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Embora a prática do ensino religioso deva ser caracterizada como laica e não-

proselitista, sabe-se que não há neutralidade por parte do professor. A formação de

professores deve atentar para esta realidade, sendo que, tendo como proposta a

formação de professores reflexivos, possibilitará a prática da nova epistemologia do

Ensino Religioso. Conforme Mizukami (2002, p. 49):

A premissa básica do ensino reflexivo considera que as crenças, os valores e as hipóteses que os professores têm sobre o ensino, a matéria que lecionam, o conteúdo curricular, os alunos e a aprendizagem estão na base de sua prática de sala de aula. A reflexão oferece a esses professores a oportunidade de se tornarem conscientes de suas crenças e das hipóteses subjacentes às suas práticas, possibilitando, assim o exame de validade de tais práticas na obtenção das metas estabelecidas.

Para Perrenoud (2002), saber refletir sobre a própria prática é o objetivo

fundamental da formação de professores, pois podemos esperar que uma prática

reflexiva:

y compense a superficialidade da formação profissional; y favoreça a acumulação de saberes da experiência; y propicie uma evolução rumo à profissionalização;

y prepare para assumir uma responsabilidade política e ética; y permita enfrentar a crescente complexidade das tarefas; y ajude a vivenciar um ofício impossível;

y ofereça os meios necessários para trabalhar sobre si mesmo; y estimule a enfrentar a irredutível alteridade do aprendiz; y aumente a cooperação dos colegas;

y aumente as capacidades de inovação (PERRENOUD, 2002, p. 48).

O profissional reflexivo é uma antiga figura da reflexão sobre a educação, cujas

bases podem ser encontradas nas obras de John Dewey, principalmente em “Como

Pensamos”. Dewey definiu o pensamento reflexivo como “um ativo, prolongado e

cuidadoso exame de toda crença ou espécie hipotética de conhecimento, exame efetuado

à luz dos argumentos que a apóiam e das conclusões a que se chega” (DEWEY, 1953, p.

18).

Dewey diferencia a ação reflexiva do ato de rotina que é guiado por impulso,

hábito, tradição ou submissão à autoridade. O pensamento reflexivo é a melhor maneira

de pensar, é “a espécie de pensamento que consiste em examinar mentalmente o assunto

e dar-lhe consideração séria e consecutiva” (DEWEY, 1959, p. 13). Este pensar

reflexivo abrange: “(1) um estado de dúvida, hesitação, perplexidade, dificuldade

mental, o qual origina o ato de pensar;e (2) um ato de pesquisa, procura, inquirição, para

encontrar material que resolva a dúvida, assente e esclareça a perplexidade” (DEWEY,

1959, p. 22).

Dewey, desde a década de 30, postulava a necessidade de um espírito aberto, da

sinceridade e da responsabilidade para que houvesse uma ação reflexiva, apenas “o

mero conhecimento dos métodos não basta, pois é preciso que exista o desejo e a

vontade de os empregar” (DEWEY, 1959, p.43).

A primeira atitude implica na pergunta constante do que se faz na sala de aula e

porque se faz. Esta postura requer do professor:

Independência de preconceitos, de partidarismos e de outros hábitos como o cerrar a mente e indispô-la à consideração de novos problemas e novas idéias. [...] Inclui um desejo ativo de prestar ouvidos a várias vozes, que não uma só; de pôr o sentido nos fatos, de qualquer fonte que venham; de conceder inteira atenção a possibilidades alternativas; de reconhecer a probabilidade de erro mesmo nas crenças que nos são mais caras (DEWEY, 1959, p. 39).

A segunda atitude requer sinceridade, “quem esteja absolutamente interessado

em determinado objeto, em determinada causa atira-se-lhe, como dizemos, de coração

ou de todo o coração” (DEWEY, 1959, p. 39). É descrita como a predisposição para

afrontar a atividade com a curiosidade, energia, capacidade de renovação e de luta

contra a rotina.

Quando alguém está absorvido, o assunto o transporta. Perguntas espontâneas lhe ocorrem; uma torrente de sugestões o inunda; depara e segue outras pesquisas e leituras; não precisando depender energia em prender o espírito ao assunto (enfraquecendo, assim, a força útil à matéria e criando um estado de ânimo dividido), é a matéria que o prende, imprimindo ao ato de pensar um impulso para a frente. O entusiasmo genuíno é atitude que opera como força intelectual (DEWEY, 1953, p. 40).

A terceira atitude, que é a responsabilidade, implica na ponderação cuidadosa

das conseqüências de uma determinada ação. Envolve três questionamentos: o quê?

como? E para quem? Leva a pensar em três tipos de conseqüências na educação de uma

pessoa: conseqüências pessoais, acadêmicas e políticas sociais. “Ser intelectualmente

responsável é examinar as conseqüências de um passo projetado; significa estar disposto

a adotá-las, quando seguem, como de razão, qualquer posição já tomada. A

responsabilidade intelectual assegura a integridade, isto é, a consistência e a harmonia

da crença” (DEWEY, 1959, p.41).

Donald Schön é um dos autores que retoma o pensamento de Dewey e discute a

postura do professor como um prático reflexivo, assumindo uma epistemologia da

prática, evidenciando como os professores podem aprender com a análise e

interpretação de suas práticas e assim superar a “racionalidade técnica” que está imposta

à sua formação, principalmente a inicial.

Segundo o modelo da racionalidade técnica, a competência profissional é aferida pela capacidade de análise e de solução instrumental de problemas. Esse procedimento é rigoroso na medida em que aplica teoria e procedimentos científicos. Os pesquisadores desenvolvem a ciência básica e aplicada, das quais derivam técnicas para diagnosticar e resolver os problemas da prática. Por sua vez, os profissionais fornecem aos pesquisadores dados sobre os problemas que enfrentam para estudo e proposição de novas soluções. De acordo com essa lógica, há na divisão de trabalho entre os teóricos, que produzem conhecimentos, e os práticos, que executam os conhecimentos produzidos (GARRIDO, 2000, p.6).

Ao refletir sobre sua prática, o profissional se engaja num processo de auto-

educação. A própria prática é uma fonte de renovação. O reconhecimento do erro, por

exemplo, pode se tornar uma fonte de descoberta, ao invés de uma ocasião para a auto-

defesa. Schön distingue a “reflexão na ação” da “reflexão sobre a ação”.

A reflexão na ação acompanha a ação em curso e pressupõe uma conversa com

ela e faz o profissional tomar consciência de sua forma intuitiva e tácita de pensar,

podendo aperfeiçoar essas representações na medida em que percebe suas insuficiências

para dar conta da situação com a qual se defronta. Segundo Schön (1998, p. 32) “em um

presente-da-ação, um período de tempo variável com o contexto, durante o qual ainda se

pode interferir na situação em desenvolvimento, nosso pensar serve para dar nova forma

ao que estamos fazendo, enquanto ainda o fazemos.” Essa reflexão na ação é descrita

como uma seqüência de momentos ou um processo de microdecisões, motivando

atividades mentais no calor da ação.

Para começar, há uma situação de ação para a qual trazemos repostas

espontâneas de rotina. As respostas de rotina produzem uma surpresa – um resultado

inesperado, agradável ou desagradável, que não se encaixa nas categorias de nosso

conhecer-na-ação. A surpresa leva à reflexão dentro do presente da ação. A reflexão na

ação tem uma função crítica, questionando a estrutura de pressupostos do ato de

conhecer na ação. A reflexão gera o experimento imediato (SCHÖN, 2000).

Existe primeiramente, um momento de surpresa: um professor reflexivo permite-se ser surpreendido pelo que o aluno faz. Num segundo momento, reflecte sobre esse facto, ou seja, pensa sobre aquilo que o aluno disse ou fez e, simultaneamente, procura compreender a razão por que foi surpreendido. Depois num terceiro momento, reformula o problema suscitado pela situação; talvez o aluno não seja de aprendizagem lenta, mas pelo contrário, seja exímio no cumprimento das instruções. Num quarto momento, efectua uma experiência para testar a sua nova hipótese; por exemplo, coloca uma nova questão ou estabelece uma nova tarefa para testar a hipótese que formulou sobre o modo de pensar do aluno. Este processo de reflexão- na-ação não exige palavras (SCHÖN, 1995, p. 83).

A reflexão sobre a ação, pressupõe um distanciamento da ação. Reconstrói-se

mentalmente a ação para tentar analisá-la retrospectivamente.

Por outro lado, é possível olhar retrospectivamente e reflectir sobre a reflexão-na-ação. Após a aula, o professor pode pensar no que aconteceu, no que observou, no significado que lhe deu e na eventual adopção de outros sentidos. Refletir sobre a reflexão-na-acção é uma acção, uma observação e uma descrição que exige o uso de palavras (SCHON, 1995, p. 83).

Garcia (1992, p. 61), citando Pollard e Tann, descreve algumas destrezas

necessárias aos docentes para a prática de um ensino reflexivo.

y Destrezas empíricas: têm que ver com a capacidade de diagnóstico tanto a nível da sala de aula como da escola.

y Destrezas analíticas: necessárias para analisar os dados descritivos compilados e, a partir deles, construir uma teoria.

y Destrezas avaliativas: as que se prendem com o processo de valoração, de emissão de juízos sobre as conseqüências educativas dos projectos e com a importância dos resultados alcançados.

y Destrezas estratégicas: dizem respeito ao planeamento da acção, à antecipação da sua implantação seguindo a análise realizada.

y Destrezas práticas: capacidade de relacionar a análise com a prática, com os fins e com os meios, para obter um efeito satisfatório.

y Destrezas de comunicação: os professores reflexivos necessitam de comunicar e partilhar as suas idéias com outros colegas, o que sublinha a importância das actividades de trabalho e de discussão em grupo.

Ken Zeichner (1993) expande de maneira crítica o conceito de prático reflexivo

de Schön para uma prática reflexiva social e dialógica. Considera que Schön trata a

atividade reflexiva como um processo solitário e afirma que é necessária uma relação

dialógica, ou uma prática social onde se reflete em conjunto com outros profissionais.

Ainda, Schön estreita a reflexão na atividade em si, do ponto de vista interno, em que o

professor analisa posteriormente a prática da sala de aula, deixando a dimensão

contextual em que estas atividades estão associadas. Para Zeichner é necessário que ao

refletir, o professor considere as condições de produção deste trabalho. Importa que essa

reflexão tenha uma vinculação com as condições sociais, políticas e econômicas.

Zeichner alerta para a necessidade de se explicitar o tipo de reflexão que está

sendo proposto. Preocupa-se com a ilusão do desenvolvimento docente através da

reflexão e pela superficialidade com que esse termo é usado e que de maneira sutil,

mantém o professor em posição subserviente. Ao analisar sistematicamente as formas

como o conceito de prático reflexivo tem sido aplicado na formação de professores nos

EUA, concluiu que “tem muito pouco para incentivar o verdadeiro desenvolvimento do

professores” (ZEICHNER, 1993, p. 20). Constatou quatro características que minam a

intenção de emancipação expressa pelo atual movimento reformista.

y A concentração de esforços em ajudar os professores a imitarem melhor as práticas sugeridas por investigações que outros conduziram e negligenciam-se as teorias e saberes implantados tanto nas suas práticas como nas de outros professores.

y A racionalidade técnica camuflada sob a bandeira da reflexão limitando o processo reflexivo à consideração das capacidades e estratégias de ensino (dos meios de instrução) e da exclusão da definição dos objetivos de ensino.

y A tendência para se centrar a reflexão dos professores na sua própria prática ou nos seus alunos, desprezando-se qualquer consideração das condições sociais do ensino, que influenciam o trabalho do professor dentro da sala de aula.

y A insistência na reflexão dos professores individuais, que devem pensar sozinhos sobre o seu trabalho (ZEICHNER, 1993, p. 22,23)

Ao articular sua posição e ao situá-la sobre outros pontos de vista, descreve

quatro tradições históricas sobre a prática reflexiva.

y Tradição acadêmica que acentua a reflexão sobre as disciplinas e a representação e tradução do saber das disciplinas para o desenvolvimento da compreensão do aluno.

y Tradição de eficiência social, que acentua a aplicação de determinadas estratégias de ensino, sugeridas pela investigação (ilustrada pelo trabalho daqueles que falam de um saber de base para o ensino – o termo saber de base quase nunca inclui qualquer saber gerado pelo professor).

y Tradição desenvolvimentista - dá prioridade ao ensino sensibilizado para os interesses, pensamento e padrões de desenvolvimento e crescimento do aluno; isto é, o professor reflecte sobre os seus alunos. y Tradição de reconstrução social, que acentua a reflexão sobre o contexto social e político da escolaridade e a avaliação das acções na sala de aula quanto à sua contribuição para uma melhor igualdade e para uma sociedade mais justa e docente (ZEICHNER, 1993, p. 24).

Na perspectiva de Zeichner (1993) sobre a prática do ensino reflexivo, deve-se

atentar para todos os elementos centrais das várias tradições: a atenção do professor está

tanto virada para dentro, para a sua própria prática como para fora, para as condições

sociais nas quais se situa essa prática. Deve haver uma tendência democrática e

emancipatória e a importância dada às decisões do professor quanto a questões que

levam a situações de desigualdade e injustiça dentro da sala de aula. Deve haver

compromisso com a reflexão enquanto prática social na construção de comunidades de

aprendizagem, nas quais os professores apóiam e sustentam o crescimento uns dos

outros (ZEICHNER, 1993, p. 25,26).

Para Alarcão (2007, p. 41) “A noção de professor reflexivo, baseia-se na

consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como

criativo e não como mero reprodutor de idéias e práticas que lhe são exteriores”.

Baseia-se na vontade, no pensamento, em atitudes de questionamento e curiosidade, na busca da verdade e da justiça. Sendo um processo simultaneamente lógico e psicológico, combina a racionalidade da lógica investigativa com a irracionalidade inerente à intuição e à paixão do sujeito pensante; une cognição e afectividade num acto específico, próprio do ser humano (ALARCÃO, 1996, p. 175).

Embora num primeiro momento, tenha enfatizado os professores, atualmente o

objeto de suas reflexões é “a escola como um todo dinâmico, consciente, responsável,

vivo, atuante e transformador da sociedade, qualquer que seja o nível em que atue”

(TAVARES, 2001, p. 42).

Alarcão (2007, p. 83) reconhece que partiu do pensamento do “prático reflexivo”

de Schön e da noção de “organização aprendente” retirada de Senge (1994).

[...] reconhece-se- à organização a capacidade de se pensar por meio do pensamento original dos seus membros, livremente expresso. Mas simultaneamente a capacidade de se desenvolver e de lhes proporcionar, a eles também, condições de aprendizagem coletiva e individual. Trata-se de uma aprendizagem individual em ambiência da colectividade, uma aprendizagem cooperativa do conjunto das pessoas na organização (ALARCÃO, 2007, p. 84).

De forma análoga ao conceito de professor reflexivo desenvolve o conceito de

escola reflexiva ao constatar que “o professor não pode ser um ser isolado na sua escola,

mas tem de construir, com os seus colegas, a profissionalidade docente” (ALARCÃO,

2007, p. 79).

Uma vez que “a vida dos professores tem o seu contexto próprio que é a escola e

esta tem de ser organizada de modo a criar condições de reflexividade individuais e

colectivas” (ALARCÃO, 2007, p.76), esta escola necessita ser “uma organização

aprendente que qualifica não apenas os que nela estudam, mas também os que nela

ensinam ou apóiam estes e aqueles. É uma escola que gera conhecimento sobre si

próprio como escola específica e, desse modo, contribui para o conhecimento sobre a

instituição chamada escola” (ALARCÃO, 2001, p.15).

Alarcão (2001, p.25) define escola reflexiva como uma “organização escolar que

continuadamente se pensa a si própria, na sua missão social e na sua organização, e se

confronta com o desenrolar da sua atividade em um processo heurístico,

simultaneamente avaliativo e formativo”. Deste conceito destaca-se a idéia de

pensamento e reflexão, organização e missão, avaliação e formação.

Essa escola é uma comunidade com um projeto orientador, uma carta de

definição da política educativa da escola, pois sabe onde está e sabe para onde quer ir. O

projeto da escola é uma construção social cujo processo de elaboração implica a tomada

de decisões em relação aos valores educativos.

“Tendo a escola por missão educar e instruir, o projecto se deve centrar no modo

como a escola se organiza para criar as condições de aprendizagem e desenvolvimento

inerentes ao currículo” (ALARCÃO, 2007, p.86). Sendo assim, o currículo deve estar

no centro do projeto da escola. Por currículo entende como “conjunto de aprendizagens

proporcionadas pela escola e consideradas socialmente necessárias num dado tempo e

contexto” (ALARCÃO, 2007, p.87).

Alarcão toma as contribuições de Roldão (2001), que propõe a ruptura do

paradigma em que a escola é organizada em termos homogeneidade, segmentação,

seqüencialidade e conformidade, passando para um paradigma orientado pela

diversificação, finalização, reflexão e eficácia (ROLDÃO, 2001, p.129).

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