Foi também excluído do catálogo o conjunto de dados extrapolável do achado dos mosaicos de 1899155.
Os pontos de referência da planta de 1899 sobreponíveis a pontos identificáveis na planta actual são pouco (portas da muralha, “bico da muralha”, canto sudeste) e verifica-se que a representação topográfica antiga é insuficientemente exacta para uma extrapolação rigorosa da localização dos achados. É seguro que foram recolhidos quatro mosaicos e existem apenas quatro áreas de escavação de dimensão apreciável (as restantes são apenas valas); isto, aliás, conduziu à identificação de uma das áreas com a sala 6 da casa de Cantaber156, e a proveniência de um mosaico foi garantida pela
conservação in situ de um fragmento de bordadura idêntica.
152 Alarcão e Etienne 1977, 78-79 e, em especial, 78 n. 12. 153 Clarke 1991, 177.
154 Maj 1961, 31. 155 Oleiro 1973, 67-158. 156 Cf. supra p. 140.
Figura 88 – Reconstituição da localização das sondagens de 1899, de onde podem provir os três mosaicos encontrados.
As três áreas restantes situam-se:
- uma a Norte, numa zona que abrangendo parte da entrada do fórum e da praça a sul deste, parece improvável ser local de proveniência de um mosaico.
- as outras duas, dois quadrados ligados por um vértice, corresponderão mais provavelmente a uma zona central dos edifícios a oeste da zona C.
Isto poderá indicar que os três mosaicos são, na verdade apenas dois, correspondendo o painel do Minotauro no centro do labirinto muralhado e o painel com objectos rituais a dois tapetes distintos do pavimento de uma única sala (a bordadura pode porventura corroborar esta hipótese).
178
Figura 89 – Mosaico encontrado em Conimbriga em 1899:
O Minotauro no centro do labirinto muralhado. A foto não mostra a bordadura em trança branca sobre fundo preto.
Os dados são, todavia, por demais inseguros, ainda que pudesse ser interessante associar a representação de objectos rituais e a presença de um motivo tão forte quanto o labirinto muralhado, num pavimento que poderia estar em relação com um edifício onde se propõe localizar uma schola157.
157 Cf. infra p. 327-333.
Figura 90 – Mosaico encontrado em Conimbriga em 1899: Objectos rituais e símbolos.
Figura 91 – Mosaico encontrado em Conimbriga em 1899: Pertence indiscutivelmente a outro pavimento.
Parte II
A análise da arquitectura doméstica
Enquanto objecto, a cidade existe materialmente […] mas o corolário desta função
objecto é um verdadeiro papel de intervenção, de função sujeito. O quadro urbano, o
ambiente urbano exercem influência nos seus habitantes, podem transformá-los pouco a pouco […]. Se o homem utiliza e molda a cidade, a recíproca é igualmente verdadeira.
Introdução Os objectivos da análise
Não se pretende reduzir a análise da arquitectura doméstica a uma catalogação das suas realizações (na extensão limitada em que são conhecidas, quer quantitativamente quer nos aspectos concretos, conservados, de cada edifício), mas sim utilizar a amostra disponível como campo de exploração aprofundada do verdadeiro papel da arquitectura na sociedade de Conimbriga nos séc. I a III da nossa era.
Para isso parece adequado iniciar essa exploração pela análise da arquitectura enquanto constructo de um processo amplo e complexo, em suma, da arquitectura enquanto produto.
Esta análise sistémica deve iniciar-se pelo elemento essencial do fenómeno urbano, que é o próprio espaço em que a construção se implanta. Num segundo momento deve analisar-se a panóplia de materiais de construção utilizados. Mas a análise não fica completa sem uma análise específica dos aspectos que extrapolam da construção de finalidade doméstica, dos aspectos cuja complexidade e interacção com outras esferas não se contêm dentro de um só edifício e de um só momento de construção. Estão neste caso o problema da gestão hidráulica e, numa outra esfera mas de também assinalável importância, o da implantação nas casas de programas de decoração musiva
184
que, demonstravelmente, duraram, em cada uma delas, um espaço de tempo superior a uma geração.
O entendimento do processo construtivo subjacente às residências de Conimbriga na gama vasta das vertentes ecológicas que lhe subjazem deve permitir colocar na perspectiva correcta um elemento para cuja explicação é necessário recorrer à análise tradicional da história de arte, cuja posição dentro da arqueologia clássica de tradição winckelmaniana é por isso mesmo de assinalável importância: trata-se do contributo específico dos modelos artísticos que as residências de Conimbriga imitaram na sua edificação, dando ao resultado do processo construtivo um resultado determinado, distinto de um qualquer outro possível. O elemento contrastante com este, terceiro passo da investigação sobre a arquitectura doméstica conimbrigense é, obviamente, a ausência desses modelos noutros edifícios; o carácter popular, rústico ou meramente de imitação imperfeita que outras construções apresentam.
O quarto nível de aprofundamento da investigação da arquitectura, fundado nos anteriores, será a análise da arquitectura enquanto conjunto de elementos portantes de um conjunto de actividades - como ambientes funcionais, em suma - ou “elementos de um cenário” na expressão de A. Rapoport158.
As últimas duas décadas lançaram na investigação da arqueologia romana um movimento de extraordinária renovação no estudo desta matéria. Os trabalhos pioneiros de A. Wallace-Hadrill 159 e o seu assinalável eco
académico160, que se vieram somar aos contributos de P. Zanker161, colocaram
158 Rapoport 1977 é o trabalho fundador, mas foram sobretudos utilizados os trabalhos
publicados pelo autor em 1990 (Rapoport 1990, em Kent 1990) e 1994 (Rapoport 1994 em Ingold 1994).
159 Wallace-Hadrill 1988, republicado com outros trabalhos, no volume fundamental Wallace-
Hadrill 1994.
160 Veja-se a título de exemplo, Barton 1996 (em especial Brothers 1996) ou o conjunto de
trabalhos publicados em Laurence e Wallace-Hadrill (eds.) 1997. Mais recentemente Hales 2003 reforça, pela própria limitação da amostra escolhida fora desse âmbito, a demonstração do carácter “vesúvio-cêntrico” destas análises, muito condicionadas pela evidência disponível.
a investigação da representação social da elite162 através das suas residências no
centro da interpretação do fenómeno urbano romano.
Como foi já mencionado, a centralidade nesta problemática da evidência da área peri-vesuviana é tal, que são quase dispiciendos os esforços notáveis fora dela. Conimbriga tem, para além disso, um notório défice de conservação; não é por isso possível desenvolver uma análise da mesma extensão, excepto no que diz respeito aos programas musivos de duas ou três residências. Esse será, não obstante, um quinto nível de análise da arquitectura.
O sexto nível de análise impõe-se por si próprio: é o da conformação dos vários elementos analisados em conjuntos de cenários coesos, em edifícios relacionados com o cadastro, com as estruturas familiares proprietárias e com a sociedade em geral.
E não é possível terminar a análise da arquitectura doméstica de Conimbriga sem ceder à tentação de extrapolar a partir da amostra disponível, para o conjunto da cidade, algumas das realidades observadas.
162 Que aqui será levada a cabo através da associação dos espaços arquitectónicos às ideias
morais e políticas (Wertbegriffe) dessa elite, de acordo com as propostas de M. H. Rocha Pereira (1984, 319-428).
Capítulo 1
A ecologia da construção