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Lipietz (2012) define ecologia política como “um estado de espírito, que colhe flores nas outras ciências para unir em um buquê” (LIPIETZ, 2012, p. 23) tentando se equilibrar para não privilegiar mais uma do que outra. O que tem de novo, é que além dessa discussão entre cientistas sociais e naturais para a gestão da natureza, existe hoje essa enorme participação do grande público através da internet.

Lipietz defende que o papel da ecologia política não é valorizar a oposição estéril entre a domesticação racionalista da natureza, à francesa, e a preservação romântica da selvageria (LIPIETZ, 2012, p. 43):

C’est sur quoi j’ai voulu insister, à partir de l’exemple du paysage, c’est qu’il n’y a pas une muraille de Chine entre l’ecologiste sociale et l’ecologie profonde. L’apprentissage de l’alterité que nous offre la nature est la base plus solide du “Tu ne

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Anotações feitas em palestra na sede da ONU em Paris, 30 de novembro de 2012, no evento Assises du Vivant.

tueras point”, et, au-délà, du príncipe de solidarité comme du príncipe de responsabilité. (LIPIETZ, 2012, p.46)24

Lipietz questiona a necessidade de fazer essas comparações, entre os diferentes tipos de ecologia. Em certo ponto, corroboramos com o autor, não existe uma fronteira tão definida, diferentes pontos da rede analisada possuem características de mais de um tipo. Mas, a riqueza da metodologia da cartografia de controvérsias está justamente nessa contraposição entre diferentes pontos de vista, por isso toda a nossa categorização versa para visualizar isso.

Dentro desse cenário, descrito até aqui, e sintetizado na linha do tempo em anexo, aconteceu a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20, com a presença de líderes de governo, empresas, ONGs, setor privado e instituições educacionais na cidade do Rio de Janeiro, em junho de 2012. O tema principal foi a economia verde no contexto da erradicação da pobreza, com sete áreas em destaque: empregos, energia, cidades, segurança alimentar, agricultura, água, oceanos e clima25. Percebe-se claramente a intenção da ONU de promover uma gestão global para as políticas de recursos naturais.

Ao mesmo tempo, ocorreu no Rio de Janeiro outra conferência, bem diversa dessa última, a Cúpula dos Povos26, encontro de movimentos sociais, ONGs, sindicatos e partidos políticos (principalmente dos de orientação socialista e marxista) para afirmar o contrário do defendido na Rio+20, conforme na sua declaração final:

A dita “economia verde” é uma das expressões da atual fase financeira do capitalismo que também se utiliza de velhos e novos mecanismos, tais como o aprofundamento do endividamento publico-privado, o super-estímulo ao consumo, a apropriação e concentração das novas tecnologias, os mercados de carbono e biodiversidade, a grilagem e estrangeirização de terras e as parcerias público- privadas, entre outros. (CUPULA, 2012, on-line27)

Por essa declaração explícita contra a política da ONU de gestão da natureza, percebe-se a existência de uma controvérsia. A ‘gestão’ da natureza na contemporaneidade se da através da negociação global entre atores, que discutem a questão ambientalista em esferas oficiais, como ocorreu na Conferência Rio+20. Mas também pela manifestação individual, local, efêmera, de sujeitos informacionais fractais, como os que participam de

24 Isso é o que eu quis enfatizar, a partir do exemplo da paisagem, que não há muralha da China entre a

ecologia social e a ecologia profunda. O aprendizado da alteridade que a natureza nos oferece é a base mais forte do "Não matarás", e além do princípio da solidariedade como do princípio da responsabilidade (LIPIETZ, 2012, p.46) Tradução nossa.

25 Disponível em: <http://www.uncsd2012.org/about.html>. Acesso em: 3 mar. 2012. 26

Disponível em: <http://cupuladospovos.org.br/>. Acesso em: 18 maio 2012.

27 CÚPULA dos povos na Rio+20 por justiça social e ambiental em defesa dos bens comuns, contra a

mercantilização da vida. 2012. Disponível em: <http://cupuladospovos.org.br/wp- content/uploads/2012/06/Carta-final_Cupula-dos-Povos.pdf>. Acesso em: 23 jun. 2012.

movimentos sociais como o Movimento Xingu Vivo Para Sempre e a Via Campesina, que organizaram o evento Cúpula dos Povos.

Essa diversidade, por si só, representa um desafio para a pesquisa em ambientes colaborativos dos espaços virtuais (MOURA, 2009) e é a partir dela que iniciamos nossa cartografia da gestão da natureza na web.

3 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

A apreensão teórica do problema pesquisado exigiu a interface entre duas vertentes teóricas relacionadas: 1) a teoria peirciana da semiótica, com ênfase no pragmatismo relacionado ao conceito de meme (DAWKINS, 1976; BRODIE, 1996); 2) as teorias que conceituam as Redes Sociais e a influência das novas tecnologias sobre os sujeitos informacionais e suas práticas de mediação; com ênfase na Teoria Ator-Rede - TAR (LATOUR, 2006) que culminam nas cartografias de controvérsias (VENTURINI, 2010; LATOUR, 2011; BRUNO, 2012), que por sua vez explicitam a existência de regimes de informação (FROHMANN, 1994, 1995; GOMEZ, 2012).

A justificativa da proposição da interface foi devida, em um primeiro momento, à necessidade de visualizar as redes por onde perpassam os conteúdos sobre ambientalismo e saúde do planeta. A Análise de Redes Sociais (ARS) possibilita a visualização da rede de sujeitos e dos fluxos informacionais, para que sejam posteriormente analisados com instrumentais metodológicos transdisciplinares. No caso das redes ambientais na internet, são necessários olhares da geografia, da história, da economia e da cibercultura, no mínimo, que devem harmoniosamente montar um panorama geral.

A necessidade de análise dos processos de produção de significações emitidas pelos sujeitos que formam as redes do movimento ambientalista vêm de encontro ao instrumental da semiótica. Sob esta referência conceitual é possível compreender não só a lógica estrutural da linguagem digital, mas também caracterizar a internet como meio intelectual, pois é a ideologia de um determinado usuário, com todas as suas características culturais, que o faz utilizar a potencialidade de ferramentas de interação sob determinados propósitos.

Nesse contexto, exploraremos o conceito de ‘regime de informação’, desenvolvido por Frohmann (1994, 1995) a partir da TAR, como sistemas estáveis nos quais os fluxos informacionais circulam, ressaltando-se canais específicos, que são estruturas organizacionais para consumidores ou usuários. A TAR está especialmente dedicada a encontrar não as grandes rodovias de informação, mas sim as pequenas ruazinhas por onde perpassam muitas opiniões diferentes.

A TAR foi desenvolvida por B. Latour, M. Callon e J. Law, entre outros autores, na década de 1980. Depois, teve inúmeros desdobramentos, principalmente nas áreas de ciência, tecnologia e sociedade. No Brasil, o curso de pós-graduação de Antropologia da

Ciência e da Modernidade da Universidade de São Paulo (USP)28, em 2011, foi o primeiro a tornar-se um curso voltado para a análise de cartografias de controvérsias sócio técnicas. E foi em 2011 também que no simpósio da Associação Brasileira de Cibercultura, que reúne pesquisadores da Comunicação Social e Ciência da Informação, houve a mesa “Teoria Ator- Rede e Cibercultura”29.

Embora não se considere nessa pesquisa que ocorra uma hierarquia entre os vértices teóricos, a semiótica peirciana será apresentada primeiramente, de forma mais ampla, por ser uma filosofia fenomenológica através da qual se pretende pensar os outros referenciais. Em seguida, nessa ordem, serão apresentadas a Análise de Redes Sociais (ARS), a Teoria Ator-Rede (TAR), os regimes de informação e os conceitos sobre as cartografias de controvérsias.