MÅL OG FOKUSOMRÅDER
1 Innleiing og samandrag
Mesmo na década de 1950, na mesma altura em que Parsons cimentava as suas teses sobre a família, encontramos trabalhos de investigação pioneiros do estudo sociológico das redes de parentesco, tais como Bott (1971 [1957]),188 que demonstrou o impacto do parentesco na dinâmica interna da família nuclear, e Young & Willmott (1987 [1957]). Já nos anos 70189 encontramos o trabalho de Roussel & Bourguignon (1976)190 e particularmente o de Pitrou (1977 & 1978), o primeiro a descortinar as funções e os sentidos estratégicos, em termo de classe e mobilidade sociais, das redes de solidariedade familiar nas sociedades contemporâneas.
Mais recentemente encontramos os trabalhos de Attias-Donfut,191 Bonvalet,192 Martin193 e Déchaux194 para França, Bawin-Legros195 para a Bélgica e Kellerhals196 para a
186
Como o modelo da “relação pura”, de que nos fala Giddens (1995), acaba por defender. Veja-se, no entanto, que Giddens não afirma esse modelo como uma descrição realista dos processos sociais, mas antes que os actores sociais têm esse modelo normativo e ideológico nas suas acções, o que acaba, pelo poder performativo e constitutivo das representações, por ter impacto sobre as suas práticas. Mas perceber qual o modelo presente nas concepções dos agentes sociais não é explicar o que fazem pelo modelo que têm (implícita ou explicitamente). 187
Ver também Singly (1987). 188
Este estudo, apesar de tudo, é mais interessante sobre o que nos diz da conjugalidade (e da diferenciação de género) do que sobre o que nos diz das relações de parentesco, embora evidencie já alguns dos seus traços centrais (como a troca de serviços e a feminização das linhas de contacto e troca).
189
Embora já em finais de 60 encontremos investigações sobre a persistência de relacionamentos familiares alargados (Rémy 1967). Na década de 70 temos igualmente o trabalho de Villeneuve-Gokalp (1978).
190
Roussel (1976), apesar de dar conta de muitas das trocas, solidariedades e continuidades intergeracionais, entendia, no entanto, as relações entre agregados domésticos da parentela como um “repli affectif”, assim aceitando (então, entenda-se – a sua posição hoje em dia não é essa) a tese da especialização expressiva das relações familiares, mesmo que extravasando dos agregados domésticos de residência, e a tese da relativa adequação (funcional) entre o espaço público e o espaço privado.
191
Ver Attias-Donfut (1995b, 1995c, 1996, 1997, 2000 & 2001), Attias-Donfut & Lapierre (1997), Attias-Donfut & Wolff (1997, 2001 & 2006), Arrondel & Wolff (1998), Attias-Donfut & Arber (2000), Wolff (2000a & 2000b), Attias-Donfut, Lapierre & Segalen (2002), Wolff & Mohamed (2002), Prouteau & Wolff (2003), Attias-Donfut,
Suíça, que vieram demonstrar não só a vitalidade das relações de parentesco, como as suas modalidades sociais e geracionais. De facto, a noção de solidariedade familiar emergiu na sociologia de língua francesa em meados da década de 1980, preocupando-se com as formas de apoio, troca e ajuda no parentesco, nomeadamente face às insuficiências da solidariedade pública.197
Esta foi uma preocupação não só de sociólogos, mas também de historiadores da família, ao analisarem a evolução das estruturas domésticas e as relações intergeracionais (Burguière 1984), bem como a importância das ideologias do parentesco (a força dos laços prescritivos), particularmente como podem ser vistas nas regras de sucessão (Burguière 2003). Neste esforço de investigação colectivo encontramos também a utilização de utensílios conceptuais da antropologia (casa, parentela) para discutir as relações intergeracionais e as solidariedades familiares, explorando nomeadamente exemplos vindos da vida campesina (F. Weber 2003). Para lá dos trabalhos iniciais de cartografia das relações de solidariedade intergeracional, procurou-se, aliás, ir mais longe, pensando, por exemplo, o problema da vulnerabilidade relacional das relações familiares modernas no jogo entre electividade emocional e obrigatoriedade prescritiva (Martin 2003).
É, assim, recorrente encontrarmos as solidariedades familiares, nestas análises da organização relacional do parentesco (particularmente intergeracional – ver Godard 1992), como base da construção económica e institucional da família (Rosental 2003). Muitas vezes salientando as particularidades dessas redes de troca de geometria variável (Pitrou 2003) ou analisando também as forças e fraquezas das solidariedades familiares, ou de todas as solidariedades baseadas na recusa explícita de uma lógica mercantil (Masson 2003a), Wolff & Tessier (2005), Attias-Donfut, Ogg & Wolff (2005a, 2005b & 2005c), Wolff & Attias-Donfut (2005 & 2007), Laferrère & Wolff (2006).
192
Ver Bonvalet et al. (1993), Bonvalet, & Leliévre (1995), Bonvalet, Maison & Le Bras (1996), Bonvalet, Gotman & Grafmeyer (1999), Bonvalet, & Maison (1997, 1999, 2001 & 2002), Bonvalet (2003).
193
Ver Martin (1992, 1993, 1995ª, 1995b & 2003) e Leseman & Martin (1993). 194
Ver Déchaux (1990, 1994a, 1994b, 1996, 2001, 2002), Crenner, Déchaux & Herpin (2000), Herpin & Déchaux (2004).
195
Ver Bawin-Legros & Gauthier (1994), Bawin-Legros & Jacobs (1995), Bawin-Legros, Gauthier & Stassen (1995 & 1997), Stassen (1995), Clokeur, Gauthier & Stassen (1995), Bawin-Legros & Stassen (2002).
196
Ver Kellerhals & Mc Cluskey (1988), Coenen-Huther, Kellerhals & Allmen (1994), Kellerhals, Coenen-Huther & Allmen (1995), Kellerhals & Burton-Jeangros (1995), Kellerhals, Ferreira & Perrenoud (2002).
197
Tendo vindo a demonstrar a complementaridade entre a solidariedade formal e informal (Attias-Donfut & Wolff 1997).
demonstrando igualmente como o estado (providência) pode ser central na manutenção da solidariedade familiar generalizada (Masson 2003b).
Também na sociologia de língua inglesa198 a preocupação com as relações de parentesco intergeracionais (por exemplo, Hareven 1982, Rosenthal 1985) e as práticas de solidariedade (muitas vezes pensadas como obrigações ou responsabilidades familiares – ver Finch 1989, Finch & Mason 1993) esteve e está presente. Relevante neste contexto tem sido o trabalho desenvolvido por Bengtson e seus colegas,199 que deu azo, aliás, a desenvolvimentos que procuram articular a produção anglófona com a francófona (Hammarström 2005), sempre procurando demonstrar como o parentesco contemporâneo se caracteriza pela intensidade relacional. Também aqui tem sido demonstrado que as solidariedades familiares e as culturas de transmissão intergeracional (Cheal 1983; Brannen 2006) não são suficientes para ultrapassar as desigualdades de classe (Garey et al. 2002), apesar de muitas vezes servirem para suprir insuficiência do mercado ou impossibilidade de a tal aceder (Engelhardt & Mayer 1998).
Este esforço de investigação têm demonstrado como as transferências e apoios ocorrem sobretudo de forma intergeracional directa (Favart-Jardon 2002) e descendente (Kohli 1999; Gauthier 2002; Masson 2003a),200 sendo que, de uma forma geral, mesmo podendo existir expectativas de relativa reciprocidade, as gerações mais velhas são motivadas conscientemente por sentimentos altruístas e de obrigação incondicional para com as gerações mais novas. Isto ainda que o carácter prescritivo dessas relações esteja cada vez mais oculto aos olhos dos seus protagonistas, sendo sentido e pensado como afinidade electiva (Déchaux 2002). Essas relações e as solidariedades que produzem, no entanto, demonstram alguma força e persistência mesmo em períodos de ruptura e transformação social (Nauck & Schwenk 2001).
Parte dos trabalhos realizadas sobre estas temáticas têm também desenvolvido network analysis de tipo sociométrico (Acock & Hurlbert 1990; Milardo 1988; Widmer & La Farga 2000; Bien, Marbach & Neyer 1991; Widmer 1999), mas tal linha de questionamento, além de objecto de fortes críticas metodológicas e teóricas (Fortin 1985; Grannis 2010), não tem demonstrado ser a mais profícua em termos de desvendamento das lógicas e processos sociais
198
Tal como em alemão (Kohli 1994, 1996 & 1999) e em espanhol (Meil 2002 & 2006). 199
Ver Roberts, Richards & Bengtson (1991), Bengtson & Roberts (1991), Bengtson, Schaie & Burton (1995), Bengtson, Rosenthal & Burton (1996), Bengtson (2001), Bengtson et al. (2002).
200
O que não quer dizer que não se verifiquem igualmente em sentido ascendente, nomeadamente em relação aos idosos (Vollenwyder et al. 2002; Fontaine, Gramain & Wittwer 2007).
presentes nas relações familiares e de parentesco, nomeadamente na sua articulação com processos sociais mais vastos, tais como os de diferenciação e desigualdades classistas.
Todas estas análises, entre outras investigações igualmente de forte componente empírica,201 vieram não só desmentir as teses funcionalistas de isolamento da família nuclear, que correspondiam a uma radicalização excessiva da proposta parsoniana (Widmer 1999), como vieram igualmente desviar o olhar sociológico da conjugalidade (embora não a ignorem), tema sobre o qual incidiam, em grande medida como resultado das teses de nuclearização, a maioria dos trabalhos de sociologia da família. De facto, o que estes trabalhos mostraram é que não é só nos grupos domésticos que se faz a mobilização dos recursos e se vive quotidianamente a vida familiar, sendo que as sociabilidades e solidariedades familiares em regra extravasam o grupo de co-residência (J. P. Cabral 1991). A industrialização não só não reduziu o grupo doméstico à sua dimensão nuclear (já assim o era consideravelmente), como também não veio romper os laços entre grupos domésticos (Segalen & Zonabend 1986: 659), reconhecendo-se hoje que estes têm também configurações mais ou menos instáveis e variáveis ao longo do tempo (Wall 1997: 1). Além de que só no último meio século se pode encontrar uma co-presença intergeracional alargada (três ou quatro gerações de uma mesma família),202 algo associado às profundas transformações demográficas verificadas nos países desenvolvidos (nomeadamente o forte aumento da esperança média de vida e o envelhecimento das populações). Verificam-se então, hoje em dia, não só ligações estreitas na rede de parentesco (nomeadamente entre gerações), como igualmente uma intensa “produção doméstica” baseada nos múltiplos fluxos de troca e apoio familiares (Attias-Donfut 1997: 45). É, portanto, necessário sair do grupo doméstico para descortinar essas solidariedades alargadas (Attias-Donfut 1996: 317). Os resultados da equipa de Kellerhals (Coenen-Huther, Kellerhals & Allmen 1994) apontam, então, para redes de solidariedade essencialmente de parentesco, com baixo número de membros, ainda que extravasando o núcleo doméstico, fortemente matrilateralizadas, com sobreposição das redes expressiva e instrumental, fortemente verticalizadas (o que de resto é reforçada pela co-presença intergeracional) e de acentuada polarização feminina. De facto, as relações
201
Ver também: Gollac & Laulhé (1987), Barry, Eneau & Hourriez (1996), Degenne & Lebeaux (1997), Degenne et al. (1997), Galland (1997), Vasconcelos (1997, 2002a, 200b & 2005), Segalen (1999), Legros (2002), Renaut (2003), F. Weber, Gojard & Gramain (2003), Edwards, Franklin & Holland (2003), Degenne, Lebeaux & Lemel (2006).
202
Ver Segalen (1986: 526). Sabe-se, aliás, que a presença simultânea de várias gerações de uma mesma família em muito contribui para a transmissão de modelos culturais, para o aumento das trocas e para a reprodução social alargada dessas famílias (Segalen 1993: 191).
familiares (nas sociedades modernas) estão limitadas em muito a relações de proximidade genealógica (Kohli 1996: 16), particularmente intergeracionais e preponderantemente através das linhagens femininas ou, mesmo nas masculinas, operadas por mulheres.
Demonstrou-se, assim, que o parentesco alargado e extra-residencial continuava a ter um papel na vida familiar contemporânea, porque se verificou que, entre pessoas que nas nossas sociedades se diz deverem ser próximas, perduravam, mesmo que em novos moldes, fortes laços, proximidades e solidariedades. Constatou-se, então, que as solidariedades e apoios familiares funcionam com base em redes de pessoas (particularmente de parentesco) que são concomitantemente redes de bens e serviços que circulam. Estas redes não se apresentavam como uma sobrevivência arcaica do passado, nem uma espécie de último reduto expressivo e afectivo contra uma suposta excessiva instrumentalidade e desumanização funcional das relações sociais, tendo antes uma funcionalidade própria no seio das dinâmicas familiares e da sua autonomia relativa no âmbito das relações sociais alargadas. As relações de parentesco teriam, assim, “utilidades sociais”, das quais a mais oculta seria a económica (Déchaux 1990 & 1994ª). O seu papel económico seria hoje menos evidente, devido à autonomização histórica do campo da produção económica segundo uma lógica de mercado, bem como à concomitante privatização e ideologização expressiva das relações íntimas e familiares. Mas ser menos evidente não é ser não existente. Na realidade, as solidariedades familiares (particularmente as intergeracionais, de todo as mais comuns) têm uma importância relevante não só na economia das famílias (Déchaux 1996), como também nas suas vidas quotidianas (Stassen 1995) e trajectórias sociais (Pitrou 1977 & 1978).
Existe, desta feita, todo um reservatório de parentesco (Coenen-Huther, Kellerhals & Allmen 1994: 55 e ss.) na base das solidariedades familiares, cujas configurações é necessário indagar. Do ponto de vista de uma análise do capital social, é necessário reconstruir as estruturas específicas de apoio das famílias e indivíduos, para tal reconstruindo os mapas reais das redes de apoio na sua diversidade. Até porque, as redes não são terrenos homogéneos, pois o “termo rede não é casual: indica uma pluralidade de direcções, um entrelaçado de relações e de trocas nem sempre directas ou lineares” (Saraceno 1992: 68). Daí, aliás, o recurso à noção de “parentela” (Freeman 1961; W. E. Mitchell 1963),203
que desfaz a rigidez da noção de grupo de parentesco, para salientar a sua natureza de rede de relações inter- pessoais (Déchaux 2002).
203