6. Forslag til løysingar
6.4. Inntaksrist
O presente estudo está fundamentado na intervenção que propõe a vivência das
danças em encontros pautados na afirmação das diferenças e na valorização da
diversidade, propondo uma aproximação entre as práticas de danças presentes nas
culturas populares e as relações com as diversas maneiras de ser e estar ao mundo. Nas
primeiras reflexões acerca dos processos educativos gerados nesses encontros,
compreendi inicialmente que os encontros poderiam ser uma prática social uma vez que,
de acordo com Oliveira e col. (2014, p.33), tinham ―o propósito de produzir bens,
transmitir valores, significados, ensinar a viver e a controlar o viver, enfim, manter a
sobrevivência material e simbólica das sociedades humanas‖.
No entanto, o amadurecimento da reflexão sobre a prática investigada e os
estudos sobre as cosmovisões indígenas e africanas, ocorrido durante o curso do
doutorado, possibilitou-me compreender a própria dança como a prática social
investigada, na perspectiva da dança, enredada em suas raízes indígenas e africanas,
como parte do mundo vivido, em conexão com o todo.
A partir das perspectivas indígenas e africanas, a dança pode ser compreendida
em sua relação com a totalidade do mundo e não apenas como uma habilidade técnica a
ser adquirida. O princípio implícito nas danças de matrizes indígenas e africanas, às
quais me refiro neste trabalho, é o de viver no corpo e pelo corpo as relações com o
cosmos, as relações de pertença a uma comunidade ou grupo e, por conseguinte,
promover a afirmação e garantir a existência de suas culturas.
Neste trabalho, a dança é a prática social que permitiu a interação entre as
pessoas envolvidas e uma das possibilidades de significação do mundo à nossa volta,
representada pelos momentos que compartimos conhecimentos e a construção conjunta
da práxis pedagógica. Na perspectiva da totalidade proposta pela dança, as reflexões
acerca da valorização das culturas populares, os diálogos sobre desigualdades sociais, as
ações para superação de preconceitos raciais, de gênero ou de classe, as relações de
respeito com a natureza, o diálogo acerca de conhecimentos e valores sobre saúde,
alimentação e consumismo são componentes dessa dança tanto quanto os sons e os
movimentos.
Dessa forma, além da possibilidade de ressignificação e manutenção das
tradições de grupos e comunidades, as danças propostas carregam em sua história a
possibilidade de constituir um espaço de comunhão e de convívio que proporciona às
pessoas que exponham, cada uma à sua maneira, seus modos de ser, pensar e agir no
mundo e compartilhem suas percepções e ações diante das mais diversas situações da
vida, ensinando e aprendendo, compreendendo e questionando a realidade em que estão
inseridas.
No contexto brasileiro, as danças das culturas populares também se constituem
como espaços de resistência nas comunidades de origem, tanto pela afirmação das
identidades como pela possibilidade de denúncia de realidades opressoras. Atualmente
um importante papel social das comunidades de onde emergem as culturas populares no
Brasil está baseado na possibilidade de articulação de grupos, fortalecimento da luta por
direitos sociais e disseminação de informações entre as pessoas e grupos, favorecendo o
processo de dar-se conta dos mecanismos de opressão que o sistema social lhes impõe.
A linha de pesquisa Práticas Sociais e Processos Educativos em que este estudo
se apoia favorece a caracterização da dança como uma prática social, uma vez que:
As práticas sociais se estendem em espaço/tempo construído por aqueles que delas participam seja compulsoriamente, seja por escolha política ou de outras naturezas. Sua duração – permanência, desaparecimento, transformação – depende dos atores que as constroem, desenvolvem, mantêm, ou suprimem; bem como dos objetivos que com elas se quer atingir e do momento histórico. Os atores são participantes das relações sociais, étnico-raciais, étnicas, culturais, políticas e históricas, o que permite que se apropriem dos valores e comportamentos de seu tempo e lugar, lutando pela sua existência. Não são, portanto, essas pessoas, meros receptáculos das situações que ocorrem na sociedade na qual vivem (OLIVEIRA e col., 2014, p. 34).
A dança como prática social, em constante diálogo com suas raízes indígenas e
africanas, é também a manifestação do registro da história de pessoas, comunidades,
povos e nações e de suas maneiras de ver o mundo, que transcendem o ato de dançar, a
partir de seus simbolismos. As redes simbólicas que marcam essa transcendência são
compostas, entre outras situações, pela importância do uso de uma saia rodada e
colorida, pela disposição das pessoas em roda, pelo pé descalço em contato com o chão,
pela transmissão oral dos conhecimentos ‒ que não existem aleatoriamente, mas sim
engendradas em um determinado contexto histórico e social e a partir de uma
determinada concepção de mundo.
O uso frequente de saias floridas de tecido de chita em algumas danças das
culturas populares, por exemplo, remete à história da popularização desse tecido que
chega ao Brasil por volta do ano de 1800 pelas mãos dos europeus e que teve no século
XVIII sua comercialização proibida pela Inglaterra, potência econômica e de grande
expansão da indústria têxtil no período. A partir dessa conjuntura de desvalorização no
mercado europeu, a chita se populariza no Brasil e começa e ser fabricada no país na
década de 1930 com um custo muito baixo, passando a identificar as vestimentas das
pessoas que realizam os serviços braçais, moram nas zonas rurais e periferias urbanas e,
assim, apresentam presença constante nas festas das culturas populares (MELLÃO;
IMBROSI; KUBRUSLY, 2005).
Os pés descalços, em contato direto com o chão, também são muito comuns nas
danças brasileiras e podem fazer alusão tanto às condições de pobreza das classes
populares, já que algumas pessoas não tinham dinheiro para adquirir ou gastar os
sapatos nas festas populares, quanto podem aludir ao contexto da relação com a
natureza presente nas culturas indígenas e africanas, nas quais a terra é considerada um
elemento sagrado de geração da vida e em permanente conexão com os seres vivos,
indissociável destes e da própria vida.
Muitos outros exemplos dos significados presentes nas danças podem ser
observados na vivência junto aos grupos de culturas populares e também no registro
realizado em alguns trabalhos acadêmicos como o de Silva (2011), que discorre sobre os
processos educativos presentes na vivência do grupo de congadeiras
11e congadeiros
Marinheiro de São Benedito, da cidade de Uberlândia, Minas Gerais. Em variadas
situações, Silva (2011) aponta elementos que, na vivência das danças, contam histórias
e, contando-as, colocam em evidência os caminhos para construção de identidades,
individual e coletiva. Tais caminhos permitem que conheçamos os diversos tipos de
relações sociais, de valores e conhecimentos que foram, dentro da pluralidade de
culturas, constituindo a identidade nacional.
Enquanto prática social, a dança é um espaço onde estão presentes as memórias
de gerações de pessoas, que, nesse contexto plural, também descrevem as histórias de
suas subjetividades construídas com os outros ao mundo, portanto intersubjetividades.
Constituindo uma forma de apreender sobre a vida, sobre o outro, sobre nós mesmo e
sobre a memória dos nossos antepassados, as danças podem ser consideradas lugares de
memória que nos contam sobre nossas origens sendo mais que a representação de fatos
históricos. São a expressão dos modos de ser e estar ao mundo de um grupo ou
comunidade.
O conceito de lugares de memória é colocado em evidência na década de 1980 e,
de acordo com Nora (1993, p.8), sua existência se justifica pelo contexto histórico da
modernidade que promove uma ruptura com o passado, gerada pelos fenômenos que
11 A congada de Uberlândia-MG é uma manifestação da cultura popular que acontece há mais de cem
anos, consistindo em uma festa em louvor aos chamados ―santos dos pretos‖: Nossa Senhora do Rosário e São Benedito (SILVA, 2011).
chama de mundialização, massificação e midiatização. Nesse sentido, o advento da
modernidade, que coincide com o apogeu da industrialização, dita novas formas de ler o
mundo e conseguintemente de se relacionar com a própria história.
A curiosidade pelos lugares onde a memória se cristaliza e se refugia está ligada a este momento particular da nossa história. Momento de articulação onde a consciência da ruptura com o passado se confunde com o sentimento de uma memória esfacelada, mas onde o esfacelamento desperta ainda memória suficiente para que se possa colocar o problema de sua encarnação. O sentimento de continuidade torna-se residual aos locais. Há locais de memória porque não há mais meios de memória (NORA, 1993, p.7).
Para Nora (1993), os lugares de memória são registros do passado ou unidades
significativas, de caráter material ou imaterial, nas quais estão inseridos elementos
simbólicos da memória de uma comunidade. Existem porque fazem parte de uma
história que a história oficial não contempla e porque tais lembranças ou a memória que
as constitui carece de cuidado para não ser esquecida, pois não pertence aos espaços
privilegiados de uma história dominante (como os museus e os livros escolares de
história). Segundo Nora (1993, p.13), os lugares de memória são ainda:
[...] os rituais de uma sociedade sem ritual; sacralizações passageiras numa sociedade que dessacraliza; fidelidades particulares de uma sociedade que aplaina os particularismos; diferenciações efetivas numa sociedade que nivela por princípios; sinais de reconhecimento e de pertencimento de grupo numa sociedade que só tende a reconhecer indivíduos em iguais e idênticos.
No contexto das culturas populares, a compreensão das danças como lugares de
memória postula um cuidado com a lembrança das raízes históricas e dos saberes que
nelas se encontram. Mas também solicita e permite a leitura de um tempo presente uma
vez que, tal como a cultura, a memória é dinâmica, ―é um fenômeno sempre atual, um
elo vivido no eterno presente‖, enquanto a história limita-se a um registro do passado
(NORA, 1993, p.9).
A memória é a vida, sempre carregada por grupos vivos e, nesse sentido, ela está em permanente evolução, aberta à dialética da lembrança e do esquecimento, inconsciente de suas deformações sucessivas, vulneráveis a todos os usos e manipulações, susceptíveis de longa latência e de repentinas revitalizações. [...] Porque é efetiva e mágica, a memória não se acomoda a detalhes que a confortam; ela se alimenta de lembranças vagas, telescópicas, globais ou flutuantes, particulares ou simbólicas, sensível a todas as transferências, cenas, censuras ou projeções. [...] A memória emerge de um grupo que ela une. [...] A memória se enraíza no concreto, no espaço, no gesto, na imagem, no objeto (NORA, 1993, p.9).