio Flores (2007) esses periódicos são produções que fazem parte da explosão que ocorreu principalmente a partir da década de 1960 quando os estudos culturais vieram ainda mais a tona, pois começou-se a entender que era
(...) necessário explorar um campo de pesquisas inovador no que se vem designando como cultura histórica, tanto no que concerne aos saberes históricos escolares (formação do historiador e ensino de história) quanto na produção e difusão de uma tradição escrita e midiática à margem da ciência histórica propriamente dita, mas com notável disseminação na contemporaneidade. (FLORES, 2007, p.87)
A partir do uso da imprensa enquanto fonte, o olhar histórico também entrava em cena para validar as fontes que lhe seriam úteis, e a imprensa passou a fazer parte dos estudos históricos, tendo em vista que, segundo Lima (2007, p. 222),
[...] a imprensa registra, comenta, forma opiniões, distrai; através de suas palavras e imagens reencontramos valores e comportamentos perdidos. A consciência dessa riqueza documental fez aumentar a quantidade de estudos que usam a imprensa como suporte.
Nesta pesquisa a que nos propusemos , a imprensa surge como fonte na perspectiva que a entendemos como mediadora da informação, do conhecimento transmitido a uma população qu, quando não se questiona, deixa-se ser influenciada pelo que a mídia dissemina através das suas informações, notícias. Negamos aqui, conforme nos coloca Capelato e Prado (1998, p.118), a ideia de que a mídia “é um mero veículo de informação, transmissor imparcial e neutro dos acontecimentos, nível isolado da realidade político-social na qual se insere” afinal, há muitos interesses em jogo que vão desde os ideais políticos até a intenção de lucro que se pretende atingir com o que dissemina através da informação, da notícia.
Entendemos que a mídia busca dar continuidades ao que lhe dá retorno, moldando suas páginas para o que mais chama atenção do seu consumidor, pois lá “(...) é o lugar, por excelência, da afirmação de propósitos, do delinear de projetos e da construção de um
determinado horizonte de expectativa no leitor.” (CRESTANI, 2008, p. 327). Na Paraíba, isto não é diferente, a imprensa está no rol dos poderes, podendo ser considerado, como definiu Lima Barreto, como o quarto poder fora da Constituição, com mais influência decisória em aspectos dos mais diversos e relevantes.
Escolhemos, dentre a imprensa escrita que circula na cidade de João Pessoa, o Jornal
da Paraíba que está em circulação há mais de quatro décadas, e diferentemente do que
ocorria há séculos passados, em que só se podia ter o jornal através da assinatura mensal, hoje ele está em toda parte e qualquer pessoa que tenha condição, pode adquiri-lo numa banca ao lado de casa, do trabalho, sem que seja necessária uma assinatura mensal.
Além da questão da acessibilidade, já que o acervo se encontra online, a escolha, de certa forma, também teve influência da localização da sede do Jornal, que se encontra no Bairro de Tambiá, este chega a mesclar-se com o Bairro do Roger, levando-se a uma confusão geográfica se identificado a olho nu, por sinal, segundo nos coloca Medeiros (1994), o Tambiá compreendia o que hoje é Roger.
Essa indefinição quanto às fronteiras permeia o imaginário dos moradores do bairro. Segundo a moradora Laudereida Dias: “todo mundo considerava Roger e Tambiá uma coisa só”. A moradora também revelou que estes dois bairros, assim como seus habitantes, mantinham fortes relações. Eram servidos de uma mesma linha de ônibus: “Antigamente nós tínhamos um ônibus que passava, era Roger via Tambiá e Tambiá via Roger. Eu acho que esse elo de ligação que se fazia com o ônibus, as pessoas faziam também.” (NASCIMENTO, 2010, p. 92).
A partir disto, levantamos a hipótese de que, por estar tão perto da comunidade em estudo, o jornal pudesse ter uma perspectiva de abordagem diferente daquelas de cunho negativo identificadas na imprensa cotidianamente, como nos mostram as pesquisas de Campos e Koury, citada no tópico anterior. Este fator de abordagem negativa também é evidenciado por Pessoa (2012) em sua dissertação, que trata sobre o Bairro do Roger e suas práticas culturais quando nos diz que
(...) essas manifestações culturais possibilitam aos brincantes não oriundos do bairro e por vezes também da cidade, rever sua visão sobre ele, visão essa muitas vezes estigmatizada pela mídia como um local sujo e inseguro que acaba ocultando sua riqueza cultural. (PESSOA, 2012, p. 59).
Para quem não teve vivências no bairro ou não o adentrou fisicamente, socialmente ou culturalmente, o bairro é sinônimo de pobreza, violência, criminalidade, possuindo um teor negativo que é cotidianamente transmitido nos jornais impressos e televisivos que se apropriam de elementos presentes no bairro, a exemplo do antigo Lixão do Roger e do
presídio Desembargador Flósculo da Nóbrega, além de fatores pontuais, tais como a violência, as rebeliões esporádicas, da vida precária da Comunidade do “S”, para transformá- los num cenário sensacionalista que não busca apenas denunciar, mas torná-lo espetáculo para o público que é atraído pelas notícias dos cadernos policiais manchados da mais pura crueldade diária.
Com isto, não estamos dizendo que a mídia tem excesso de poder na representação do Bairro junto à sociedade pessoense, mas ela influencia no imaginário dos moradores da cidade que criam resistência aos bairros periféricos, isolando-se dos mesmos e excluindo da margem social de convivência.
Entretanto, a fim de quebrarmos uma perspectiva que fosse de especulação possivelmente construída através de um subjetivismo inocente, aplicamos um questionário com o grupo de amigos da rede social facebook que, consequentemente, compartilharam com outros amigos de suas redes. O público do questionário corresponde aos dados do gráfico abaixo:
Gráfico 01 – Percepções sobre o Bairro do Roger nas Redes Sociais
0 1 2 3 4 5 Sexo Mulheres (Entre 17 e 60 anos) Homens (Entre 17 e 58 anos)
Fonte: Elaborado pela autora com base nos dados obtidos.
Com relação aos bairros em que residiam os sujeitos que responderam o questionário, seguimos a divisão da Topografia Social que divide a cidade de João Pessoa em quatorze regiões dentro das zonas de orientação geográfica, ou seja, zona norte, zona sul, zona leste e zona oeste, conforme estão distribuídos os bairros no mapa abaixo.