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5. Makro vs. mikro

5.1 Mikro-makro paradokset

5.1.1 Institusjoner

O trabalho de triagem consiste na separação por tipos dos materiais recicláveis. O caminhão da coleta seletiva traz os materiais até a associação e os vira no chão. Os galpões ficam então

com “montanhas de lixo”, que, no caso do galpão 1, fica exposto às intempéries climáticas,

tomando sol e chuva. A maioria dos materiais trazidos pela coleta seletiva domiciliar não chega limpo à associação. Assim, o cheiro do material é muito forte e desagradável, principalmente, os da Tetra Pak47, cujo odor azedo e podre é intenso. Quando o material molhou, no final do ano de 2008 e no início de 2009 por causa das intensas chuvas, ficou

“pegajoso”, com uma “baba” e um cheiro muito ruim.

Além disso, não sabemos se era devido à desinformação da população, em geral, no sentido de saber o que enviar e o que não enviar para a reciclagem. Se por causa da confusão dos dias de coleta do lixo convencional e da coleta seletiva, ou se por falta de consciência ou por descaso. Não sabemos se a população não entende que a coleta seletiva não vai para um

“lixão”, mas para galpões de triagem, onde pessoas farão a triagem, muito material impróprio

é encaminhado para a coleta seletiva. Material que retarda a triagem aumenta o nível de rejeito e, principalmente, torna o serviço insalubre. Foram relatados casos de animais mortos, fezes, fraldas usadas – tanto as geriátricas quanto as para bebês – restos de comida, seringas, dentre outros terem sido encontrados no material da coleta seletiva.

Dessa forma, por ser o trabalho uma atividade com o lixo, que por si só já tem um sentido

pejorativo, muitas pessoas não permanecem por não “se adaptarem” a ele, ou seja, por não

gostarem de estar envolvidas com dejetos. Este fato foi citado por 24 dos 40 associados como sendo um fator que contribui para a desistência do trabalho na COMARP.

“Tem pessoas que chega, eles vem faz a ficha, quando vem que chega no primeiro dia de trabalho eles olham e: „nem... Deus me livre, isso não é pra mim não. Eu fiz a ficha mas achava que ia ser diferente, eu não vou mexer com lixo, isso não é pra mim, não‟. E vai embora.” (ASSOCIADA 2)

“Esse tipo de material, o reciclado, isso aí depende muito da pessoa, da força de vontade, porque uma coisa, isso aí não é feito pra qualquer um não. A pessoa tem que ter força de vontade e tem que ter estômago também pra aguentar, porque tem coisa que a gente encontra nesse negócio aí que eu vou te falar, se não tiver estômago, quando ele chegar em casa ele não come, não.” (ASSOCIADA 12)

47 Embalagens longa vida, composta de camadas de plástico, alumínio e papel, comumente utilizadas na

A adaptação necessária à permanência, o “acostumar-se” com o trabalho, diz respeito a conseguir conviver com o cheiro e o aspecto do material a ser manuseado. De modo que quem

“acostuma” com o cheiro e os demais aspectos do lixo tende a permanecer, enquanto quem não consegue “acostumar-se” tende a não ficar na associação. E, para acostumar-se, é

necessário certo tempo, como fica claro nos relatos abaixo.

“(a sensação de trabalhar com lixo) não foi muito boa, não. Porque, às vezes, igual época de chuva mesmo, o material vem muito molhado. Às vezes, o papel cola um no outro, às vezes, vem comida, sabe, então, é bem nojento. Mas com o tempo você acostuma. Minha irmã, você tinha que ver quando ela entrou aqui... pegava desse jeito no material (com a ponta do polegar e do indicador) eu falei: „minha filha, se você continuar assim você não vai fazer nem pro café‟. Aí, agora, já acostumou. Com o tempo que você vai mexendo, aí você acostuma com aquilo.” (ASSOCIADA 13)

“Quando eu comecei a mexer, eu ficava com nojo, aí, foi passando o tempo, foi passando o tempo, e eu não queria ficar em casa. Eu passei a querer ir pra rua mesmo, pra mim catar os papel e tudo. Às vezes, eu achava coisa nojenta e já deixava pra lá, nem abria. E passei a gostar de mexer no lixo.” (ASSOCIADA 23) Além desse tempo necessário para “acostumar-se‟‟ ao trabalho, também fica claro que outras motivações são necessárias para a permanência na associação. Se a renda obtida for considerada satisfatória ou se o sujeito não tiver outras oportunidades e a necessidade de renda for grande, há uma tendência de as pessoas minimizarem os aspectos negativos e passar

a encarar este trabalho como “outro qualquer”.

“É muito ruim, é muito ruim mexer com o lixo... eu ficava assim... mas a gente acaba acostumando. Não sei se é tanto pela necessidade de trabalhar, mas a gente acaba acostumando a mexer no material e acha normal.” (ASSOCIADA 19) “Nos primeiros dias é difícil mesmo. Igual eu, por exemplo, eu nunca tinha mexido, então quando você toca assim, você abre uma sacola assim e tá cheia de bicho mexendo, o estômago embrulha e tal. Mas aí você pensa assim: „agora é hora de almoçar, aí, pronto, acabou.‟ Então, é difícil. Então, quando as pessoas vêm e de repente a primeira sacola que eles abrem é de bicho, então, eles desanimam e vão embora. E eu acho também que... eu cheguei a essa conclusão... igual eu...eu tô com 46 anos, e eu já passei por muita coisa, entendeu? Eu já sofri muito, já desisti de muita coisa. Acho que é por isso que hoje eu não quero desistir.” (ASSOCIADA 4) “Ah, é horrível! Porque, às vezes, você encontra coisa que você não espera encontrar, igual bicho... às vezes, a gente rasga a sacola e na hora que abre, que rasga a mão já sai puro bicho. E isso é chato, né? Às vezes, uma comida azeda, uma carne podre...um cheiro horrível no nariz da gente, mas aí a gente vira a cara pro outro lado e deixa passar, né? Porque tá precisando pagar as contas. Mas não é bom, não. Quem tem estudo e pode e consegue ter um serviço digno, eu acho que deve procurar. Porque ganha dinheiro, ganha, mas não é fácil mexer, não.” (ASSOCIADA 10)

O impacto para os novatos que nunca trabalharam com o lixo é muito maior. Houve relatos de pessoas que tiveram ânsia de vômito nos primeiros dias de trabalho. Outro caso ilustrativo da dificuldade em trabalhar com esse tipo de material é o de uma novata que desistiu no primeiro

dia de trabalho, pois sentia tanto nojo que não conseguiu almoçar. Outros exemplos são dados a seguir:

“No começo, quando eu entrei aqui na COMARP eu também fiquei assim , duas semanas e eu quase desisti. Eu falei: „ô, gente, eu acho que isso não é pra mim, não‟. No começo, mas depois a gente vai acostumando e acha normal, acha natural. Mas assusta, muita gente chega aqui e vê esse tanto de lixo e assusta, não fica mesmo.” (ASSOCIADA 19)

“Nesse dia mesmo, tinha umas moças lá de cima que começaram a passar mal mesmo, tiveram até que ir embora. Porque veio fazer mutirão no lixo molhado, tava até escorregando, fizeram vômito mesmo, tiveram que ir embora, e não vão continuar não.” (ASSOCIADA 25)

“Saem porque elas não estão acostumadas, né? Aqui no lixo, é muito nojento, tem dia que vem muita porcaria nele, então a pessoa não é acostumada a pegar nisso. Aí, prefere sair do serviço”. (ASSOCIADA 38)

De modo que se a necessidade da renda não for muito grande ou se a pessoa tem ou vislumbra outras possibilidades, a chance de permanecer na associação é pequena. Esta dificuldade de se adaptar ao tipo de trabalho é ilustrada pelo fato de 40% das pessoas que ingressaram na COMARP, terem saído antes de três meses. Aquelas que já trabalhavam com a reciclagem, já estavam “acostumadas” com o tipo de material e, portanto, se adaptavam facilmente.

Mesmo para os que permanecem, é desagradável o trabalho com os tipos de lixo considerados

piores, que eles denominam de “lixo velho”, pois neles o cheiro é pior e, muitas vezes, por

não conterem apenas material inorgânico, chegam a dar pequenas larvas brancas. Trabalhar com esse material, mesmo aos veteranos, causa nojo. Mas eles fazem uma diferenciação do

“lixo novo”, que é aquele recebido recentemente e, portanto, não tem cheiro tão ruim nem

bichos. Os veteranos também conseguem desenvolver estratégias de reconhecer esses diferentes tipos de material e a perceber os sacos com “lixo velho” e, assim, não chegam nem a abri-los.

“Tem gente que faz vômito, tem gente que não suporta, o estômago embrulha. Eu não, quando eu pego a sacolinha e eu vejo que é lixo, eu nem abro. Porque dá pra sacar, né? Eu nem abro, ponho lá no lixo.” (ASSOCIADA 18)

Há também o constrangimento por trabalhar com o lixo. Muitas pessoas não ficaram por acharem este tipo de trabalho muito humilhante, preferindo não revelar sua atividade. No entanto, embora seja citado que o material ainda vem bastante impuro, há a percepção, por parte de alguns, de que a qualidade do material já melhorou.

“Hoje em dia, tá mais selecionado. Depois que a gente fez implantações na Pampulha48, melhorou muito mesmo. Às vezes, capricham na caixinha de leite49, embrulham o vidro para evitar que a pessoa corte a mão nele.” (ASSOCIADO 27)

Além disso, há diferença entre os tipos de materiais que chegam, existindo os “melhores” e os “piores” para serem triados. Geralmente, o material que vem das doações dos diversos

órgãos50 é considerado o melhor, exatamente por vir mais limpo e selecionado. Entretanto, mesmo no material de doação há algum tipo de triagem mais trabalhosa, como podemos ver pela fala abaixo:

“O que eu menos gosto é triar o material da Kombi. O do correio porque vêm aquelas revistas com plástico que você tem que tirar, e aquilo me dá um nervoso. [...] e, às vezes, eles picam o papel tudo pequenininho e, aí, põe no meio dos outros, aí, você tem que ficar separando sabe, e é ruim.” (ASSOCIADA 13)