System Description
3.4 Installation process
Em The Lord of the Rings, como é notado por Brooke-Rose (1981), o papel de herói não é centralizado, sendo compartilhado por pelo menos três personagens: Gandalf, Aragorn e Frodo – cada um deles pertencendo a uma categoria diferente das propostas por Frye. Faz-se necessário, aqui, retomar as principais características de cada um.
O mago Gandalf é o mais elevado. Ele é o enviado divino dos Valar para combater o mal de um vilão, Sauron, que é igualmente superior aos outros homens e ao meio, possuindo também o seu caráter de divindade. Essa estatura divina também é compartilhada por Saruman, que, no decorrer da narrativa, é destituído de sua grandeza para se tornar mais semelhante aos homens comuns.
Aragorn é semelhante ao herói da lenda, dos contos populares e das novelas de cavalaria. A ele estão ligados símbolos de nobreza e coragem que o qualificarão tanto como um rei guerreiro, quanto como o rei que cura e traz esperanças de renovação à terra devastada. Considerando que a personagem é tida como ser superior em grau ao meio e aos outros homens, somado a sua predestinação ao trono de Gondor, a sua derrota seria algo improvável. Pode-se dizer que a trajetória de Aragorn, semelhante à de Galaaz em A demanda do Santo Graal (cf. TODOROV, 1970, p.178), é marcada por uma sequência de provas rituais, nas quais ele não pode falhar, ou seja, não existe a possibilidade de sucesso ou fracasso em sua trajetória, apenas de sucesso. Apesar disso, o seu destino e o de toda a Middle-earth dependem do êxito de Frodo em sua demanda.
Frodo, por sua vez, é a mais frágil das três personagens, sendo muito semelhante ao homem comum. É ele quem se oferece para cumprir a missão de destruir o Anel e assume a responsabilidade sobre o destino de toda a Middle-earth. Durante toda a narrativa, ele é a personagem que mais sofre, não somente por causa do longo e difícil caminho que deve percorrer, mas pela luta interna que deve travar para conseguir destruir o Anel, um objeto ao mesmo tempo temido e desejado.
Dessa forma, Tolkien coloca, no centro de sua obra, três personagens de grandezas diferentes com uma estreita relação de interdependência, em que o mais frágil se torna o responsável pelo sucesso ou fracasso dos outros. Além disso, deve-se destacar que cada uma dessas personagens segue uma trajetória paralela, cujo principal elemento é uma “morte ritual”, experimentada de diferentes formas pelos três heróis. Assim,
Gandalf morre e é mandado de volta à Middle-earth após a luta com o Balrog; Frodo quase morre e fica muito tempo inconsciente após ser atacado por Shelob; e Aragorn tem uma experiência de morte e retorno à vida simbolizada pela travessia dos Paths of the Dead.
Note-se que, a cada uma dessas mortes rituais sucede-se uma revelação ou uma mudança de condição: Gandalf é elevado na hierarquia dos Magos e torna-se apto a ocupar o lugar de Saruman, tendo, inclusive, a função de destituí-lo de seu estatuto original; Aragorn confirma sua posição como herdeiro do trono de Gondor ao liderar a multidão de fantasmas das Paths of the Dead; e Frodo torna-se mais consciente de sua fragilidade, chegando até mesmo a considerar que sua missão estava perdida. A morte ritual age diferentemente sobre cada uma das personagens, sendo que, somente para Frodo, ela atua negativamente.
A relação de dependência entre Aragorn e Frodo cria uma situação complexa para o desenvolvimento da narrativa. Se, por um lado, a revelação do destino e o estatuto de personagem elevada inevitavelmente conduzem Aragorn ao sucesso, por outro, a relativa fraqueza física e o árduo dilema moral, imposto pela posse do Anel, fazem de Frodo uma personagem condenada ao fracasso. Tolkien, porém, consegue construir sua narrativa de modo que não descaracterize a natureza de nenhum personagem, ou seja, a vitória do futuro rei de Gondor é assegurada pelo destino, e a derrota de Frodo é concretizada quando ele decide tomar o Anel para si, o que resulta em sua mutilação.
Apesar da destruição do Anel e da vitória sobre Sauron, não se pode considerar que Frodo obteve absoluto sucesso em sua demanda, visto que o fracasso dessa personagem, embora não atinja o nível material, concreto, permanece em um nível moral, só experimentado efetivamente por ela mesma.
Ao final de The Lord of the Rings, Frodo também não é reconhecido como herói por seu povo, apesar de ter sido o principal agente responsável pela destruição do Um, já que foi ele quem o levou até Mount Doom96. O reconhecimento é dado por completo ao rei de Gondor.
Como se pode notar, as personagens de Aragorn e Frodo seguem coerentemente os modelos propostos por Frye, sendo que o primeiro consagra-se como o típico herói
dos contos de fadas, recebendo o reconhecimento e o reino, além de poder realizar seu casamento; já o segundo tem um final típico de um herói da modernidade (cf. KOTHE, 2000, p. 61), marcado por uma negatividade, que o condenaria ao esquecimento não fossem os esforços de Sam para manter sua memória viva e registrada no Red Book.
Diante da tensão estabelecida entre essas duas personagens, Gandalf assume uma posição ambígua, pois, ao mesmo tempo em que ele se eleva como um mensageiro enviado pelos Valar, não lhe é permitido demonstrar plenamente seu poder. O mago atua, assim, como o agente que impulsiona os eventos, mas não como realizador, embora fosse ele, talvez, o único à altura de Sauron, de acordo com a hierarquia das divindades criada por Tolkien. Sua única realização seria a expulsão de Saruman da Ordem dos Magos. Contudo, tendo retornado a Middle-earth já dotado de todas as qualidades que o tornariam apto a substituir o mago branco, sua ação aparenta ser apenas um ato simbólico de confirmação de uma ordem já previamente decretada.
Ao colocar essas três personagens de estaturas diferentes no centro de sua obra, Tolkien promove um resgate das tradições do mito e dos romances medievais, fazendo uma atualização do gênero pela inserção de uma personagem muito semelhante ao homem moderno, dividido entre seus anseios e temores e desprovido de quaisquer poderes especiais.