Inicialmente optamos por realizar uma análise prévia dos treze portfólios, buscando destacar palavras, padrões de comportamento e acontecimentos presentes nos portfólios de modo a desenvolver um sistema de codificação através da elaboração de categorias, como apontam os estudos de Bogdan e Biklen (1994), visando à classificação dos dados obtidos.
Neste aspecto, Fiorentini e Lorenzato (2006) afirmam que categorizar é o processo de classificar ou organizar informações em categorias – classes ou conjuntos – que contenham elementos ou características em comum. Tal processo, de acordo com os autores, deve obedecer alguns princípios: o conjunto de categorias deve estar relacionado a uma ideia central, abrangendo todas as categorias; é desejável que as categorias sejam disjuntas, isto é, mutuamente exclusivas; as categorias devem abranger todas as informações obtidas.
Ainda segundo estes mesmos autores, Fiorentini e Lorenzato (2006), as categorias podem ser definidas a priori (categorias previamente estabelecidas), podem ser emergentes (obtidas diretamente do material de campo através de um processo interpretativo), ou podem ainda ser mistas (obtidas de um confronto entre o que se encontra nos registros de campo e o que diz a literatura).
No caso desta pesquisa, o processo de categorização foi misto, isto é, a partir de um processo interpretativo, buscamos, no desenvolvimento da análise, elos que pudessem existir entre os dados e a literatura estudada anteriormente. Para isto, Fiorentini e Lorenzato (2006) sugerem a elaboração de um quadro, cuja primeira coluna destina-se à transcrição dos dados, a segunda coluna às anotações, observações, interpretações e conexões com a literatura, e a terceira coluna à construção das categorias.
Desta forma, no processo de análise prévia do material, elaboramos quadros semelhantes ao proposto por Fiorentini e Lorenzato (2006), como exemplificado no Quadro 11. Optamos por dividir a segunda coluna proposta pelos autores em duas colunas distintas, uma dedicada apenas às observações da pesquisadora e outra destinada aos teóricos relacionados.
Quadro 11 – Modelo quadro de análise
Local Trecho selecionado Observações Teóricos Categorias
P9 (p. 42)
Essa sala é uma sala bem agitada e os alunos querem falar o tempo todo e falam muito alto, então às vezes temos que tentar falar mais
alto que eles para conseguir controlar a sala. Disciplina / Indisciplina; Gestão de sala de aula Veenman; Serrazina e Oliveira Disciplina; Gestão de sala de aula Fonte: Autoria própria.
No processo de elaboração dos quadros de análise, a partir da pré-análise dos treze portfólios, foram observadas as escritas dos participantes e relacionadas aos teóricos estudados de forma que emergiram, do confronto dos dados com a teoria, as seguintes categorias do trabalho docente, as quais foram agrupadas em quatro eixos de análise, expostas no Quadro 12 a seguir.
Quadro 12 – Categorias de análise
De caráter pessoal Relacionadas à sala de aula Relacionadas aos alunos Relacionadas à escola e/ou à educação Reflexão Gestão de sala de
aula
Aprendizagem dos
alunos Organização escolar Desenvolver repertório docente Explicitação de regras e procedimentos Avaliação da aprendizagem Relações autoritárias, burocráticas e hierárquicas Formação contínua Contextualização Motivação dos alunos Falta de recursos
Conhecimentos pedagógicos
Uso de materiais e
tecnologias52 Disciplina Intenção da educação Conhecimentos de
conteúdo Adversidades
Autonomia dos alunos
Experiência necessidades Alunos com
especiais Múltiplas tarefas Competência Conhecer os estudantes e o contexto escolar Planejamento, Adaptação e Improvisação Socialização Planejamento de adversidades Trabalho mental e fisicamente esgotador
Fonte: Autoria própria.
Ainda a partir da elaboração dos quadros de análise, pudemos notar que alguns portfólios nos davam mais subsídios para a análise do que outros, pois enquanto alguns sujeitos traziam apenas descrições em seus portfólios, outros indicavam, além das descrições, suas reflexões. Assim, selecionamos três participantes para a pesquisa: Alex, Hermione e Yago. Apresentamos, no Quadro 13, a seleção final dos instrumentos desta pesquisa.
52 Jogos, materiais concretos para realização de experiências, materiais didáticos (régua, transferidor, esquadro,
Quadro 13 – Instrumentos da pesquisa
Documento Autor Período de referência
P1 Alex 2º semestre de 2011 P7 Hermione 1º semestre de 2012 P8 Hermione 2º semestre de 2012 P9 Hermione 1º semestre de 2013 P12 Yago 1º semestre de 2012 P13 Yago 2º semestre de 2012
Fonte: Autoria própria.
De acordo com Fiorentini e Lorenzato (2006), após a definição das categorias, prossegue-se o processo de análise, cujo percurso pode se dar de forma vertical ou transversal, isto é,
No processo de análise vertical, cada uma das categorias é analisada separadamente. Somente após o término da análise de cada categoria é que se realiza um confronto entre elas, tentado produzir resultados e conclusões consistentes e relacionadas à questão de investigação. No processo de
análise transversal, todas as categorias são consideradas simultaneamente
quando se está analisando uma situação ou um discurso. A análise transversal é mais apropriada quando as categorias não são totalmente disjuntas. (FIORENTINI; LORENZATO, 2006, p. 136).
Desta forma, escolhemos realizar uma análise transversal dos dados, na qual foram analisadas as escritas individuais dos três sujeitos, considerando-se, a princípio, todas as categorias, de modo a tentar encontrar categorias para cada trecho selecionado.
Em relação às categorias de análise, como apontado anteriormente, estas emergiram tanto da teoria estudada quanto da pré-análise dos treze portfólios. Inicialmente fizemos um levantamento das possíveis categorias a partir da fundamentação teórica e, em seguida, confrontamos com a pré-análise dos portfólios, de modo a verificar quais categorias se faziam presentes e eram relevantes para a análise.
Assim, temos que: a socialização, a experiência, a reflexão, os conhecimentos pedagógicos e de conteúdo foram categorias emergidas a partir dos estudos de Tardif e Raymond (2000); o planejamento, a intenção da educação e a aprendizagem dos alunos foram subsidiados por Lidstone e Hollingsworth (1992 apud GUARNIERI, 1996); Veenman (1988 apud GUARNIERI, 1996), por sua vez, nos trouxe elementos para a construção de diversas categorias tais como a explicitação de regras e procedimentos, a motivação dos alunos, a disciplina, a avaliação da aprendizagem, a falta de recursos, a organização escolar, as relações
autoritárias, burocráticas e hierárquicas, as múltiplas tarefas do professor e o trabalho mental e fisicamente esgotador; a questão da gestão de sala de aula emergiu dos estudos de Serrazina e Oliveira (2002); a formação contínua do professor, conhecer os estudantes e o contexto escolar e desenvolver repertório docente foram categorias emergidas dos estudos de André (2012); e a questão da competência profissional emergiu tanto a partir de Foerste (2005), quanto de Veenman (1988 apud GUARNIERI, 1996) e Huberman (1992).
As demais categorias – planejamento de adversidades, contextualização, uso de materiais e tecnologias, adversidades, autonomia dos alunos e alunos com necessidades especiais – emergiram da análise dos portfólios. Desta forma, foi necessário recorrer a outros autores para fundamentar as análises destes aspectos da docência, tais como Aquino (1998), Castro et al. (2008), Dayrell (1996), Ferreira e Buriasco (2015), Freire (1996), Fusari (1990), Grando (2010), Mazzota e D’Antino (2011), Silveira et al. (2012) e outros.