DEL VI: AVSLUTNING
APPENDIKS 3 – Innsamlet data
Na busca por compreender por que as notícias são como são é indispensável recorrer às chamadas Teorias do Jornalismo, cujo foco central é a notícia e, suas áreas de estudo e atuação alteram-se entre seus processos de produção, circulação e consumo. Dentre essas estão Espelho, Gatekeeper, organizacional, ação política, estruturalista, construcionista e interacionista. Teorias que Michael Schudson (1988 apud SOUSA, 2005) classifica como unidimensionais e julga serem insuficientes sozinhas para explicar as notícias, embora, em conjunto, revelem todo seu poder explicativo. A tendência “unionista” de construção da notícia (newsmaking) adotada por Schudson (1988), apropriada e ampliada por Sousa (2002, 2005) será adotada neste estudo.
A teoria da notícia unificada organizada por Jorge Pedro Sousa baseia-se, principalmente, no que ele denomina de versão schudsoniana de sistematização das Teorias da Notícia, que foi estabelecida pelo sociólogo norte-americano em 1988. Segundo Sousa (2002, p.37), ela apresenta caráter sintético, particularmente útil e funcional e tem virtualidades pedagógicas. A teoria de Schudson afirma que as ações pessoal (gatekeeper), social e cultural quando inter-relacionadas são as três principais explicações para justificar e compreender que as notícias sejam como são.
A primeira categoria é a acção pessoal. Aqui as notícias são explicadas como um produto das pessoas e das suas intenções. Alguém ou algum grupo quer dizer algo e di-lo. A segunda categoria é a acção social. Aqui as notícias são tomadas como sendo um produto das organizações e dos seus constrangimentos. Independentemente das intenções dos indivíduos que as integram, uma organização noticiosa produz notícias que a tornam mais operacional ou reduzem a incerteza com que se defronta no seu meio. A terceira categoria é a acção cultural. Aqui as notícias são vistas como um produto da cultura e os limites do concebível que uma cultura impõe. Independentemente das intenções individuais ou das necessidades organizacionais, uma dada sociedade num dado momento só pode produzir uma classe limitada de notícias de entre o campo de espécies de notícias hipoteticamente possíveis. (SCHUDSON, 1988, p.20)
A proposta de Schudson unifica teorias já existentes e adota o conceito de notícia como produto cultural. Enfatiza que a subjetividade do jornalista e de suas fontes, o papel das organizações (rotinas produtivas e interesses) e própria cultura a que estão submetidos jornal, jornalista e público consumidor fazem-se presentes no processo de construção do texto noticioso.
À teoria schudsoniana, Sousa proferiu sugestões e, baseado no trabalho de Shoemaker e Reese (1996) e em suas próprias ideias, sistematizou a sua Teoria Unificada da Notícia, cuja versão mais recente data de 2005. O jornalista português afirma que uma teoria científica deve ser formulada de maneira breve, simples e clara e, se possível, matematizada e, a partir disso formulou o seguinte enunciado:
a notícia é o resultado da interacção simultaneamente histórica e presente de forças de matriz pessoal, social (organizacional e extra-organizacional), ideológica, cultural, do meio físico e dos dispositivos tecnológicos, tendo efeitos cognitivos, afectivos e comportamentais sobre as pessoas, o que por sua vez produz efeitos de mudança ou permanência e de formação de referências sobre as sociedades, as culturas e as civilizações. (SOUSA, 2005, p.9-10)
Assim, adicionou sobre os fatores construtores da notícia determinados pela teoria shudsoniana (ação pessoal, social e cultural), as forças ideológica, do meio físico, tecnológica e histórica2, além de destacar seu efeito social enquanto construtoras da realidade social. A força ou ação pessoal remete aos estudos sobre o gatekeeper realizados por White, em 1950, e afirma que as notícias resultam parcialmente das pessoas e de suas intenções, além da capacidade pessoal dos seus autores e dos atores que nela e sobre ela intervêm. Gaye Tuchman (1999) afirma que a notícia é uma compilação de fatos avaliados e estruturados pelos jornalistas, que têm a função de selecionar os acontecimentos e construí-la. Função subjetiva e influenciada pelas experiências, valores e expectativas do profissional da imprensa (SOUSA, 2002, 2005; MOTTA, 2002). Entretanto, deve-se ressaltar que as fontes das notícias e seus interesses pessoais e a própria rotina produtiva – deadline, linha editorial, a concepção ética do jornalista, etc. (TUCHMAN, 1999) – são elementos tão importantes quanto subjetividade do autor na produção de um texto noticioso. Por isso, pressupõe-se dizer que a notícia depende tanto do autor quanto dos atores que nela e sobre ela intervêm.
A força ou ação social enfatiza os mecanismos que transcendem a ação pessoal e consideram as notícias fruto de dinâmicas e constrangimentos do sistema social, sejam eles extraorganizacionais ou sócio-organizacionais. As forças sócio-organizacionais referem-se às próprias organizações noticiosas, os jornais, os quais “têm impulsos próprios, independentes e mesmo contraditórias com as intenções das pessoas que estão na organização” (SCHUDSON,
2 Ainda que Schudson não tenha utilizado o fator histórico como ator de sua teoria, ele já fizera uso dele em sua obra Descobrindo a Notícia: Uma história social dos jornais nos Estados Unidos. No livro publicado em 1978, cuja primeira versão em português data de 2010, o autor usou a força histórica para compreender a origem do mito da objetividade no jornalismo.
1988, p.22). Sousa (2002; 2005) e Tuchman (1999) afirmam que essa ação é determinada pela tirania do tempo, a necessidade de cumprir o deadline da matéria, a competição por ser o primeiro a noticiar o fato e a obrigatoriedade de incluir no processo de seleção do acontecimento (gatekeeping) o valor-notícia da atualidade. Outro fator que a influencia é a rotina produtiva - resposta prática às necessidades das organizações noticiosas e dos jornalistas (SHOEMAKER; REESE, 1996 apud SOUSA, 2002, p.49). Ela atua como padrões comportamentais estabelecidos e permite que o jornalista, mesmo sob a pressão do tempo, “controle” seu trabalho, além de defenderem a eles e às organizações noticiosas das críticas e dos riscos elevados.
Nas rotinas estão incluídas (SOUSA, 2005; TUCHMAN, 1993; SOLOSKI, 1999): a rede que se estende aos acontecimentos dignos de se tornar notícia (os locais no qual há estrutura e equipe para cobrir um fato); o desejo pelo lucro das organizações; os mecanismos (como a necessidade de manter o emprego e o desejo de melhorar na carreira) que impelem o jornalista a seguir as normas organizacionais, como a linha editorial; a competição entre editores e editorias; os recursos humanos e materiais disponíveis (tamanho da equipe, material e recursos tecnológicos para permitir a cobertura de um acontecimento, etc.); a hierarquia, organização e burocracia internas.
Já o nível extra-organizacional refere-se aos constrangimentos que influenciam o jornalista fora da organização. Nele se encontram fatores como a audiência e o mercado, além das fontes de informação e das relações estabelecidas entre elas e os jornalistas. Relações frequentemente problemáticas, uma vez que fontes são os leitores interessados na notícia (TUCHMAN, 1999) e podem atuar como gatekeeper externos selecionando informações para os jornalistas, quando esses não têm experiência no que ocorre ou confiam demais em quem passa a informação, podendo ser manipulados por eles (SOUSA, 2002, 2005).
As forças ou ações do meio físico e dos dispositivos tecnológicos dizem respeito à influência que um meio de trabalho adequado e bons dispositivos tecnológicos têm no aumento e na melhoria da produtividade do jornalista.
A força ou ação histórica defende que as notícias são produtos históricos, que refletem também na atualidade. Pode-se afirmar que as notícias que temos, os conteúdos e os formatos são frutos da história, assim como os diferentes frames (enquadramentos) culturais utilizados para dar suporte a elas. Ou seja, transformações históricas como a inclusão de novos recursos digitais na produção jornalística - o telégrafo, o computador e a Internet -, além de mudanças na forma e estrutura da notícia - introdução do lead e o mito na
objetividade -, foram inseridas na prática jornalística e hoje atuam ativamente no processo de
newsmaking.
A força ou ação ideológica é exercida sobre os meios jornalísticos e funcionam como elementos configuradores da notícia, entretanto Sousa (2002, 2005) não se refere à influência ideológica dos meios na sociedade, mas sobre as ideologias que influenciam o fazer jornalístico. Nesse contexto, ideologia é considerada um mecanismo simbólico, que integra um sistema de ideias e cimenta a coesão e a integração de um grupo social em função de interesses, conscientes ou não (SOUSA, 2005). E, nos estados democráticos (SOLOSKI, 1999), as principais ideologias que moldam as notícias são os ideais profissionais, a objetividade e o profissionalismo, sendo que ambas “procurar relegitimar continuamente a função dos jornalistas” (SOUSA, 2005, p.12).
A força ou ação cultural caracteriza-se pelo fato de os processos de construção da notícia ocorrerem num sistema sociocultural, sendo ela um produto cultural submetido a uma gramática da cultura, que a cria, mas também é criada por ela.