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Ao finalizar esta parte do trabalho, em que relatamos a história destes dois jovens, tecemos nos parágrafos abaixo algumas considerações.

Ainda que o objetivo não fosse reinserir os jovens com freqüência e regularidade na vida escolar, não podemos deixar de registrar nosso contentamento ao saber que os dois retornaram à escola e a estão freqüentando.

JR está num colégio público, próximo deste onde realizamos a pesquisa, e estuda durante o dia. Alemão está estudando à noite na mesma escola onde era monitor de informática. Não sabemos o que aconteceu com os outros quatro rapazes que conhecemos durante a pesquisa.

Ao encerrarmos esta etapa, refletimos sobre os fatores que foram marcantes na trajetória escolar destes dois jovens. Alemão já começou em defasagem em relação a seus colegas que freqüentaram a pré-escola. Chegou sem ser alfabetizado e sofreu com a falta de paciência de sua primeira professora.

Esta marca, parece que Alemão a carrega consigo até hoje, a exemplo das histórias de vida e autobiografias relatadas por Sousa et. al.(2005, p. 12):

Um senhor lembra de uma ocasião em que foi mudado, na escola, da primeira fileira (a dos melhores alunos) para a última (a dos alunos “ruins”), porque não tinha meias e o inspetor escolar não podia ver “falhas” na classe da professora. Essa mudança de lugar não fez dele um mau aluno e seguramente não significou nada para a professora – mas sessenta anos depois ele, ainda, lembra com raiva da humilhação que sofreu.

Se, na primeira série, ao surgirem as primeiras dificuldades, Alemão tivesse sido acolhido por sua professora, ao invés de ter “levado uns tapas”, seu processo de escolarização seria de sucesso?

Caso sua família tivesse um maior grau de comprometimento e entendimento na situação da passagem dele do diurno para o noturno da escola e ainda do curso regular para o supletivo, Alemão teria prosseguido seus estudos e não perdido meio ano?

Tais perguntas não justificam o fato dele ser indisciplinado e atrapalhar a aula. Contudo, fica a sensação de que este atrapalhar era apenas uma reação frente a um problema que ele não sabia resolver, tal qual na Matemática, em relação à qual está tendo dificuldades e já começa a atrapalhar seu professor e colegas.

JR, que parece ser um jovem com fala articulada e pensamentos coerentes, também sofreu e sofre com tantas mudanças de escola. Além disso, chega um momento em que já não tem mais desejo de permanecer diariamente em sala de aula. Ele mesmo diz: “Não sou santo”, mas o que será que o faz fugir da escola? Será que as práticas que permeiam este universo o cansam e ele se ausenta? O fato de uma única vez ter citado uma atividade prazerosa faz-nos pensar que para ele a escola da maneira como está, é um tédio. Talvez este jovem tenha um potencial grande e muita energia para gastar e ficar sentado tantas horas seguidas num mesmo espaço, parece-lhe insuportável. Tanto que ele cita várias vezes as atividades extraclasses com conotação positiva.

CAPÍTULO III – CONSTRUÇÃO DE UM NOVO OLHAR SOBRE A EXCLUSÃO ESCOLAR

No início desta pesquisa, tínhamos o olhar voltado para a temática da exclusão escolar. Ao passarmos pela banca de qualificação, foram feitos questionamentos acerca do que viria a ser exclusão escolar e se o momento vivenciado pelo grupo de jovens realmente seria o de um processo excludente. Havia indícios de que os jovens não estavam excluídos da escola.

A princípio, pensávamos que eles estavam fora da escola, que não a freqüentavam mais. Porém, através das observações de campo e com o decorrer das entrevistas, fomos percebendo uma dinâmica de entrar e sair da sala de aula e da escola, como num jogo em que eles atuavam sozinhos, sem uma equipe de arbitragem, uma vez que os profissionais da escola não se mobilizavam para inseri-los novamente na instituição.

Pelo que os jovens nos relataram, havia dias em que eles entravam na escola, iam para a sala de aula, participavam e até faziam lição, dependendo do professor. Em outros dias, decidiam entrar, mas logo iam para o pátio ou para a quadra. Em outras situações, nem chegavam a entrar na escola: permaneciam ali em sua porta, conversando com os amigos e, decorrido algum tempo após o horário oficial de entrada, retiravam-se dali.

Assim sendo, entendemos que o conceito de exclusão não dava conta de explicar o processo de escolarização vivido por esses jovens.

Ao começar a enxergar esta problemática, ficamos nos questionando que modo de vida escolar seria este vivenciado por eles. Gradativamente, fomos formulando a idéia de que estavam incluídos, sim, na escola, mas de uma maneira adversa. Em alguns momentos, participavam da vida escolar e, em outros, a abandonavam temporariamente – o que consideramos um sinalizador de que algo não ia bem. Esta situação ambígua nos fez pensar que esta experiência vivenciada por eles poderia ser identificada como parte de um processo de escolarização precária cujo conceito fomos construindo ao analisarmos o modo pelo qual

os jovens experimentavam e construíam sua relação com a escola: instavelmente.

Conforme o dicionário Larousse Cultural, precário significa: que tem pouca estabilidade. A partir desta idéia, pensamos na incerteza e na insuficiência do modo de vida escolar ora analisado. Considerando que estes jovens estão perdendo oportunidades de se desenvolverem dentro dos padrões estabelecidos oficialmente para sua faixa etária, aproximamo-nos dessa idéia de instabilidade, de precariedade escolar. Neste movimento, há um débito em relação à aprendizagem e ao desenvolvimento dos alunos.

A prática de entrar na escola no dia em que desejavam, parecia não ser vista como problema para os profissionais daquela unidade educacional, tanto que esta regra foi aceita pela escola e tornou-se parte da rotina local. As pessoas passavam com naturalidade pelo meio do grupo constituído pelos jovens, conversavam, cumprimentavam-se e adentravam a instituição.

Tal prática – sair da escola – é aparentemente muito próxima daquela aprendida com seus professores que os colocavam para fora da sala logo no início da aula. Sabedores de que iriam ser convidados a sair do ambiente ao apresentarem um comportamento inadequado, criaram a estratégia de conversar, jogar bolinhas de papel nos colegas, andar pela sala e bater nas carteiras fazendo barulho. Tornou-se comum o jogo de entrar e sair da sala de aula.

A idéia de exclusão que tínhamos anteriormente, já não dava conta de registrar os modos vivenciados pelos sujeitos em suas trajetórias escolares. Tal conceito tornou-se insuficiente para descrever os processos de escolarização vividos pelos jovens entrevistados. Assim sendo, surge a necessidade de nova conceitualização sobre o que seria exclusão e se utilizaríamos tal conceito.

Desta maneira, fomos verificar o que a literatura apresentava mais recentemente sobre o conceito de exclusão. Elegemos principalmente Sawaia (1999) e Martins (1997) como nossa referência para tal conceitualização. Esclarecemos que estes não falam especificamente sobre

o termo exclusão escolar, mas sim sobre exclusão social.

Com base nos autores acima mencionados, começamos a refletir sobre o que deixaria de ser um problema de exclusão e passaria a ser denominado escolarização precária, uma vez que os jovens não estavam oficialmente fora do sistema de ensino e, além disso, freqüentavam a escola, ainda que intermitentemente.

Assim sendo, em textos da Sociologia, encontramos um olhar mais problematizador para o conceito de exclusão. Recentemente ela era responsabilizada por tudo e tinha que dar conta de tudo, assim como, em algum momento, a culpada pelas desigualdades em nosso País era a dívida externa.

Foi-se, então, delineando um novo texto e, no item abaixo, fizemos uma construção baseada na literatura e na rotina diária das escolas.