Ao figurativizar uma Amazônia internacional, pela ausência do acento circunflexo no verbal “Absolut Amazonia”, o anúncio da vodka, enuncia claramente que, tanto a bebida quanto a região, se transformaram em um só, que se opõe no nível fundamental, o puro vs impuro. Ao admitirem suas diferenças e se transformarem em um ser só, sem fronteiras, configura-se a “Amazônia Cosmopolita”.
Recuperando os traços apresentados na campanha do Guaraná Antarctica diet e dos biquínis Rosa Chá, percebemos que no anúncio, o que emerge é uma disforizaçáo existente na distância geográfica que separa o local de cultivo do fruto, que dá origem ao refrigerante, e as consumidoras dos biquínis inspirados na bebida. Ao euforizar a bebida e desforizar a ida para um
lugar remoto, ou nas palavras do anúncio: “tão longe”, ao excluir outras potencialidades da região, que vão além do encantamento plástico, somos levados a acreditar que aquilo vale a pena ser visto da Amazônia, que se encontra relatada somente no conteúdo do biquíni e da bebida. A Amazônia e isso e nada mais. Para essa configuração segregativa chamamos de “Amazônia Relatada”. As posições de: “Assimilação” “Exclusão” “Admissão” “Segregação” Amazônia Conquistada Amazônia Diluída Amazônia Cosmopolita Amazônia Relatada
A utilização desses termos respeita o uso que é feito na sociedade. Podemos caracterizar nosso quadrado, conforme as proposições de contrariedade, contradição, negação e asserção: O que se afirma na grande totalidade dos discursos é um processo de aproximação e exclusão da Amazônia. Apesar da troca de axiologias que se dá entre Amazônia e os bens de consumo figurativizados no anúncio, a desforização da região é o que sobressai na grande maioria desses discursos.
Nisso parece estar um dos pontos interessantes sobre o simulacro da Amazônia. Os enunciadores acabam por formatar uma diferença mostrando um panorama que instala a Amazônia como o Outro, onde segundo Landowski:
“... a atenção se foca pontualmente num pequeno número de manifestações de superfície que nos apressamos seja a supervalorizar, seja a depreciar por si mesmas, sem nos preocuparmos com o lugar que elas ocupem nem, por conseguinte, com o significado que assumem no interior do sistema de valores, crenças e ação dos quais fazem parte” 88
No universo de nossa pesquisa o que se pudemos depreender foi que essa forma proposta pela publicidade de um encontro repentino com o alhures e o diverso, se configurou em sua totalidade como segregativa. Esse fato se deve, em grande parte, pelos textos analisados, ao estabelecimento de seus apelos, fundados em marcas da Amazônia e traços de brasilidade, num retrato portentoso dessa região por meio da utilização do aparato simbólico. Em que, no primeiro caso, a Amazônia é reduzida ao exotismo e à natureza, a qual poderíamos relacionar como: céu, floresta e rio. No segundo, a constante referência a símbolos nacionais nos leva, também, a pensar como: samba, praia e futebol.
Nesse jogo de construção identitária, da Amazônia e do Brasil, percebemos que essas representações contêm, na realidade, apenas uma fração do objeto representado e denotam determinado ponto de vista constituído pelas mídias, através de convenções limitadoras, simplificadas e facilitadas. Desse modo, forma-se um paradoxo entre a totalidade Brasil e as partes que o compõe e a parte Amazônia e a sua participação no todo, já que o destinatário assimila, por meio dos anúncios, um saber reduzido e que não abarca o todo das potencialidades dessa região.
Nessa perspectiva, o que se configura nos anúncios aqui analisados excede a maneira de ver a Amazônia e sua utilização estratégica como escopo para difundir um discurso que reafirma elementos que também funcionam para identificar a nação brasileira. Ao entrar em contato com os simulacros construídos nesses anúncios, o enunciatário se depara com investimentos de
88 Idem.
valores de outrem, que definem para o olhar do “estrangeiro” nacional e internacional, as formas pelo meio das quais devemos nos relacionar com as coisas do Brasil e, em especial, com os modos pelos quais nos constituímos enquanto seres brasileiros.
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