O projeto Diálogos sobre o Ensino de Ciências Naturais teve início de estruturação no segundo semestre do ano de 2010, com a realização de uma reunião entre os pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências da UNESP de Bauru (SP), quando surgiu a ideia de uma pesquisa que pudesse contemplar, de modo colaborativo e articulado, diversos temas relativos ao ensino de Ciências, com foco na maneira como esses temas dialogavam com a formação continuada dos professores. O projeto teria como principais características a pesquisa in loco, o levantamento das necessidades dos professores e propostas de articulação entre as possíveis contribuições da universidade e desafios com que a escola se defronta na área de ensino de ciências.
Neste momento, algumas questões foram levantadas:
1) Face ao Currículo Oficial1 vigente nas escolas públicas do Estado de São Paulo (SÃO PAULO, 2010), cujas atividades de aula são fortemente
1 Currículo básico comum para as escolas da rede estadual do Estado de São Paulo nos níveis de
Ensino Fundamental (Ciclo II) e Ensino Médio. Os materiais que compõem este currículo são: Caderno do Gestor; Caderno do Professor e Caderno do Aluno.
estabelecidas segundo os Cadernos do Aluno2, qual seria o grau de liberdade para que um projeto de formação continuada, visando à autonomia dos professores, pudesse ser desenvolvido?
2) Em vista de vários projetos já estarem em andamento no grupo de pesquisa, como seria dada a negociação entre pesquisadores e professores da escola com referência aos temas de trabalho, uma vez que acreditávamos que esses temas deveriam estar de acordo tanto com as demandas dos professores, quanto com os compromissos acadêmicos assumidos pelos pesquisadores?
3) Frente a comentários desestimuladores de algumas pessoas que conhecíamos no que se refere à escola escolhida para o desenvolvimento do projeto e à comunidade na qual a mesma está inserida, ponderamos se tais problemas não poderiam prejudicar o andamento dos estudos que pretendíamos realizar, estudos esses vinculados a projetos de mestrado e doutorado que tinham prazos a serem cumpridos. Vale ressaltar que a escolha desta determinada escola se deu devido a vários motivos, entre eles os fatos de aquele estabelecimento de ensino localizar-se próximo à universidade e oferecer tanto o ensino fundamental quanto o médio. A escola selecionada possuía uma fama muito ruim no município (dizia-se geralmente que nesse local o ensino era “fraco”, e havia sérios problemas de indisciplina, influência do tráfico de drogas e violência; dois pais de alunos, com os quais tivemos oportunidade de conversar durante o período, relataram que queriam transferir seus filhos para outras escolas, já que, na opinião deles, a escola pesquisada não apenas “não ensinava”, como era um local em que as crianças aprendiam comportamentos “errados”). Dentre os critérios para escolha da escola na qual o projeto seria desenvolvido, não tínhamos em mente a “má fama”, mas é evidente que nossa inserção numa escola considerada “muito ruim” teve o aspecto positivo de permitir que a pesquisa fosse realizada num ambiente bem
2 O Caderno do Aluno traz atividades que estão divididas em Expectativas de Aprendizagem. Cada
expectativa é composta por diversas atividades que têm como finalidade o desenvolvimento de determinadas habilidades no aluno.
representativo dos inúmeros problemas que afetam o ensino público no país (AQUINO, 1996, p.40).
Uma das queixas dos professores com relação à universidade é que o conhecimento por esta produzido dificilmente chega até a escola (NARDI; BASTOS; TERRAZAN, 2008). Neste sentido, mesmo com as dificuldades que porventura pudessem surgir, decidimos procurar a escola, uma vez que acreditamos que a produção acadêmica pode chegar à escola básica por meio de projetos de formação continuada. Além disto, acreditamos que as relações entre estas duas instâncias educacionais devem ser estreitadas e que ambas necessitam trabalhar de maneira colaborativa com a finalidade de produzir conhecimento e melhorar a educação.
No dia 22/11/2010 entramos em contato com a direção da escola e na ocasião levantamos a possibilidade de um trabalho colaborativo entre a escola e a universidade. Pela maneira como a conversa foi encaminhada pela diretora nos foi mostrado bastante interesse, sendo solicitado a nós comparecer no dia seguinte para que pudéssemos participar da HTPC/ATPC (Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo, termo alterado posteriormente para Atividade de Trabalho Pedagógico Coletivo)3 e assim apresentar aos professores nossa proposta, sendo que estes últimos decidiriam sobre viabilidade deste trabalho colaborativo.
Assim procedemos. No dia 23/11/2010 comparecemos à escola para que pudéssemos conhecer os professores. Porém, antes deste momento, a diretora nos solicitou uma conversa em particular, na qual relatou que estagiários de licenciatura da universidade compareceram à escola em uma sexta-feira, no período noturno, para oferecer aulas práticas de Química. Segundo a diretora, foram realizadas atividades muito interessantes, mas, naquele dia, a escola contava com poucos alunos, e alguém da equipe da universidade promoveu uma reclamação junto à Diretoria de Ensino. Após este episódio a Diretoria de Ensino contatou a escola para averiguar os fatos, o que causou constrangimento tanto para a direção escolar quanto aos professores. Acreditamos que episódios como este afetam a relação entre universidade e escola básica, reforçando ainda mais a ideia, comum entre os
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O Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC) alterado posteriormente para Atividade de Trabalho Pedagógico Coletivo (ATPC) é um encontro de professores destinado para discussões de natureza pedagógica. São destinadas para esta finalidade 2 ou 3 horas semanais, dependendo da carga horária do professor.
professores de escola, de que a universidade só está preocupada com seus próprios interesses (NARDI; BASTOS; TERRAZAN, 2008). Neste sentido, percebemos que tal conversa fora no sentido de impedir que situação similar voltasse a acontecer. Procuramos tranquilizá-la argumentando que nosso projeto possuía características diferentes daquele: era um projeto de formação de professores e não de ensino, e que o mesmo seria desenvolvido por nós mesmos e não por intermédio dos estagiários.
Após esse comentário da diretora, expusemos para ela nossa ideia a respeito de como conduzir o projeto de formação continuada, explicando que, devido à nossa área de formação, poderíamos contribuir com alguns temas que faziam parte do currículo da área de Ciências: sequenciamento de DNA, clonagem, manipulação gênica, organismos transgênicos etc.; atividades práticas para o ensino de Ciências; uso da história da ciência no apoio ao ensino; e ensino de Química apoiado por atividades práticas e elementos de história da ciência. Esta era uma ideia ainda geral e que deveria ser melhor detalhada nas reuniões com os professores, caso houvesse realmente interesse na efetivação da colaboração proposta. Após tais esclarecimentos junto à Direção da escola, seguimos para o HTPC.
Havia cerca de 20 professores na reunião, quantidade esta que provavelmente estava muito próxima do número total esperado para aquela atividade. Após a sequência da pauta elaborada pelos coordenadores, nos foi dada a oportunidade de expor nosso projeto. Apresentamos assim as características gerais das ações de formação continuada que pretendíamos realizar, de modo semelhante ao que havíamos feito ao descrevê-las à direção, e deixando bem claro que seria um trabalho que valorizaria as demandas dos professores e se estruturaria conforme o comum acordo entre os docentes da escola e os colabores externos. Durante nossa explanação, uma professora que leciona a disciplina Química citou as atividades experimentais realizadas pela equipe da universidade (a mesma citada pela diretora, anteriormente), salientando que tinham sido produtivas, e que considerava importante dar atenção ao ensino prático. Esse foi o primeiro indício que tivemos de que o ensino prático seria de interesse para os professores daquela escola. Destacamos, também, que pretendíamos trabalhar a partir do que já estava
previsto no currículo oficial e no planejamento da escola, isto é, não tínhamos intenção de desestruturar o que já existia.
Terminada a reunião com os professores conversamos novamente com a diretora, a qual ratificou o interesse na parceria que propusemos. Relatou neste momento que a escola possui um laboratório, mas que os professores não utilizavam, alegando que os alunos poderiam danificar as vidrarias e os aparelhos que lá estavam e que, por isso, o espaço estava sendo usado na disciplina de artes. Inclusive relatou que recentemente a escola havia recebido um kit com materiais que visavam equipar melhor o laboratório didático.
Concluímos que seria interessante analisarmos o Currículo Oficial do Estado de São Paulo para verificar de que maneira nossa ação poderia aproximar-se das demandas ligadas ao currículo existente e, então, solicitamos um exemplar do referido Currículo para o ensino de Ciências Naturais (SÃO PAULO, 2010), o qual nos foi fornecido. A diretora nos solicitou que comparecêssemos à escola no primeiro dia letivo do ano de 2011, no dia do planejamento, para que pudéssemos novamente falar com os professores.
Assim, conforme combinado, no dia 09/02/2011 comparecemos à escola, quando fizemos o convite aos professores da área de Ciências da Natureza para que os mesmos participassem do projeto. Embora a escola possuísse outros professores que ministravam aulas na área, apenas três deles aceitaram participar, sendo uma professora de Biologia, uma professora de Química e um professor de Física. Mais tarde (em maio de 2012), outra professora, esta da disciplina de Ciências, foi inserida no projeto. Essa limitada adesão dos professores pareceu-nos estar vinculada à experiência anteriormente vivenciada com a outra equipe ligada à universidade, bem como ao temor por mais sobrecarga de trabalho. Alguns professores não demonstraram interesse nem mesmo em conhecer nossa proposta. Identificaremos ao longo deste trabalho os professores participantes do projeto pelas siglas B, Q, F e C, siglas estas relacionadas às disciplinas que ministram (Biologia, Química, Física e Ciências).
Com relação aos pesquisadores, utilizaremos a expressão colaboradores externos quando a eles nos referirmos. Estes eram em um total de quatro, sendo três deles da área de Biologia e um da área de Química. Todos os colaboradores
acompanharam o processo durante o período de investigação sem, no entanto, terem participado de todas as reuniões.
Assim, estava formada a equipe participante do Projeto Diálogos sobre o Ensino de Ciências Naturais, cujo objetivo era a formação continuada de professores de Ciências da Natureza por meio de um projeto de trabalho colaborativo entre a universidade e a escola básica. A palavra diálogo denota conversação entre duas ou mais pessoas, significado este que busca refletir as características do projeto, o qual se procurou ater-se a um sistema colaborativo entre universidade e escola, com interação realizada de maneira horizontal.
5.3 OS PROFESSORES PARTICIPANTES: CARACTERIZAÇÃO E