• No results found

O estudo da cultura das organizações permite a compreensão de suas complexidades, da realidade construída pelas pessoas que nela convivem e lhe são próprias.

Os estudos acima citados, às luzes das perspectivas da Integração, Diferenciação e Fragmentação, permitem um mergulho na organização em estudo, um mergulho profundo e abrangente. Se a lente de determinada perspectiva deixa pontos obscuros, a outra os clarifica, permite-lhes aflorar (MARTIN, 2002).

Conforme Martin ( 2002), a cultura consiste em padrões de significados que conectam as manifestações culturais em conjunto, às vezes, em harmonia, outras vezes, em conflitos entre grupos e, ainda, entrelaçados em teias de ambigüidades, paradoxos e contradições. O conjunto de significados interpretados pelas pessoas que convivem entre si carregam elementos de integração, diferenciação e fragmentação.

2.1.5 Aspectos metodológicos e cultura organizacional

O objetivo deste último tópico é mostrar os aspectos metodológicos dos estudos de cultura organizacional por meio de textos que visam enaltecer esse tema, a fim de esclarecer os conhecimentos sobre o homem no seu trabalho a partir de abordagens interpretativas.

A proposta de Rossato Neto e Cavedon (2006) é analisar a inserção da psicanálise na obra de Prestes Motta e compreender a relação estabelecida por ele entre a psicanálise e a cultura organizacional. Prestes Motta valoriza e defende a utilização da psicanálise para que se possa entender a cultura nas organizações.

Os autores buscam, nos capítulos e nos livros de Prestes Motta, identificar e analisar como os conceitos que nos reportam à psicanálise são utilizados. A seguir, por meio de pesquisa na Revista de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, é elaborado um quadro que mostra como o autor constrói, ao longo de sua trajetória acadêmica, essa relação entre psicanálise e estudos organizacionais.

Ao final do trabalho, os autores levantam um questionamento importante para discutir os estudos organizacionais. Como e quem tem legitimidade para utilizar-se dos conhecimentos, seja a psicanálise e/ou seja a cultura, de forma a não ferir

aspectos relevantes para os ramos dos conhecimentos citados, muitas vezes, limitados pela falta de domínio de certos elementos cruciais de cunho teórico-prático.

No trabalho de Mascarenhas (2002), o objetivo é discutir possíveis contribuições da Antropologia à Administração, utilizando-se de conceitos básicos daquela disciplina em estudos organizacionais.

Ao final, o autor nos oferece a possibilidade de analisar as relações sociais dentro de uma organização a partir de uma abordagem microscópica com a utilização do método etnográfico em pesquisas sobre cultura organizacional, a partir de uma abordagem interpretativa. Conhecer a realidade sócio-cultural e o universo simbólico de uma organização distancia-nos da abordagem macroscópica, típica da administração, para outra que nos possibilite conhecer mais profundamente as estruturas culturais dessa organização ou de parte dela.

Cavedon (1999) tem como objetivo problematizar e avaliar a contribuição do método etnográfico quando aplicado em estudos interdisciplinares, no caso específico, em pesquisas voltadas para o campo administrativo. Esse método é um ensaio teórico, uma abordagem interpretativa e uma pesquisa bibliográfica.

O método etnográfico tem origem no campo antropológico e, ao ser trazido para o espaço administrativo, revela dificuldades inerentes aos estudos interdisciplinares, cujas diferenças podem estar situadas na própria concepção de ciência que envolve cada uma das disciplinas chamadas a dialogarem entre si.

Para aproximar as duas ciências, a Antropologia e a Administração, requer-se a retomada de seus pressupostos teóricos para, a partir de então, verificar as implicações que tais referenciais possuem sobre a atuação prática daqueles que buscam o desvendamento da cultura organizacional à luz da etnografia.

Nas últimas considerações, a autora propõe a flexibilização nas ciências em questão, mantendo-se os princípios fundamentais das mesmas, de modo que as duas possam se beneficiar.

Serva e Jaime Jr (1995) objetivam informar sobre o desafio de reconstruir as teorias que visam ampliar a compreensão dos fenômenos humanos nas organizações produtivas, a partir de um trabalho em andamento.

Por meio de pesquisa empírica e abordagem interpretativa, os autores apresentam a observação participante em quatro organizações. Na observação participante, é imprescindível que ocorra uma mudança profunda na postura do pesquisador. Este deve assumir postura de antropólogo quando se encontra em

campo. Um grande esforço pessoal será exigido do pesquisador, já que habilidades de ordem comportamental devem ser desenvolvidas.

Por haver acesso direto aos fatos e situações, as possibilidades de ampliação do melhor entendimento dos processos organizacionais com essas pesquisas podem causar surpresa aos componentes das organizações.

O trabalho de Mageste, Mendes, Cappelle (2006) tem a intenção de identificar, descrever e analisar algumas representações da mulher que trabalha e do trabalho feminino em filmes brasileiros, lançados nos últimos dez anos. Por meio de pesquisa empírica, abordagem interpretativa e a análise fílmica de quatro filmes, de gênero e de conteúdo, os autores fazem tal análise.

Aguiar (2005) apresenta uma forma ampliada de utilização prática do Modelo de Dinâmica da Cultura proposto por Mary Jo Hatch (1993).

Por meio do modelo original, constrói-se um raciocínio em que os quatro processos de dinâmica da cultura podem ser vistos como quatro domínios ou aspectos manifestos de uma mesma realidade, integrando a análise de aspectos objetivos e subjetivos da organização.

Como resultado, a autora pôde construir uma estrutura de trabalho em que os quatro processos de dinâmica da cultura puderam ser observados como quatro domínios ou aspectos manifestos de uma mesma realidade. Esses aspectos estariam em relação simultânea e contínua de interação e interdependência na construção da realidade organizacional. Extraiu-se, assim, uma lógica de análise organizacional integrada e ainda não explorada.

Mendonça (2002) objetiva oferecer visão geral do interacionismo simbólico e de suas principais idéias, bem como sugerir temas em que estas perspectivas teóricas possam ser adotadas para os estudos das organizações. O interacionismo simbólico refere-se ao caráter peculiar da interação e como esta acontece entre os seres humanos. Esta peculiaridade da interação humana consiste no fato de que os seres humanos interpretam as ações uns dos outros, ao invés de apenas reagir a essas ações. O autor faz pesquisa bibliográfica e adota abordagem interpretativa. Ao final, mostra que a aplicação do interacionismo simbólico, originário da Sociologia, nos estudos da cultura organizacional, serve como estímulo aos estudiosos da área para perceberem novas possibilidades e novas relações entre categorias analíticas.

A utilização do método etnográfico em pesquisas, por exemplo, sobre cultura organizacional, em abordagem interpretativa, oferece a possibilidade de analisar as

relações sociais de maneira que se possa vivenciar as situações com maiores níveis de detalhe. Além disso, possibilita o conhecimento mais profundo das estruturas culturais, que não é muito comum da ciência administrativa.

Além de possibilitar a compreensão mais profunda da condição humana nas organizações em todas as suas dimensões, o conhecimento antropológico permite a formação de um quadro mais realista dos desafios com os quais os administradores defrontam-se diariamente.

Parece pertinente que os administradores, envolvidos em suas organizações, devam reconsiderar os supostos riscos, limitações e deficiências suscitados por utilizarem métodos como o etnográfico e abordagem interpretativa, por exemplo, e entender a possibilidade de avanço na produção de conhecimento de alta qualidade. Isso pode ser revertido para benefício das organizações, particularmente, nas análises que envolvem os processos de mudança.

Pode-se evidenciar que a relação de cultura e mudança é muito próxima. Parece tarefa difícil desconsiderar os cenários de problemas, crises pelas quais várias empresas passam a todo momento, acenando que a necessidade de mudança é imperativa. Mudança de objetivos, no processo de comunicação, no sistema de recompensas, na seleção e na estrutura organizacional, leva as organizações a um processo de concordância cultural em torno dos valores de uma nova subcultura – subculturas que vêm alinhar a novos interesses das organizações.

A seguir, será tratado o tema – mudança – levando-se em consideração sua importância ao longo da história. Uma abordagem do ponto de vista da mudança enquanto algo causador de profundas alterações da visão de mundo das pessoas que compõem as organizações. São feitas algumas observações de mudança e inovação e, por fim, apontam-se as implicações comportamentais da mudança.