Em torno do século XV, começa o período posterior ao gótico, conhecido como Renascimento138. Este período caracterizou-se por uma arte que se inspirava na era Clássica, ou seja, no mundo greco-romano. Essa arte, produto de uma nova cultura, nasce em ambiente italiano139 e tem aí suas primeiras manifestações no campo da arquitetura religiosa140. Basicamente, o Renascimento caracterizou-se por uma ruptura com o pensamento medieval e isso ficou patente também na arquitetura, que acabou por sofrer forte influência. Do momento em que as novas ideias, embebidas agora no humanismo da Renascença, e a divulgação de textos ligados ao mundo arquitetônico clássico141 foram aplicados à construção de igrejas, o resultado, foi um afastamento dos estilos típicos da idade medieval.
Das várias igrejas renascentistas, o edifício religioso mais emblemático e que exerceu uma influência em toda a cristandade é a Basílica de São Pedro em Roma, construída entre 1506-1626142. A nova basílica, construída sobre a vetusta basílica erigida pelo imperador Constantino na colina do Vaticano, onde se encontrava a tumba de S. Pedro, foi produto da
138 “A palavra Renascença significa nascer de novo ou ressurgir, e a idéia de tal renascimento ganhava terreno na
Itália desde a época de Giotto. Quando as pessoas desse período queriam elogiar um poeta ou um artista, diziam que sua obra era tão boa quanto a dos antigos. Giotto fora assim exaltado como um mestre que liderava um verdadeiro ressurgimento da arte; as pessoas queriam significar com isso que a arte de Giotto era tão boa quanto a daqueles famosos mestres cujas obras eram louvadas pelos antigos escritores da Grécia e de Roma.” GOMBRICH, E. H. A História da Arte...., p. 167.
139 “[...] a Itália tinha uma tradição clássica mais vigorosa do que qualquer outro país da Europa ocidental.
Através de todo o período medieval os italianos tinham conseguido manter a crença de que eram descendentes dos antigos romanos. [...] É também verdade que a Itália tinha uma cultura mais profundamente secular do que a maioria das outras terras da cristandade latina. [...] Além de tudo isso, a Itália sofreu a pressão direta das influências culturais das civilizações bizantina e sarracena. Por fim – e talvez seja este o fator mais importante – as cidades italianas foram as principais beneficiárias do restabelecimento do comércio com o Oriente.” BURNS, E. M. História da Civilização Ocidental. Vol. 1, Rio de Janeiro: Globo, 1986, p. 395s.
140“Em 1429, um arquiteto florentino chamado Filippo Brunelleschi, que já granjeara fama com a majestosa
igreja de S. Lourenço, na sua cidade, teve a coragem suficiente de copiar um pequeno templo romano típico, ao projetar a Capela Pazzi. No mesmo ano foi encarregado de planejar e guarnecer novamente a Catedral gótica de Florença, onde colocou tanto o altar-mor como o coro sob a cúpula central. Dezesseis anos depois, Brunelleschi projetou a garrida igreja do Espírito Santo, em Florença, no estilo basilical. Soara o dobre de finados para o gótico na Itália, e não tardou que a novidade da arquitetura renascentista se alastrasse para a França e dali para outros países”. ANSON, P. F. A Construção de Igrejas..., p. 972.
141“O conhecimento do que já se transformara no estilo aceito de construção foi grandemente ajudado pela
publicação em Roma, em 1486, de Os Dez Livros da Arquitetura, de Vitrúvio, escrito no primeiro século antes de Cristo. Uma tradução italiana foi publicada em 1521”. Id. p. 976.
142 “A esse mestre [Donato Bramante (1444 – 1514)] tinha o papa [Júlio II] confiado, pois, a tarefa de projetar a
nova igreja de S. Pedro, e ficou entendido que ela devia tornar-se uma verdadeira maravilha para toda a cristandade. Bramante estava decidido a ignorar a tradição ocidental de mil anos, segundo a qual uma igreja desse gênero teria que ser um recinto oblongo, no qual os fiéis ficariam olhando para leste, na direção do altar- mor onde a missa é rezada. [...] Bramante projetou uma igreja quadrada, com capelas simetricamente dispostas em torno de um gigantesco átrio em forma de cruz. Esse átrio seria coroado por uma imensa cúpula, assente em arcos colossais. Ao que se dizia, Bramante alimentava a esperança de combinar os efeitos da maior construção antiga, cujas ruínas imponentes ainda impressionavam o visitante de Roma, com os do Panteão. [...] Mas o plano de Bramante para S. Pedro não estava destinado a vingar”. GOMBRICH, E. H. A História da Arte…., p. 220.
alta Renascença e que inspirou - apesar das modificações do plano original impostas ao longo dos 120 anos de sua construção pelos vários arquitetos que aí trabalharam - o planejamento das igrejas católicas mais do que qualquer outra igreja renascentista. O plano final adotado em S. Pedro, o da cruz latina (com um dos ramos mais longo, intervenção de Carlo Maderno), com o altar-mor situado diretamente sob a cúpula central, foi uma inovação e um rompimento com a arquitetura da catedral gótica medieval.
Com efeito, ao contrário das catedrais góticas ou das grandes igrejas abaciais, a nova basílica de São Pedro não tinha anteparos isolando o clero dos fiéis. O ponto focal, quando se entra na basílica é o altar-mor, de uso exclusivo para as funções papais, situado sob um baldaquim - obra posterior, levada à cabo entre 1624-1633 por Gian Lorenzo Bernini - de quase trinta metros de altura. Não há indícios de um coro, como nas catedrais góticas. Os ofícios da missa solene do cabido e do coro eram realizados em uma capela isolada numa das naves laterais. Do lado oposto, em frente à capela do coro, havia a capela do Santíssimo sacramento. Havia também a presença de numerosos altares laterais onde missas particulares eram celebradas.
Outro edifício religioso renascentista que influenciou a arquitetura de várias igrejas na Europa e na América Latina - inclusive no Brasil - foi a igreja do Gesù – ou Jesus. Projetada pelo arquiteto Giacomo Della Porta - ou Vignola - para os jesuítas e, erigida em Roma no ano de 1575143. Com razão essa igreja foi descrita como a conciliação entre a forma medieval e o novo estilo centralizado, pois combinava as características principais das igrejas medievais – com seu formato retangular – com as realizações do planejamento renascentista, no qual se enfatizava os interiores espaçosos e iluminados através das janelas da cúpula144. O altar-mor dessa igreja situava-se na extremidade da abside leste, e não diretamente sob a cúpula. Era composta por uma nave espaçosa e transeptos. As naves laterais foram tomadas por capelas situadas nos espaços entre colunas e não havia o coro e nem os anteparos característicos das igrejas góticas medievais. Por essa época, a ênfase arquitetônica nas igrejas paroquiais era o altar-mor. Isso se dava nem tanto pelo altar, mas mais devido à presença neste do tabernáculo como ponto focal. O estilo renascentista chega ao seu apogeu por volta do século XVII e o seu desenvolvimento culmina no estilo – mesmo antes desse tempo - conhecido como barroco145.
143 Id., p. 302.
144 ANSON, P. F. A Construção de Igrejas…., p. 973.
145 Para um estudo sobre o Barroco, remetemos à obra de Argan, In: ARGAN, Giulio Carlo. Imagem e
Persuasão: Ensaios sobre o Barroco. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. Ver também KITSON, Michael. O Barroco. Rio de Janeiro: Expressão e Cultura, 1966, p. 09.
O termo como tal sugere a ideia de algo intrincado ou de forma peculiar146. Assim sendo, as igrejas do período barroco se caracterizam pela abundância de elementos ornamentais e pelo comparecimento do plano oval na construção desses edifícios. Uma das primeiras construções que utilizam esse artifício é a igreja de S. Carlo alle Quattro Fontane, em Roma. Projeto do arquiteto napolitano Giovanni Lorenzo Borromini, a igreja foi construída entre 1638 e 1641. A utilização do plano ovalado apresentava uma estrutura que conferia movimento a todo o corpo da igreja, graças às paredes curvilíneas. Até então, as igrejas haviam transmitido o efeito de se apoiar solidamente no chão, mesmo se tentavam erguer-se aos céus, como no caso do gótico. Agora elas visavam a dar a impressão de movimento no espaço, tornando-se apaixonadas e sensuais, suspensas no ar como bailarinos147. Via de regra, os exteriores das igrejas barrocas não são tão decorados quanto os interiores. Isso acontecia, dentre outra coisas, para se criar um efeito dramático, efeito este, acentuado por outros expedientes como, por exemplo, a utilização da iluminação interior através de janelas ocultas, o uso abundante de elementos decorativos curvos, como as famosas volutas e a preocupação quase escultórica ao se conceber a igreja como um todo. O resultado era que muitas igrejas barrocas tiveram os seus efeitos interiores conseguidos através da utilização de ilusões de ótica e de perspectivas falsas. Os altares, por vezes eram espalhados pelo interior das igrejas, mais para efeitos estéticos do que para a celebração da missa. O que importava definitivamente era que a igreja “parecesse bonita” 148, que transmitisse, dentre
outras coisas, o espírito da fé católica triunfante sobre a heresia do protestantismo. Esse estilo se estendeu por quase toda a Europa e Américas, chegando ao Brasil através da colonização e da evangelização levada à cabo pela coroa portuguesa.
146“Barroco era, originalmente, uma palavra portuguesa que significava uma pérola de formato irregular ou,
como alguns historiadores asseveram, deriva do italiano ‘barocco’, um obstáculo na lógica escolástica medieval. Num ou noutro caso, a palavra circulou num sentido metafórico, no italiano e francês no século XVI, quando significava qualquer idéia enrolada ou um processo tortuoso e intrincado de pensamento”. Id. , p. 10.
147 ANSON, P. F. A Construção de Igrejas...., p. 980. 148 Ibidem.