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2. Opplevelsesbasert reiseliv

2.4 Matching og kundens inngangsposisjon

Quando da publicação da 1ª edição de Urupês, em meados de 1918, o autor, logo à página 03, inseria a seguinte advertência:

Explicação desnecessaria

Entra neste livro de contos uma caricatura que o não é, Urupês. Ella veiu solver o tremendo problema baptismal. E aqui aproveito o lance para implorar perdão ao pobre Geca. Eu ignorava que eras assim, meu Tatú, por motivo de doença. Hoje é com piedade infinita que te encara quem, naquelle tempo, só via em ti um mamparreiro de marca. Perdoas?136

O “Urupês” a que se refere é o famoso artigo publicado originalmente em 1914, no jornal O Estado de São Paulo, e que dará nome ao seu primeiro livro de contos. Este artigo fora inserido ao final do livro, e a advertência, como vimos, na abertura. Na 4ª edição, em 1919, a nota aparece modificada e alongada, mas já em 1920, na 6ª edição, ela desaparece. É possível pensar em alguns motivos para o corte, como certo sentido de limpeza da obra, já que também as ilustrações que

134 “No tocante aos procedimentos de validação, pelos quais testamos as nossas conjecturas […] elas se aproximam mais da lógica da probabilidade do que de uma lógica da verificação empírica. Mostrar que uma interpretação é mais provável à luz do que sabemos é algo diferente de mostrar que uma conclusão é verdadeira. Assim, no sentido relevante, a validação não é verificação. É […] uma lógica de incerteza e da probabilidade qualitativa”. RICOEUR, Paul. Teoria da Interpretação. O discurso e o excesso de significação. Lisboa: Edições 70, 2000, p. 90.

135 Cf GINZBURG. Mitos, emblemas e sinais: morfologia e história. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. 136 LOBATO. Urupês... cit., p. 3.

constavam das edições anteriores serão suprimidas. Porém, aqui nos interessa, não a exclusão, mas a presença da advertência, significativamente ambivalente. Aliás, ambivalência que atravessa todo este curto trecho – vejam-se as elaborações paradoxais “explicação desnecessária” e “caricatura que o não é”, e a mudança brusca entre atitudes opostas, da ofensa para o mea culpa sentimental, no trecho “[...] só via em ti um mamparreiro de marca. Perdoas?” - um pedido de perdão incentivado pela piedade, que mantém o solicitante no mesmo lugar ou em lugar mais elevado. Tudo isso produz uma advertência que é vacilante, destinada, por isso, a despertar algum nível de desconfiança no leitor.

O que a advertência suscita, em primeiro lugar, é o caso da autonomia da criação, ao que parece, a contragosto do autor. Haveria razões que forçariam Lobato a admitir “Urupês”, apesar de ser, como escreve, uma “caricatura que não o é”? A impossibilidade de abandonar o Jeca seria então compensada com esta “Explicação desnecessária”. O detalhe, nada banal, é que Lobato também se sentira impelido a nomear a obra de Urupês.

O caso é sabido – e no trecho o escritor se refere a ele como “tremendo problema baptismal”. Inicialmente, o livro se chamaria Dez Mortes Trágicas, um título que a primeira vista pareceria um tanto deslocado do panorama dos problemas nacionais de então. Na versão alimentada por Lobato, teria sido o médico sanitarista Arthur Neiva o responsável pelo título de Urupês. Dizer que isto representou um “tremendo problema”, significava destacar a importância do processo de constituição do nome da obra, e mais, a própria estruturação do livro – veja o percurso subentendido: primeiro Lobato arranja os contos, logo, após nomeá-los Dez Mortes Trágicas, é compelido a mudar o nome para Urupês. Então, para fazer sentido, insere o artigo homônimo ao final, e, finalmente, compensando o artigo torto, já nas primeiras páginas (e não imediatamente antes do artigo), elabora uma explicação que é uma espécie de advertência, a qual paradoxalmente chama a atenção para aquilo que estaria perdido ao fim do livro, como mera prótese. Se levarmos em conta que o artigo devesse ser a origem de tudo – é o que está suposto na advertência e o que justifica a presença daquela peça – o livro tem a disposição de sua fatura cronologicamente inversa (quer dizer, na primeira edição, “Explicação desnecessária”, os doze contos137 e “Urupês”).

A estruturação da obra pode ser vista como espécie de astúcia do autor. O leitor, após a leitura da advertência, vai se coçar para ir direto àquilo que está discretamente em destaque, posicionado ao fim do livro. Este posicionamento confirma momentaneamente a advertência inicial, já que assim aquela peça apareceria aí apenas como uma sobra indesejável a que se dera

concessão – o deslocamento gera impressão de distanciamento. Mas a distância é aparente e, de novo, ambivalente – afinal, por que a concessão? Como dissemos, a advertência chama a atenção para aquilo que estaria perdido, no fim. Perdido seria só uma sensação vaga; objetivamente, no manuseio do objeto livro o fim é um lado facilmente percorrido. O fim é pois um modo sutil, e ambíguo, de colocar o que interessa no centro. Essa advertência reconecta o que seria afinal o sentido do livro, mas, dada a engenhosa organização de Lobato, sentido suspenso.

Para ficar mais claro, voltemos aos nomes. De um modo específico, os títulos Dez Mortes Trágicas e Urupês se equivaleriam, mas com diferenças. Como já dito, aparentemente o primeiro título não dizia muito em relação aos problemas nacionais, já que o tema “morte trágica” parecia mais um apelo à dimensão universal da arte, como então se dizia138. O título Urupês, ao contrário,

desperta um sentido de brasilidade e cria a expectativa pela cor local, a princípio avessa a problemas metafísicos sobre a morte e o trágico. O título Urupês estaria portanto afinado com aquilo que o grupo em torno de Lobato chamava “o momento”139 - o ambiente de discussão e

refundação do Brasil, pelo qual uma parcela dos intelectuais se sentia responsável. Isto pelo lado das diferenças. Mas Urupês esconde aquilo que Dez Mortes Trágicas explicita: o sentimento de incompatibilidade entre ordens a princípio legítimas, ou, a impossibilidade de escolha entre duas ordens incompatíveis – o que, justamente, caracteriza a tragicidade140 e, como vimos, tem

consequência para a literatura de Lobato: o trágico pode ser um modo de apreensão da série de incompatibilidades históricas que seriam formativas do Brasil. Assim, se “urupês” enquanto signo, na poética sintetizada em sua pronúncia, remete àquela cor local, e neste sentido tem um sinal positivo, o significado do vocábulo tem um sinal negativo – o organismo parasita que faz definhar suas plantas hospedeiras, por sua vez, metáfora de elementos nacionais ou mesmo da sociedade brasileira como um todo. Mas os dois conteúdos – o poético positivo e o crítico negativo – estão entrelaçados nesta mesma palavra, ambivalentemente positiva e negativa. O termo urupês parece carregar, assim, um conflito latente e impossibilitado de solução. É, mais uma vez, a reposição da perspectiva trágica.

Essa mesma ambiguidade se revela na estruturação da obra, a partir do jogo de afastamento e aproximação, suspensão e reafirmação, no espaço de significação gerado entre a advertência

138 Por exemplo, no artigo “Arte regional...”, combatendo o nacionalismo na literatura, Homero Prates escrevia: “Desde que o mundo é mundo só se acclamou e sentiu – e até nós veio nos commovendo – das obras de arte de todos os tempos, o que ellas possuiam de universal e de humano, exclusivamente, o que quer dizer o mesmo, de transcendental e symbolico.” In Panoplia. Mensario de arte e literatura. São Paulo, s.d., p. 2.

139 “O momento”, como vimos no capítulo anterior, era o título de uma espécie de editorial da Revista do Brasil. 140 GUMBRECHT, Hans Ulrich. “Os lugares da tragédia”. In. ROSENFIELD, Kathrin Holzermayr. Filosofia &

introdutória e o artigo final, espaço aliás que se preenche com os contos de Urupês. Esta totalização ambígua que a obra representa pode ser desdobrada no tempo. Curiosamente, a advertência favorece a noção de historicidade do livro, ao apontar para a duração da obra na sua fatura. Entre um tempo anterior (“ignorava”, “eras”, “via” – momento de fatura do artigo “Urupês”), e o tempo atual (“hoje”, momento da fatura de “Explicação desnecessária” e da obra) há um transcorrer qualitativo do tempo, que tem sua percepção intensificada pela inversão cronológica destas peças textuais. O dado qualitativo é fornecido pela mudança de percepção do autor sobre sua criação (ignorava que o Jeca era doente); mas é uma correção motivada por um dado extraliterário (a doença não seria criação literária, mas teria sua realidade atestada pela ciência da época). Portanto, aí ocorre uma suspensão momentânea da ficção para a colocação cuidadosa do que seria um dado da realidade – a doença, que deveria ser concebida e percebida de modo inquestionável, científico, por qualquer leitor coevo. Essa possibilidade de correção evidencia ao que veio a literatura – um determinado tratamento sobre e da realidade: a realidade nacional, os problemas nacionais, origem e fim dessa literatura, sempre abordados por um prisma crítico.

O caso da advertência diz muito a respeito dos procedimentos literários de Lobato, de sua interpretação sobre o Brasil e das (im)possibilidades das respostas ao problema nacional. Arranjados como foram, a nota “Explicação desnecessária” e o artigo “Urupês” formam juntos uma composição dilemática, em que um suspende o sentido do outro, indicando a impossibilidade de se resolver por uma das duas ordens representadas por cada uma dessas peças. Comprimidos entre elas, se desenvolvem os contos de Urupês. A literatura do ciclo de Urupês parece apontar com gravidade e dramaticidade para limites, impossibilidades, inviabilidades de uma nacionalidade brasileira, ainda por se fazer.

Este é um dilema comum na cultura nacional, mas a questão é o modo de tratamento lobatiano, o que coloca o escritor à margem da tradição estética nacional construída durante no século XX. Há em Lobato – em sua literatura adulta e na leitura de sua própria vida – um sentimento trágico (da vida, do país, do mundo), o próprio autor encarnando uma espécie de herói trágico decaído – atente-se para o título de sua autobiografia em cartas, A Barca de Greyre, que faz referência às (suas) ilusões perdidas. Será assim em todos os lances de sua vida, até a aposta final no petróleo. A exceção parece ter sido sua literatura infantil, lugar privilegiado onde se pode dar vazão a uma ingenuidade esperançosa, embora ainda crítica – claro, tratava-se de um universo infantil.

pelo índice de condicionalidade, como se dissesse: “o Brasil será uma nação se...”. Essa condicionalidade não é fechada; ao contrário, abre para a busca da resposta que complete o sentido criativo da nação. Estaria aí a marca de sua literatura: a inviabilidade construída no texto pode querer forçar a busca de uma viabilidade para fora dele, através da consciência despertada por aquele jogo cruel, espécie de enigma que pede uma solução. Esse – a pergunta pelo problema do Brasil – é origem e fim da literatura lobatiana. Dado isto, parece que a literatura lobatiana quer, antes de ser resposta, afirmar-se como pergunta.