3 Metode
3.2 Inspeksjonsrapporter som datagrunnlag
As questões levantadas anteriormente nos permitem perceber que sistematizações estanques, que tentam inserir o jornalismo em extremos, acabam por limitar a prática a um viés reducionista que distancia cada vez mais o discurso sobre a prática da prática em si. Determinadas condutas previstas em manuais não são suficientes para enfrentar a complexidade da realidade que, por vezes, surge à frente do repórter. A proposta desse trabalho é compreender como a inserção dos sujeitos que fazem parte do processo de produção jornalística nessa discussão torna possível um novo olhar para a atividade que se aproxime do dia a dia da profissão. Portanto, a inserção da subjetividade nesse debate não ocorre por uma oposição à objetividade, mas a partir da relação entre a subjetividade e o autoconhecimento do jornalista como narrador no contexto da prática jornalística, sua tomada de consciência de si enquanto sujeito no processo de construção das narrativas jornalísticas.
Neveu (2010) lista três processos que afetam a produção jornalística contemporânea e que mudam o rumo da prática: a profissionalização das fontes, o aumento das pressões empresariais e o impacto da internet. Cada uma delas diz respeito a uma dimensão da atividade jornalística e todas elas se articulam de modo a modificá-la na atualidade. Se a internet ocasionou uma grande mudança estrutural isso só foi possível por causa da apropriação social dessa tecnologia, da mesma forma que o aumento das pressões empresariais afeta os profissionais que hoje têm de exercer diversas tarefas para dar conta da produção de conteúdo em multimídias (propiciado pela internet), ganhando baixos salários e com o aumento das demissões. Podemos somar a essas mudanças no cenário do jornalismo atual, que afetam diretamente os profissionais, especificamente no caso do Brasil, o fim da obrigatoriedade do diploma para o exercício da atividade jornalística, adicionando uma nova insegurança ao jornalista e modificando as condições de produção do jornalismo.
As considerações de Neveu (2010) contribuem para pensarmos como todos os aspectos da prática se articulam, além de evidenciar a existência de um profissional que sofre pressões e possui anseios por trás da alcunha de jornalista. As mudanças das exigências do jornalista modificam o modo como ele produz e, assim, a própria prática ganha novos contornos. Se a intenção desse trabalho é centralizar a questão do sujeito que narra, é importante pensá-lo também em sua dimensão profissional que, por consequência, afeta a sua construção narrativa. Neveu (2010) sugere que a exigência crescente de várias competências do jornalista, a fim de suprir a necessidade de conteúdo multimídia e veloz, pode transformar
os jornalistas em trabalhadores genéricos da informação. Frente a essa preocupação, Neveu (2010) busca caminhos para evitar que o cenário da convergência torne obscuros os rumos da identidade profissional do jornalismo.
Eu gostaria de defender a possibilidade de identificar alguns caminhos e algumas estratégias para evitar o pior, para salvaguardar - sem mistificá-la – a definição do jornalista como alguém que coleciona fatos que não estão numa tela no seu escritório, como alguém que fala para as audiências que não sejam apenas consumidores, mas também cidadãos, como alguém que mantém autonomia suficiente para praticar as aptidões de um verificador crítico das notícias, e não a tarefa ambígua de lavar e passar como “notícias” as mensagens e os discursos das autoridades e das instituições poderosas. (NEVEU, 2010, p. 31)
Partindo desse desejo, o autor postula que o olhar das ciências sociais poderia subverter esse processo. “Este jornalismo, apoiado pelas ciências sociais, pode oferecer uma rica palheta de trabalhos destacados, reportagens e pesquisas sociais profundas e humanas, de leitura agradável e desafiadora” (NEVEU, 2010, p. 49). Assim, ao retomar o valor da criatividade, buscar uma visão ampliada para os temas abordados e promover uma relação concreta com os sujeitos envolvidos, o jornalista estaria indo na contramão da automatização da prática jornalística e reencontrando-se com o caráter transformador da atividade, uma vez que, conforme destaca Neveu (2010, p. 49), “nenhum ‘blogueiro’ ou trabalhador da informação vai conseguir isso por meio de um mero processo de prospecção de dados na frente da sua tela”. Dessa maneira, centralizar a questão nos sujeitos em relação não revela somente sobre uma subjetividade inerente à prática, mas também diz sobre modos de apropriação da realidade possíveis quando se leva em conta que há um sujeito por trás do relato e, com ele, um modo de ver o mundo e de abordá-lo, aliado a uma identidade profissional que lhe serve de base.
Vale ressaltar que, ao propormos levar em conta os sujeitos envolvidos, não há a tentativa de negar a dimensão objetiva dos fatos. Esse movimento apenas tenta lançar luz a questões negligenciadas. Objetividade e subjetividade são duas faces da mesma moeda e ambas habitam a narrativa jornalística, ainda que a primeira tenha sempre ocupado um lugar privilegiado nos estudos fundantes do jornalismo, seguindo a linha dos ideais positivistas da sociedade industrial.
Serelle (2009) considera que a crítica que expôs a ingenuidade da concepção de contiguidade entre a realidade e a narrativa ganhou fôlego na segunda metade do século XX, “quando os teóricos da descontinuidade, entre eles Hayden White (1998) e Louis Mink (1998), colocaram em relevo os aspectos factícios de todo relato – interessava a eles notadamente aquelas narrativas sob o regime de veracidade.” (SERELLE, 2009, p. 37). No
entanto, não houve grande influência desses questionamentos acerca da objetividade sobre o jornalismo que, sem nenhum outro conceito com força o suficiente para substituí-la enquanto norte, manteve-se enquanto característica fundamental da sua narrativa.
Para além da impossibilidade de alcançar o real em sua totalidade e dos aspectos factícios da narrativa abordados pelos teóricos da descontinuidade, outro ator vem colocar em xeque o paradigma da objetividade: o sujeito enunciador. A questão do sujeito ganha notoriedade nos estudos da sociedade pós-industrial e a subjetividade se destaca enquanto inerente a qualquer produção textual, mesmo aquelas que têm a objetividade como norte (e muitas vezes como escudo). Como expõe Pereira Junior (2010, p. 33), “o empirismo mecânico, que apregoava obter a verdade por via direta e depositava suas fichas em enunciados objetivos, tem de incorporar a ideia de que a verdade é fruto da enunciação”.
Ainda que a temática da subjetividade e do enunciador não seja nova no jornalismo, principalmente no que diz respeito às primeiras reportagens em que o narrador-sujeito era característico, ela acabou rareando (SERELLE, 2009). A presença do narrador no relato, do eu-enunciador, só voltou à cena com a revalorização do testemunho e do sujeito nos anos 1970, a que Beatriz Sarlo (2007) chama de guinada subjetiva, termo que Serelle (2009) toma emprestado e transporta para o campo do jornalismo.
Neste cenário, vêm à tona, como dissemos, a princípio na condição de arestas, uma série de relatos jornalísticos em primeira pessoa, em que a perspectiva do sujeito não apenas molda a matéria narrada, mas a própria experiência do narrador torna-se parte do fato a ser comunicado. Podemos apreender essas manifestações como relatos resultantes, no jornalismo, da guinada subjetiva, que, principalmente a partir da década de 1970, deu a voz, por meio do testemunho, àqueles até então excluídos dos discursos majoritários. (SERELLE, 2009, p. 39)
As discussões que dizem respeito aos sujeitos ganharam eco em áreas que têm a realidade como base, como é o caso da História, com a História Oral ganhando legitimidade, e do próprio jornalismo. Para Sarlo (2007, p. 19), “a identidade dos sujeitos voltou a tomar o lugar ocupado, nos anos 1960, pelas estruturas”. A problematização da subjetividade nas narrativas, a primeira pessoa, o testemunho e a experiência ganharam notoriedade chegando a uma supervalorização. Sobre esse aspecto, Sarlo (2007) sugere cautela: “se há três ou quatro décadas o ‘eu’ despertava suspeitas, hoje nele se reconhece privilégios que seria interessante examinar” (SARLO, 2007, p. 21). Assim, nos estudos que abordam a subjetividade nas narrativas, como é o caso dessa investigação, devemos atentar-nos ao fato de que testemunho também é discurso e de que o relato jornalístico não pode esconder uma investigação
superficial atrás de uma narrativa humanizada em primeira pessoa, tampouco camuflar interesses por intermédio de uma escrita poética.
Mattelart e Mattelart (2004) também abordam a valorização dos sujeitos particulares que ganhou fôlego nos anos 1980. Para os autores, se na abordagem estrutural, que se destacava em 1960, havia o esforço em acabar com a obsessão das ciências psicológicas no que se refere a um sujeito isolado das estruturas, em 1980 houve a reversão desse cenário, o sujeito ganhava centralidade nas discussões. “Com a valorização do sujeito, é o estudo da vida cotidiana, do “ordinário do sentido” (segundo feliz expressão de Michel de Certeau) que adquire sua pertinência.” (MATTELART e MATTELART, 2004, p. 104). Desse modo, com a ênfase sobre o vivido frente ao instituído, a sociologia do cotidiano e o privilégio do sujeito fomentou a emergência de disciplinas como a antropologia social, cultural e histórica, evidenciando uma preocupação sobre a relação com o outro, e a psicanálise que coloca em foco a relação do indivíduo com a sua própria história (MATTELART e MATTELART, 2004).
Já no âmbito dos estudos em linguagem, o retorno do sujeito ocorreu a partir das teorias enunciativas, já citadas no item anterior, e das pragmáticas. Tais teorias também avançam ao englobar a linguagem como parte do processo comunicativo, a linguagem posta em ação. Tanto nas teorias da enunciação como na pragmática, os sujeitos são ressituados como protagonistas do ato enunciativo; passam a entrar em cena o enunciador e o enunciatário, o locutor e o receptor (MATTELART e MATTELART, 2004).
Os autores ainda afirmam que, ao destacar o papel do sujeito e ressaltar o banal, o ordinário, e é pertinente incluir aqui também o anônimo, torna-se possível analisar as lógicas sociais que fazem parte dos acontecimentos, ações da vida humana. Ainda nessa linha, estudos passam a compreender a comunicação como processo social, como circular, em resposta às correntes que pensavam a comunicação como linear, muito sob as teorias da informação em voga desde os anos 1940, época em que a teoria matemática, por exemplo, tinha grande influência.
No entanto, é necessário destacar que não há a necessidade de opor estrutura e sujeito de forma sistemática, pois pode levar a negligenciar aspectos importantes do processo comunicativo e de construção noticiosa, como é o caso do poder. “A ênfase colocada no acontecimento, no cotidiano, no ordinário do sentido pode fazer cair no esquecimento os grandes dispositivos de poder. A recusa em sobrevalorizar a ‘estrutura’ pode ter seu reverso na
utopia da autonomia da ‘resistência’". (MATTELART e MATTELART, 2004, p. 107). Com isso, é importante pensar o sujeito no jornalismo de forma articulada com a estrutura que envolve a prática jornalística. Além de estar imbricado na sociedade e sendo influenciado intimamente pelos seus processos, o jornalismo é atravessado por interesses que fazem parte da sua dinâmica interna e da sua relação com os receptores. Conforme destaca Maia (2006, p. 138), “os interesses são diversificados, já que envolvem as visões dos jornalistas, das fontes, dos editores, dos empresários do setor, da chamada opinião pública e ainda das crescentes minorias”.
À vista disso e compreendendo a cautela necessária para evitar extremismos, buscamos promover uma discussão que englobe os sujeitos pertencentes do processo comunicativo e da construção narrativa da realidade, pensando-a enquanto compartilhamento de sentidos e não como transmissão de informação. O sujeito que investiga e que narra, o sujeito que conta a sua história e o sujeito que lê o relato final são parte desse mesmo movimento e colocam-se nele em sua integridade. Nas palavras de Pereira Junior (2010, p. 27), “entre o acontecimento e o público, muitas camadas se intrometem. Os sentidos, o repertório do sujeito e sua vivência atuam no ato de captação das informações, que não é feito no vazio”.