3 Los refranes en Quijote
3.3 La inserción de los refranes sanchopancescos en el Quijote
O termo teoria é repleto de acepções. Sua relação com a prática, comumente, assume dimensão fragmentada: (a) ao reportar a primeira como um conjunto de elementos e conceitos que se traduzem em “manuais operativos”, em modelos que devem encaixar-se na “prática” e em um conjunto de procedimentos e normas a serem tomados como absolutos e aplicáveis na realidade; ou (b) sob o ponto de vista do senso comum, em que a apreensão teórica se torna diminuta pela centralidade da prática, “[...] destacam-se as características difusas e dispersas de um pensamento genérico de uma certa época em um certo ambiente popular” (GRAMSCI, 2004, p. 101), portanto, se torna um campo profícuo e difuso para que as ideias da classe dominante se expressem como ideologias dominantes, como um conjunto de ideias e opiniões difundidas entre as massas,23 mormente tendenciadas a cristalizar a passividade das massas populares e a “filosofia das multidões”24.
Superando tais perspectivas, Marx, embora não tenha, diretamente, uma preocupação gnosiológica, mas ontológica, apreende teoria e prática como unidade dialética, demonstrando que sua filosofia (da práxis) se engendra no processo histórico a partir da relação entre conhecimento e ação, pois toda ciência seria supérflua, se houvesse coincidência imediata entre a essência e sua forma fenomênica.
A filosofia da práxis apresenta-se como atitude crítica, de superação da maneira de pensar precedente e imediata. Antes de tudo, como crítica ao senso comum. Não se trata de introduzir algo novo, mas de inovar e tornar crítica a visão de homem e de mundo existente, elevando-a a um nível superior, onde reside a
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Para Trotski (2015, p. 30), “[...] o capital fundamental do senso comum é forjado por considerações elementares extraída da experiência humana [...]. Num ambiente social estável, o senso comum é mais do que suficiente para se praticar o comércio, cuidar dos enfermos, escrever artigos, dirigir um sindicato, votar no parlamento, fundar uma família e multiplicar-se. Mas, quando o senso comum tenta escapar de seus limites naturais e invadir o campo das generalizações mais complexas, eis que ele revela que não passa de um aglomerado de preconceitos de uma classe e de uma época determinada. A simples crise do capitalismo o desconcerta; diante de catástrofes como as revoluções, as contrarrevoluções e guerras, o senso comum demonstra sua completa imbecilidade. Para compreender as convulsões ‘catastróficas’ do curso ‘normal’ das coisas, são necessárias qualidades intelectuais mais elevadas [...]”.
consciência plena das contradições — consciência política —, não apenas as apreendendo, mas colocando-se nesse processo (contraditório), tomando consciência de si, como ser social (GRAMSCI, 2004).
Sobretudo, a teoria só existe em função da e com a realidade, já que é nela que encontra seu fundamento. Seu intuito é a reconstrução do movimento do real, em sua estrutura e dinamicidade, pela via do pensamento, para transformar idealmente suas percepções e representações e, como produto, o alcance de conhecimentos indispensáveis que subsidiem a transformação da realidade.
Trata-se de organizar o conhecimento para apropria-se da realidade em suas múltiplas determinações e materializar o resoluto da consciência, para que a transformação “ideal” penetre no real. Por isso, “[...] não vê no conhecimento um fim em si, mas, sim, uma atividade do homem vinculada às necessidades práticas às quais serve de forma mais ou menos direta, e em relação com as quais se desenvolve incessantemente” (VÁZQUEZ, 2011, p. 243).
Não se plasmando por si só, a teoria justifica sua cientificidade, quando apresenta utilidade concreta e estreita vinculação com a vida social e suas expressões histórico-sociais. Não se trata de um mero utilitarismo manifesto, mas de correspondência intrínseca, em que a atividade teórica está atrelada e se nutre dos interesses e necessidades práticas dos homens, nos quais as condições objetivas dão o tom inesgotável da reciprocidade teórico-prática.
O pressuposto da teoria no materialismo histórico e dialético é a “análise concreta de situações concretas” (LENIN, 2010), por isso, dá-se a posteriori à existência material (MARX, 2011a). Não obstante isso, intenciona a reconstrução ideal do movimento do real, ao passo que busca apropriar-se das circunstâncias da vida social que são objeto de transformação, dos meios pelos quais se pode efetivar e da finalidade, de modo a proporcionar elementos indispensáveis para se constituírem mediações à superação das condições sociais objetivas que lhes são pretéritas. “[...] trata-se de uma cientificidade que não perde jamais o vínculo com a atitude tipicamente ontológica da vida cotidiana; ao contrário, depura-o e desenvolve-o continuamente em nível crítico, elaborando conscientemente as determinações ontológicas que estão necessariamente na base de toda ciência.” (LUKÁCS, 1992, p. 99).
A teoria, tendo como ponto de partida e de chegada a realidade25, trata de
transpor o movimento do real para o pensamento, com o fito de superar sua forma fenomênica, empírica e aparente e iniciar o conhecimento na busca de uma apreensão do objeto em sua completude. O movimento de desvendamento das circunstâncias ocultas exige o abandono da mera projeção da subjetividade para, simultaneamente, ser subjetiva e objetiva, uma vez que o produto da atividade teórica só tem significado social no seio da atividade teórico-prática do homem. Por isso, “[...] a teoria emerge da prática e a ela retorna. [...] a prática, portanto, é um momento da teoria: momento primeiro e último, imediato inicial e retorno ao imediato” (LEFEBVRE, 1991, p. 235).
Teoria é a apreensão das determinações que constituem o concreto [...]; é a forma de atingir, pelo pensamento, a totalidade, é a expressão do universal, ao mesmo tempo em que culmina no singular e no universal. É pela teoria que se podem desvendar a importância e o significado da prática social, ou seja, ela é o movimento pelo qual o singular atinge o universal e deste volta- -se ao singular. (SANTOS, 2011, p. 27).
Ao abandonar conceitos praticistas e teoricistas, que remetem a um quadro explicativo dado a priori, a ênfase materialista atrela a teoria a um projeto societário
determinado e elucida que a prática humana pressupõe suporte teórico- -metodológico para embasamento de sua visão de homem e de mundo, porque é na
ação que dá materialidade ao significado social e a direção e/ou projeção expressa pelo pensamento. Baseando-se nisso, não se trata de uma prática qualquer, mas de uma ação cujo objetivo é a transformação da vida social, dos homens reais.
Por isso, como instrumento de análise do real para apreensão do movimento do ser social, teoria e sujeito não podem ser assinalados como neutros ou passivos. Pelo contrário, ao propor o desvendamento da realidade, indicam o desocultamento de possibilidades de ação no processo social e refutam relações de causa e/ou efeito, procedimentos característicos de tradição empirista e/ou positivista26.
25 Nos termos de Marx (2011a), a realidade é post-festum, anterior ao conhecimento. 26
Em O Que É Ideologia, Marilena Chauí (2004, p. 8) demonstra que “[...] o empirismo (do grego empeíría, que significa: experiência dos sentidos) considera que o real são fatos ou coisas observáveis e que o conhecimento da realidade se reduz à experiência sensorial que temos dos objetos cujas sensações se associam e formam idéias em nosso cérebro. O idealista, por sua vez, considera que o real são idéias ou representações e que o conhecimento da realidade se reduz ao exame dos dados e das operações de nossa consciência ou do intelecto como atividade produtora de idéias que dão sentido ao real e o fazem existir para nós. [...] Tanto num caso como no outro, a realidade é considerada como um puro dado imediato: um dado dos sentidos, para o empirista, ou um dado da consciência, para o idealista. Ora, o real não é um dado sensível nem um dado intelectual, mas é um processo, um movimento temporal de constituição dos seres e de suas significações, e esse processo depende fundamentalmente do modo como os homens se
A teoria é elemento indispensável para qualquer intervenção mediada, tendo em vista que, ao mesmo tempo em que suplanta o imediato e a instrumentação técnica como resultante dos conhecimentos teóricos, institui uma atividade prática à luz do método de abordagem e/ou leitura do real: o método materialista histórico e dialético.