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7.1 Input data

O caminho pelo jardim de florzinhas rosas pequenininhas que atraíam abelhas, o acolhimento diário na porta da escola pelo porteiro X e em seguida pelo casal diretor da escola, o suquinho de frutas vendido nas garrafinhas de vidro higienizadas e reutilizadas de leite de coco, o uniforme de tecido, short-saia azul-marinho e camisa azul clarinho com imagem de uma santa no escudo do bolso. Enfim...saudades desse tempo (Professora A- memória educativa).

Me achava lindinha vestida de saia vermelha curtinha, blusa branca posta por dentro da saia, meia branca e tênis conguinha; levava uma merendeira vermelha com alças brancas (nela havia uma garrafinha azul com tampa branca). Minha bisa me levava, creio que era a fase do Jardim de Infância. Lembro-me bem do período da 1ª à 4ª série (professora B- memória educativa).

Perpassando pelo referencial teórico percebemos a importância do infantil, em que Freud atribui às experiências infantis valor determinante e fundante no psiquismo e na constituição da subjetividade.

Em “Lembranças Encobridoras”, Freud (1901/1904) critica a ausência ou pouca relevância atribuída às lembranças dos primeiros anos de vida, assegurando que as marcas do infantil estão na base da formação do sujeito. Nesse contexto, buscamos na categoria a importância que os laços inscritos marcam e são essenciais na constituição subjetiva do professor.

79 Do ponto de vista freudiano, as lembranças da primeira infância podem ser explicadas a partir das próprias recordações, com as quais conta a própria história. As recordações não podem ser desprezadas, uma vez que o que a memória preserva é o elemento mais significativo em todo o período da vida. Estas recordações cheias de significados podem ser encontradas em excertos de memória.

Lembro da minha formatura do jardim de infância, minha irmã que me acompanhou, segurando o diploma na escadaria da futura escola em que iria estudar, pois ficavam juntas. Algo que me chama a atenção é a ausência de memórias sobre o cotidiano de aprendizagem. Sinto que vivia fora da casinha! Vivia preocupada com as histórias de minha casa (professora G- memória educativa).

Em se tratando de memória entendida como “resíduo das experiências estruturantes da primeira infância” (Rudge,1999), Freud utiliza duas abordagens diferentes. A primeira abordagem, de inspiração neurofisiológica, apresenta os traços mnêmicos, que se refere tanto a registro psíquico quanto a registro neurológico. Na esfera do psíquico, “ele é traço de impressão e não de sensação ou de estímulo”. Na ordem neurológica ,“ele depende da resistência oferecida pelas barreiras de contato entre os neurônios” (Garcia-Rosa, 2002).

Na entrevista, podemos confrontar algumas situações.

Eu não era feliz na escola, não tinha amigos, me isolava e me sentia sozinha. Talvez por ser tímida e reservada. Era como se uma câmera estivesse me filmando o tempo inteiro, medo de decepcionar e de confiar nas pessoas. Vivia com a testa franzida...e ao mesmo tempo achava que tinha que me comportar e ser uma menininha educada ao extremo. Percebo que até hoje me cobro e sou muito sozinha, não gosto muito de gente. Acho que foram as vivências que tive na infância, a minha criação, elas me constituíram e continuam em mim como marca da minha personalidade (professora B- entrevista).

No entanto, Ferretti (2004) afirma que se trata de reformulações, reedições, retomada de acontecimentos ocorridos na infância. Essa é concepção importante trazida pela psicanálise às concepções sobre o tempo, sobre a memória, sobre o sentido dos acontecimentos. A temporalidade retroativa pressupõe temporalidade lógica, não cronológica: o passado é revisitado não porque se volta cronologicamente a ele, mas porque há uma reformulação ou ratificação dele (p.95).

80 A constituição do infantil é marcada na escrita das memórias e nas falas dos sujeitos que comparecem e se inscrevem - laços cheios de significados que repercutem o ser professor. Parafraseando Gaulejac, “somos história de outras histórias”. E a psicanálise é norteadora sobre a constituição do sujeito na relação com o Outro.

Hannah Arendt no livro “A condição humana” de 1958, aponta que não somos autores de nossa vida, história. O indivíduo não é seu próprio criador. Ele é condicionado por um conjunto de elementos que contribuem para sua fabricação e sua subjugação. Desse modo, a psicanálise mostra que somos resultado e expressão de nossa história de vida. Não somos autores nem senhores de nossa história, mas efeitos dela (CHAUÍ, 2000).

Um momento na realização do sociopsicodrama repercutiu em falas dos relatos das memórias educativas. Uma chamou a atenção: “Engraçado que essa história de escola me lembra pessoas [...] a memória que eu tenho dessa escola é afetiva gigantesca! ”. Ressalta que as memórias educativas remetem muito mais à pessoas e sentimentos do que ao conteúdo ministrado em sala de aula. Outro depoimento em que outra professora diz: “Eu lembro das minhas professoras com muito carinho” reforça a ideia anterior.

Em um dos momentos do sociopsicodrama, foi pedido que voltem a mão direita ao “coração” para buscar o afeto, o sentimento que a memória evocada traz, e nomear o que traduz aquela memória, como título. Os títulos foram: desconfiança, saudade, felicidade, nostalgia, sinceridade, indignação, incompletude, segurança, tristeza, prazer e madrinhagem (até palavras foram criadas). Ao falar o nome do afeto, elas iam se distribuindo no espaço da roda formada por todas de pé. Em seguida sem sair do lugar, “tocavam os afetos” mais próximos. O professor Paulo comenta que “essas são as nossas conexões inconscientes, eu diria mais, até estão descobrindo isso, até neurais elas estão com esse tipo de relação”. Em seguida, sugere que façam uma pose, imitando estátuas, em relação aos sentimentos que se conectaram. Voltando à posição inicial de roda formada ombro a ombro, pede que falem uma palavra sobre a vivência

81 do dia. Surgem as palavras fé, satisfação, diferente, prazer, saudade, amor, resiliência, compreensão, delicadeza, liberdade.

De acordo com Blanchard- Laville (2005, p.18), a psicanálise não é senão um ponto de vista, mas aquele que ela escolhe por lhe parecer o mais fecundo e o mais acertado; afirma ainda que o que descobre nos outros é também sua própria realidade, bem como a de todos nós. Não são “casos” que são estudados, são momentos de vida, sempre em situação pedagógica, mas singularmente pessoais.

Minha entrada na escola foi aos dois anos na creche, como cresci numa cidade de interior era o único meio de socialização. Não me lembro muito dessa época, apenas da minha mochila que eu realmente adorava (professora D- memória educativa). Minha trajetória se iniciou no jardim. Naquela época tinha apenas três anos de idade e, conforme relatos da minha mãe, ingressava animada para conhecer novas crianças e, sobretudo, brincar (professora F-memória educativa).

Os excertos da memória da professora mostram o quanto a escola tem significado e importância na de criação de laços de que nos constituímos contemplando um infantil que recorrentemente comparece.

Minha alfabetizadora era paciente, tinha os cabelos anelados, era meio gordinha. A da terceira série era meiga, cabelo de laquê, baixinha, miúda e super carinhosa. A da quarta série era meio de mal com a vida. Sempre de mau humor e dando uns foras nos meninos...meus professores sempre foram meus exemplos, recebi aula de formação humana: ser é melhor e mais importante do que ter. E essa filosofia eu carrego comigo... minha querida professora nos ensinou muito de português, mas nos ensinou a ser feliz! (professora H- memória educativa).

Lajonquière (2010) ressalta a importância do desejo de aprender. “Reconheçamos à criança esse desejo...e qualquer método lhe será bom”. A educação de uma criança é causada pelo desejo impossível de ser reabsorvido simbolicamente.

De qualquer modo, há um outro efeito da linguagem, que é a escrita (Lacan, 1985, p.63). Nesse sentido, o sujeito encontra na escrita um meio propício e adequado para expurgar a dor e conservar as alegrias, como sustenta Barros (2007). Interessante pensar na apropriação de

82 uma história e fatos acontecidos advindo de laços constituídos do Outro, em que o sujeito da enunciação, do inconsciente, comparece, produzindo efeitos para além do ser.

Almeida (2002) afirma que o professor passou muito tempo em contato com seus professores enquanto aluno, assim como com os colegas, conteúdos e rituais específicos que moldaram o seu processo de ensino-aprendizagem e a sua singularidade como docente. O resgate dessa memória educativa promove reflexão da identidade, possibilitando um autoconhecimento de maneira que também se torna possível uma ressignificação e reestruturação da própria história individual e das relações sociais que fazem parte do cotidiano do sujeito.