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Uma decisiva contribuição para a catequese foi a reflexão, iniciada por ocasião da Assembléia Geral do Sínodo dos Bispos sobre a evangelização do mundo contemporâneo, que se celebrou em outubro de 1974. As proposições de tal encontro foram apresentadas ao papa Paulo VI, o qual promulgou a Exortação Apostólica pós-sinodal Evangelii Nuntiandi, de 8 de dezembro de 1975. Este documento apresenta — entre outras coisas — um princípio de particular relevo: a catequese como ação evangelizadora no âmbito da grande missão da Igreja. A atividade catequética, de agora em diante, deverá ser considerada como permanentemente partícipe das urgências e das ânsias próprias do mandato missionário para o nosso tempo.284

Também a última Assembleia Sinodal convocada por Paulo VI, em outubro de 1977, escolheu a catequese como tema de análise e de reflexão episcopal. Este Sínodo viu na renovação catequética um dom precioso do Espírito Santo à Igreja nos dias de hoje.

João Paulo II assumiu esta herança em 1978 e formulou as suas primeiras orientações na Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, datada de 16 de outubro de 1979. Tal Exortação forma uma unidade totalmente coerente com a Exortação Evangelii Nuntiandi e repõe plenamente a catequese no quadro da evangelização. A catequese tem sido uma permanente preocupação da Igreja desde seus primórdios.285 Para Eugênio Sales, o assunto certamente será abordado com novas nuances no próximo sínodo dos bispos convocado pelo Santo Padre Bento XVI, para outubro de 2012.286

O número 5 de Catechesi Tradendae traz uma palavra do magistério sobre a identidade do fazer catequético. ―A finalidade definitiva da catequese é a de fazer que alguém se ponha, não apenas em contato, mas em comunhão, em intimidade com Jesus Cristo: somente Ele pode levar ao amor do Pai no Espírito e fazer-nos participar na vida da Santíssima Trindade‖.287 Para que isso aconteça a contento a Igreja pode utilizar-se de vários

métodos. As ocasiões para a catequese são as mais diversas. Ao falar das missões também como terreno privilegiado para a catequese ser posta em prática, chama-se a atenção para os passados quase dois mil anos em que o povo de Deus nunca cessou de ser educado na fé,

284 Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório Geral para a Catequese. São Paulo: Paulinas, 1998, n.

4.

285 Cf. CONGREGAÇÃO PARA O CLERO. Diretório Geral para a Catequese, n. 5.

286 Cf. SALES, E. http://amaivos.uol.com.br/amaivos09/noticia/noticia.asp?cod_noticia=17504&cod_canal=84

Acesso em 16-10-2012 / 16h34.

287 JOAO PAULO II. A catequese hoje: exortação apostólica Catechesi Tradendae ao episcopado, ao clero e aos

segundo formas adaptadas às diversas condições dos fiéis e às múltiplas conjunturas eclesiais.288

Levando em consideração o foco de leitura, apontamos para a importante constatação de que a catequese solidariza-se com a situação humana, pessoal e comunitariamente, procurando comunicar-se de maneira fecunda com todas as realidades. ―A catequese, para a Igreja, foi sempre um dever sagrado e um direito imprescritível‖.289

Por um lado, é patente tratar-se de um dever, originado numa ordem do Senhor e que incumbe sobretudo àqueles que, na Nova Aliança, recebem o chamamento para o ministério de Pastores. Por outro lado, pode-se falar igualmente de um direito: do ponto de vista teológico, todos os batizados, pelo próprio fato do seu Batismo, têm direito a receber da Igreja um ensino e uma formação que lhes permita levar verdadeira vida cristã; na perspectiva dos direitos do homem, toda a pessoa humana tem direito a procurar a verdade religiosa e a ela aderir livremente, isto é, sem qualquer coação, quer da parte de indivíduos, de grupos sociais ou de qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém pode ser forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma consciência.290

Um dever sagrado para a Igreja e um direito imprescritível para o fiel. Vale a pena marcar esta afirmação, sob a ótica desta dissertação, estendendo a universalidade dessa mensagem até a pessoa com deficiência. Confirma-se, assim, a predileção de Jesus e na sua esteira, a da Igreja, pelos mais pobres e pequenos, também pelo apreço da catequese por estes. Na medida em que a ação catequética se organiza na perspectiva das minorias, dos pobres, pessoas com deficiência, excluídos de maneira geral, mais ela se assemelha, em método e conteúdo, com a proposta do reino anunciado por Jesus.291

A partir do número 35, Catechesi Tradendae trabalha a ideia de que todos precisam ser catequizados. Muitas observações poderiam ser feitas quanto às características que tem de assumir a catequese nos diversos períodos da vida. A primeira infância, as crianças, os adolescentes, os jovens. Para estes últimos, fala-se sobremaneira de uma adaptação da catequese à sua fase especial de vida. ―Há, no entanto, algumas categorias de jovens destinatários da catequese que, em virtude da sua particular situação, exigem atenção especial‖.292 Entre estas categorias, está o jovem com deficiência. Expande-se aqui, a referida

orientação, para a pessoa com deficiência em geral.

288 Cf. João Paulo II. Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, n. 13. 289 Ibidem, n. 14.

290 Ibidem, n. 14.

291 ―Como criar uma cultura de integração para que as pessoas com deficiência possam ser acolhidas

devidamente no meio de nós?‖ Texto-base, CF-2006, n. 243.

Trata-se, antes de mais, das crianças e dos jovens deficientes físicos ou mentais. Têm direito, como quaisquer outros da sua idade, a conhecer o ―mistério da fé‖. As dificuldades que eles encontram, por serem maiores, tornam também mais meritórios os seus esforços e os dos seus educadores. É motivo de regozijo verificar que organismos católicos, que se dedicam especialmente aos jovens deficientes, quiseram trazer ao Sínodo a contribuição da sua experiência neste campo e ao Sínodo vieram buscar um desejo renovado para melhor enfrentarem este importante problema. Tais organismos merecem ser vivamente encorajados nesta sua preocupação de procura.293

A palavra da Exortação Apostólica diretamente dirigida ao irmão deficiente e seu processo catequético restringe-se praticamente a esta citada acima. Alguns pontos merecem destaque: o direito de todos de conhecer o mistério da fé; maiores dificuldades que implica em maior mérito de catequizandos e catequistas no âmbito da deficiência; alegria pelos organismos católicos que se dedicam às pessoas com deficiência; importante problema; encorajamento aos que militam nesta causa que é vista como uma procura de luz sobre a questão.

A entrada da temática, embora um tanto tímida, em um documento de tamanha envergadura, revela-se de extremo significado para o desenvolvimento deste discurso a nível mundial, atingindo de forma profunda o fazer catequético da Igreja no Brasil. Depois de 1979, praticamente todos os documentos da Igreja dispensarão atenção ao envolvimento da pessoa com deficiência nos processos de transmissão da fé, uma vez que, como recordam os Padres Sinodais, ―tem que se repetir, uma vez mais: ninguém na Igreja de Jesus Cristo deveria sentir- se dispensado de receber catequese‖.294

Uma vez que ninguém deve sentir-se dispensado de receber catequese, coloca-se a pergunta pelo como dar a catequese a fim de que seja acessível a todos os fiéis, nas suas mais diversas condições. ―A variedade de métodos é um sinal de vida e uma riqueza. [...] atenção para as condições indispensáveis a que tal variedade seja útil e não prejudicial à unidade do ensino da única fé‖.295

Contudo, por ocasião da IV Assembleia Geral do Sínodo, vozes muito autorizadas se fizeram ouvir em favor de um reequilíbrio criterioso na catequese entre reflexão e espontaneidade, diálogo e silêncio, trabalhos escritos e de memória. De resto, há algumas culturas que continuam a dar grande importância à memorização. [...] A pluralidade de métodos na catequese contemporânea pode ser sinal de vitalidade e de talento inventivo. Em qualquer hipótese, importa que o método escolhido se atenha acima de tudo a uma lei fundamental para toda a vida da Igreja: a lei da fidelidade a Deus e da fidelidade ao homem, numa única atitude de amor.296

293 João Paulo II. Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, n. 41. 294 Ibidem, n. 45.

295 Ibidem, n. 51. 296 Ibidem, n. 55.

Para que todos recebam catequese há de fato necessidade de uma pluralidade de métodos, uma vez que são todos diferentes e assimilam por diferentes caminhos a boa nova da salvação. Mas todos podem compreender a mensagem, porque no profundo do ser todos são iguais. Cada um foi feito a partir da rica criatividade do amor de Deus. Sendo fiéis a este amor percebe-se o ponto de encontro de todo ser humano com Deus e entre si. Forte a palavra de

Catechesi Tradendae: numa única atitude de amor. Encontrar formas de transmitir a fé nas

diversas condições e situações do homem faz-se manifestação desta atitude fundante: o amor. ―Nenhuma técnica será válida na catequese senão na medida em que for posta ao serviço da fé a transmitir e a educar; caso contrário, não terá valor‖.297

Ao falar do problema da linguagem nos dias atuais, o documento afirma a necessidade de adaptar-se a linguagem ao serviço do Credo. Entre os destinatários de uma linguagem adaptada aparecem as pessoas com deficiência. ―Linguagem para os estudantes, para os intelectuais e para os homens de ciência; linguagem para os analfabetos e para as pessoas de cultura elementar; linguagem para os deficientes, etc‖.298 Este é o segundo e

último momento da Exortação dirigido diretamente à preocupação da transmissão da fé junto à pessoa com deficiência. Para os Padres Sinodais, no que tange à linguagem e seus avanços científicos,

A lei suprema deve ser esta: os grandes progressos da ciência da linguagem só podem ser postos ao serviço da catequese, a fim de que esta esteja em condições de ―dizer‖ e ―comunicar‖ verdadeiramente às crianças, aos adolescentes, aos jovens e aos adultos de hoje todo o conteúdo doutrinal de sempre, sem deformações.299

A preocupação da Igreja é muito séria quanto à integridade do conteúdo. Ousamos afirmar que revestido das mais diversas formas, o fundamento da catequese é o amor de Jesus vivido na sua intimidade com o Pai no Espírito e para com os irmãos. Isso é o que todos precisam, de alguma forma, assimilar e viver. A partir do contato com esta graça todo o formato de vida pessoal e comunitária será transformado. ―O fato de acreditar e o fato de agir retamente são coisas muito nossas, em razão da escolha livre da nossa vontade; e, no entanto, uma e outra coisa são um dom, proveniente do Espírito de fé e de caridade‖.300

Concluímos a leitura de Catechesi Tradendae destacando que ―a catequese, que é crescimento na fé e amadurecimento da vida cristã em ordem à sua plenitude é, por

297 João Paulo II. Exortação Apostólica Catechesi Tradendae, n. 58. 298 Ibidem, n. 59.

299 Ibidem, n. 59.

consequência, obra do Espírito Santo, obra que só Ele pode suscitar e manter na Igreja‖.301 A

Igreja no Brasil está aberta à orientação do Espírito Santo quanto à inclusão dos irmãos com deficiência nos processos catequéticos de transmissão da fé? Tal indagação servirá de pano de fundo para a reflexão nos itens seguintes, ao acompanhar a movimentação de catequistas, catequetas, bispos e teólogos brasileiros na construção de uma catequese onde todas as pessoas possam ter acesso. Isso aparece de maneira clara nos documentos, nas reuniões e nos seminários realizados Brasil a fora nos mais variados níveis da organização catequética. Este estudo destacará sobremaneira, após a leitura de outros documentos pastorais-catequéticos, os Seminários de alcance nacional.