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As novas tecnologias vão invadir o cenário da comunicação na América Latina a partir do final dos anos 1980, inaugurando uma nova era na eterna busca pela modernidade tardia. E novos paradoxos vão surgir nesse caminho, “num velho processo de esquizofrenia entre modernização e possibilidades reais de apropriação social e cultural daquilo que nos moderniza” (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.265).

O paradoxo seria fabuloso se não fosse sangrento, porque em nome da memória eletrônica nossos povos estão sendo pressionados a renunciar a ter e desenvolver sua própria memória, posto que na alternativa entre atraso e modernidade a memória cultural não conta, não é informaticamente operativa, não sendo, portanto, aproveitável. Em contraste com a memória instrumental, a memória cultural não trabalha com “informação pura”, nem por linearidade acumulativa; articula-se, antes, à base de experiências e acontecimentos, em vez de acumular, filtra e carrega.

Não é a memória a que podemos recorrer, e sim aquela outra, de que somos feitos. E isto nada tem a ver com nostalgia, porque a “função” dessa memória na vida de uma coletividade não é falar do passado, e sim dar continuidade ao processo de construção permanente da identidade coletiva. Entretanto, a lógica da memória

cultural – operativa por exemplo na narração popular em que a qualidade da comunicação está longe de ser proporcional à quantidade de informação – resiste a deixar-se pensar com as categorias da informática. (MARTÍN-BARBERO, 2003, p.266, 267, grifo nosso).

Martín-Barbero (2003, p.268) alerta para o fato de que “as tecnologias não são meras ferramentas transparentes; elas não se deixam usar de qualquer modo: são em última análise a materialização da racionalidade de uma certa cultura e de um „modelo global de organização do poder‟”. Neste sentido, a radicalização dos processos tecnológicos é responsável por aumentar os riscos da crise ecológica. Um dado apenas nos basta para clarear a razão desta avaliação: “um milhão, por exemplo, foram os anos necessários para que a natureza criasse a quantidade de combustíveis fósseis atualmente consumidos em um único ano” (SENNETT, 2009, p.13). Por este motivo, para Sennett (2009, p.13) “a tecnologia talvez não seja uma aliada confiável no empenho de readquirir o controle”. Na avaliação do autor, a crise ecológica é “pandórica”, na medida em que o mito grego de Pandora, deusa da invenção, simbolizava para os povos da cultura grega um elemento da própria natureza humana, alertando para o fato de que “a cultura baseada em coisas produzidas pelo homem expõe constantemente ao risco de infligir danos a si mesmo” (SENNETT, 2009, p. 12).

No entanto, tanto Sennett (Ibidem) quanto Martín-Barbero (Ibidem) são esperançosos e sinalizam para as formas de uso e apropriação das tecnologias. Sennett (Ibidem) acredita que o conhecimento sobre como são feitas as coisas pode tornar menos assustador o conteúdo da caixa de Pandora e Martín-Barbero (Ibidem, p. 268) aponta como saída “tomar o original importado como energia, potencial a ser desenvolvido a partir dos requisitos da própria cultura”. Os dois caminham no mesmo rumo de valorizar a união entre mão e cabeça, ou seja, o processo de construir a realidade não pode estar dissociado daquele de pensar esta mesma realidade.

Acerca do conhecimento no universo do ecologismo popular, Alier (2007, p. 66) considera que

esse é obtido por meio do saber popular sobre o manejo dos recursos, do conhecimento adquirido sobre as novas formas de contaminação e de depredação dos recursos, assim como, em muitas ocasiões, das incertezas ou ignorância sobre os riscos das novas tecnologias, que o conhecimento científico não pode dissipar. Isso aponta para o fato de que a realidade tem ensinado os/as camponeses/as agroflorestais a valorizarem o conhecimento ecológico que têm sobre o seu ambiente e a não incorporarem impulsivamente as modernas ferramentas tecnológicas que o sistema hegemônico lhes apresenta, antes mesmo de averiguarem se elas contribuem de fato para sua sustentabilidade ou não.

Para além disso, o universo camponês é tomado pelo desafio de relacionar-se com as novas tecnologias de comunicação em sua luta por autonomia, ao mesmo tempo em que não compreende bem a lógica interna destes meios. No Cariri, o uso de antenas parabólicas e telefones celulares já é comum, mas poucos/as camponeses/as fazem uso da internet como ferramenta da comunicação. No geral, os mais velhos carecem de conhecimento instrumental para apropriarem-se destes meios e estão ainda vivenciando a condição de receptores, sem a experiência de agirem como produtores daquilo que se passa no universo das novas tecnologias de comunicação. Entre os camponeses, apenas Jeová tem e-mail e costuma usar a internet no dia a dia. Os/as filhos/as dos/as camponeses/as, com raras exceções, também não têm acesso à internet. Já entre os/as netos/as, a maioria lida com a internet para se relacionar nas redes sociais ou fazer pesquisas para trabalhos escolares. Ainda não é comum usar esse espaço para postar conteúdos próprios em blogs ou sites e a maioria não tem computador com acesso à internet em casa.

A internet, como novo espaço global de construção e troca de conhecimento, de relacionamentos e de publicização, é vista por Eline e Erivanda, filhas de Jeová e dona

Terezinha, como meio mais democrático. Eline chega mesmo a afirmar: “por não termos internet não conseguimos trocar mais ideias com liberdade”. Mas a internet bate à porta dessas famílias. José Artur e seu Juvenal já receberam propostas de universidades para instalarem computadores com acesso à internet nos espaços comunitários que presidem, próximos de suas casas. Mas seu Juvenal demonstrou uma preocupação com a autonomia para permitir essa colaboração da universidade:

Aqui a gente recebe visita de todo lugar. No dia 15 do mês passado [dezembro de 2011], recebemos a visita de um professor da Universidade da Paraíba e um da UFC. O da Paraíba aqui ficou abismado e disse: mas rapaz, você tem aqui é um sistema agroflorestal. Quem lhe ensinou? Eu disse: foi Deus. Aí ele falou: mas rapaz, você vai fazer uma visita a nós lá. Eu disse: eu vou, avise com antecedência que eu posso ir. Ele pegou semente daqui, algumas eu doei, outras ele comprou, já pra levar pra casa de semente de lá. Eu conheço também essa pessoa da casa de semente de lá, de encontros, nós já tivemos contato com as pessoas de lá. Mas ele saiu surpreso com o trabalho. O professor da UFC perguntou se aqui a gente tinha computador, internet. Eu disse que ainda não. Aí ele falou: nós vamos trazer uma pessoa aqui, trazer um computador e trazer uma pessoa pra ficar aqui assessorando. Eu digo: tudo bem, a gente recebe de bom humor mesmo, com todo prazer recebemos. Agora só uma coisa eu quero já afirmar, que como dois mais dois é quatro, se em qualquer ponto tentar monopolizar, fica pra lá que eu não vou receber.

E seu Juvenal vai mais fundo ao falar sobre o avanço das descobertas tecnológicas e sua relação direta com as classes hegemônicas:

Eu vejo um desenvolvimento na tecnologia, mas muitas vezes exageram, tanto que tão achando já um novo planeta que pode ser habitado, mas acho que bom é o nosso que Deus fez e deixou nós aqui. Se nós vamos sair pra outro, não sei quem vai chegar lá. Nós queremos ficar aqui, queremos trabalhar para que as nossas futuras gerações continuem aqui nesse planeta que Deus deixou. Nós não vamos poder tá nesse planeta mudado, que seja apresentado pelos homens, e sim no que Deus nos deu e abençoou.

Percebe-se, nas palavras de seu Juvenal, um forte sentimento de autonomia e de valorização dos seus conhecimentos e de sua espiritualidade, de forma que antes de se preocupar com o acesso à internet ou com a ocupação de outro planeta, ele se coloca como ser capaz de viver na Terra com segurança, bem estar, sustentabilidade e respeito pelas próximas gerações. É isso que ele e os/as demais camponeses/as agroflorestais comunicam com seu exemplo todos os dias.