Estamos vivendo hoje um tempo de crise da utopia. Afirmá-la novamente se constitui, para nós educadores, num ato pedagógico essencial na construção da educação do futuro. Crise é perder respostas, aquelas nas quais nos apoiávamos para viver melhor. Crise é ruptura e promessa. Por isso é também oportunidade (GADOTTI, 2007, p. 18)
Paulo Freire em todas as suas obras fez uma leitura crítica sobre crise, ideologia,
sonhos e utopia. E, para iniciar qualquer discussão que seja sobre educação, faz-se
necessário compreender a crise existente na sociedade, as ideologias que a perpetuam e
a utopia, que move a esperança e a busca por transformações.
Parte-se do pressuposto de que o Brasil, em sua história, sempre teve problemas
com a educação escolar do seu povo, seja este da cidade ou do campo (CURY, 2001).
Em sua obra Pedagogia da indignação, Paulo Freire nos coloca que: "Sem sonho
e sem utopia, sem denúncia e sem anúncio, só resta o treinamento técnico a que a educação é reduzida" (FREIRE, 2000, p. 124)
Existe uma estrutura caótica imposta às redes e sistemas de ensino pelo estado
capitalista, que acaba culpabilizando os/as educadores/as pelos fracassos da escola.
Cientes disso, é que precisamos reacender o sonho de educar para fazer frente "à
malvadez neoliberal", ao cinismo de sua ideologia e a sua recusa inflexível ao sonho
(PAULO FREIRE, 1997). Fazer frente "à malvadez do agronegócio" e suas
consequências no campo e na educação rural.
A docência é uma atividade baseada em perguntas. Por essa razão, não é uma
atividade rotineira. Cada dia é uma surpresa, cada dia o ser humano é diferente. Não se
entra duas vezes na mesma sala de aula. Educar é uma atividade fascinante de
Perguntar sobre a profissão docente é perguntar sobre a aprendizagem dos
educandos e sobre os conteúdos a eles destinados nos processos educacionais. Devemos
nos preocupar permanentemente com a aprendizagem, mas, sobretudo com os
educandos. São eles que encantam, que motivam, e que fazem do ofício educar a
boniteza da construção e reconstrução do conhecimento.
A docência não se resume em semear ensino e colher aprendizado, como se isso
fosse uma meta. Um educador que se resume a isso nada mais é que um professor
ligado no piloto automático, que já não possui afeto pela educação.
Gadotti (2007) alerta que se o educador não questiona mais e se considera uma
simples ruela da máquina educativa é porque se demitiu como pessoa, como ser
humano. Não pode mais ensinar.
Por isso, o sonho de um mundo melhor nasce nas entranhas do seu contrário,
nasce das indagações e indignações sobre as relações ideológicas (FREIRE, 2000, p.
133).
A questão do sonho possível tem a ver exatamente com a educação libertadora, não com a educação domesticadora. A questão dos sonhos possíveis, repito, tem a ver com a educação enquanto prática utópica. Mas não a utópica no sentido do irrealizável; não utópica no sentido de quem discursa sobre o impossível, sobre os sonhos impossíveis. Utópicos no sentido de que é esta uma prática que vive a unidade dialética, dinâmica, entre denúncia e o anúncio, entre a denúncia de uma sociedade injusta e expoliadora e o anúncio do sonho possível de uma sociedade que pelo menos seja menos expoliadora, do ponto de vista das grandes massas populares que estão constituindo as classes sociais dominadas (FREIRE, 1982, p. 100).
O termo ideologia se originou na França em 1801 por Tracy, com a publicação
da obra Elements d’Idéologie. Tracy pertencia a um grupo de filósofos franceses, que foi formado pelos interesses de Napoleão Bonaparte. O autor francês entendia que
inteiro, que dava uma conotação positiva ao termo, uma vez que suas premissas se
identificavam com a função integralista ou de coesão social (LAYRARGUES, 2002).
No entanto, Napoleão compreendia de outra forma o que fosse ideologia e por
vezes se indispôs com o grupo de filósofos. Ele converteu a conotação de sentido do
termo, entendendo que este se tratava de uma forma de persuasão, identificando a
ideologia como função de dominação social (LAYRARGUES, 2002).
O grupo de filósofos considerava que o termo em questão se tornaria uma
ciência. Ao contrário disso, a ideologia não se tornou uma ciência e tampouco sua
conceituação foi definida consensualmente. A complexidade e controvérsias que
movem o mundo das idéias impedem em grande parte que, até os dias de hoje, esse
termo receba uma definição universal (LAYRARGUES, 2002).
Para Layrargues (2002), a concepção negativa de ideologia predomina na
sociedade, e isso se deve à algumas obras importantes, dentre elas a de Marx. A
concepção negativa de ideologia foi usualmente referida nas obras de Marx e Engel em
1946, quando lançaram a obra A Ideologia Alemã, ao qual representava a ideologia como aspecto de “falsa consciência” promovida por classes dominantes em detrimento de outras.
Então, ideologia no pensamento Marxista é um conjunto de proposições
elaborada, na sociedade burguesa - industrial, com a finalidade de disfarçar os interesses
da classe dominante, como se fossem interesses coletivos, construindo por vias de
persuasão uma hegemonia de classe (ASSUMPÇÃO et al., 2008).
O método ideológico se dá pela utilização do discurso pautado no "não dito,
porém "sugerido". Nesse sentido, uma série de proposições, nunca falsas, sugere uma
Desta forma, a ideologia foi tomada como concepção de realidade não mais
vinculada a coletividade, mas em prol de interesses particulares de uma determinada
classe social. Assim, pode-se, segundo Löwy (1991) propor uma definição generalizada
de ideologia como: o conjunto de ideias, representações, valores e símbolos que
norteiam a coletividade para uma adequação a ordem instituída.
Quando se discute ideologia, emerge-se a necessidade de também se discutir a
utopia. Para Löwy (1991), utopia é o conjunto de idéias, representações, valores e
símbolos de uma parte da coletividade que almeja outra realidade, ainda inexistente. Por
isso é associada aos sonhos. A utopia é tida como crítica, pois, nega a ordem social
instituída, sendo considerada em geral como subversiva, contestadora e orientada para
fins de ruptura social.
Para Pierre Furter (1972), a utopia não foge da história e da realidade para uma
"ilha fechada", mas toma distância em relação à história, de modo a refletir
dialeticamente sobre ela. E, em seguida agir e transformar a realidade. A educação
como um instrumento eficaz de transformação é essencialmente utópica (FREIRE,
1997).
A ideologia tem a pretensão de alcançar a autenticidade e a legitimidade de um
grupo social, por isso, em discursos ideológicos são usados recursos de artimanha para
se chegar a fatos discursivos de veracidade, não necessariamente verdadeiros, mas, para
se alcançar audiência e seguidores crentes, com a clara intenção de persuadir e dominar
(LAYRARGUES, 2002).
Apesar de a ideologia ter duas facetas, no que diz respeito: a dominação social e
a coesão social verifica-se que a primeira sobressai em detrimento da segunda, pois, os
coletividade, uma vez que os detentores dos meios de produção possuem mais forças
dominantes e por isso mais fontes de ideologia. Contudo, não se pode esquecer que
nada impede substancialmente que a segunda venha a se sobressair, através da utopia,
da tomada de consciência, do repensar e do agir das outras classes sociais em busca da
coesão social.
Os autores Marcuse (1967) e Layrargues (2002) revelam, que há uma
intencionalidade e tendência da dominação, em empobrecer as diversidades de
pensamentos, através de métodos preventivos para evitar o surgimento de movimentos
contestatórios, pois, estes significam uma ameaça que pode levar a desestruturação da
ordem social instituída.
O êxito da dominação só é atingido às custas de um tremendo esforço de sedução discursiva, forjando uma identidade falsa, mais credível; deturpada, mas coerente; absurda, mas eficaz. Uma ordem social injusta numa sociedade claramente desigual é perpetuada justamente porque a ideologia lança mão do artifício da dominação (LAYRARGUES , 2002, p. 171)
Em sociedades com acentuadas desigualdades sociais, a função particular da
dominação se dá em, minar processos subversivos oriundos dos movimentos sociais, na
medida em que desloca os conflitos para o terreno da neutralidade, sem pôr em questão
a hegemonia e as diferenças sociais resultantes. Procuram a qualquer preço negar o
conflito, a violência, em discursos sedutores e condutores de massa.
De forma mais ampla, a percepção de exploração, de opressão e de
desigualdade, nem sempre está presente na consciência dos sujeitos, porque as
ideologias se constituem em idéias camufladas ou dão outra "roupagem" à realidade e
aos fatos.
Diante do exposto, é possível perceber, como são fundamentais os processos
educação norteia uma profunda experiência do ato de assumir-se dos indivíduos.
Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador,
criador e realizador de sonhos (FREIRE, 1997).