Compreender melhor o cotidiano e a identidade dos moradores do Dendê é um esforço que percorre todo este trabalho. Poderíamos parafrasear a professora e pesquisadora Alba Zaluar (1994), perguntando “quem são os pobres do Dendê ?” A identificação do Dendê como uma comunidade pobre justifica-se pelo que foi exposto, na forma como a região foi consolidada e pelo perfil socioeconômico apresentado pela pesquisa do Dendê. Identificá-los dessa maneira, no entanto, é insuficiente para a compreensão de como vivem essas pessoas, por isso a dimensão do cotidiano, amplamente discutida no Capítulo 2, é tão relevante para o presente ensaio.
No estudo sobre a produção dos sujeitos que nos propomos realizar é relevante compreender a dimensão que a violência tem na vida dos moradores do Dendê, visto que essa idéia do “modo total de vida”, como identificava Williams (1969), precisa ser perscrutada para que a compreensão da cultura dialogue com o que nem sempre está visível, aparente: as subjetividades dessa gente.
Esses “entre lugares” (BHABHA, 1998) é que vão possibilitar aos habitantes de um bairro periférico perceber-se no mundo, com identidades múltiplas e dinâmicas de resistência constituídas a partir do cotidiano. Ressignificar o cotidiano, como defende Martín- Barbero, é deixar entrever toda a complexa teia de relações sociais vividas, podendo-se dizer que o tecido cultural é o lugar da resistência e que, no caso do Dendê se revela de modo mais contundente nas feiras semanais de Economia Solidária. A feira – podemos ressaltar - é a síntese da hibridação cultural, nos moldes propostos por Canclini.
Se, dentro do bairro, seus partícipes se nomeiam de um modo complexo, para os de fora, porém, eles parecem responder, em alguma medida, às representações redutoras que sobre si são feitas e que reduzem toda a pulsante vida que ali palpita ao termo “violenta”.
Se a referência ao contexto da violência seria importante - uma vez que sob esse signo disjuntivo uma visão oblíqua e uma especular se conflitam e entredevoram – não daria, porém, conta de falar de cotidiano e história, memória e criação, diáspora e enraizamento; não é possível reduzir o conjunto das relações que falam da resistência, como da reprodução à idéia de violência.
Faz-se necessário exprimir, ainda, que a identidade de “lugar violento” é um dado de realidade que mostra como os de dentro da comunidade lidam permanentemente com as representações que sobre si fazem os de fora e que são tipificadas, como vamos ver, no modo como se erigem a visão e a voz autorizada da UNIFOR no contexto do programa Momento Saúde.
Nesta ocasião, seria importante observar como há alguns textos ou objetos simbólicos que são geradores de comunicação e funcionam como catalizadores de uma discussão coletiva sobre os habitantes do Dendê, que tenta defini-los como sujeitos. Vimos como textos de jornais e notícias que nomeiam a população do Dendê como violenta resultam por funcionar como condensadores desses núcleos discursivos explosivos, que apontam para definições de lugares e identidades da população do Dendê. Assim é que esses temas nucleiam um conjunto de visões em luta no próprio espaço sígnico, que é a recepção.
Ampla reportagem do Jornal O POVO, publicada nos dias 09 e 10/05/05 denunciava que no bairro havia cobranças de pedágios feitas por membros de gangues rivais. A matéria causou grande alvoroço na comunidade. No dia da publicação, forte esquema de segurança foi montado pela Polícia Militar com a clara intenção de responder ao que a matéria jornalística apontava: uma fragilidade no aparato de segurança pública no bairro.
A imagem de um 'magote' de meninos jogando bila num recuado, entre a areia e o calçamento solto, dá sinais de que a rua do Coqueiro é tranqüila como qualquer outra onde ainda se brinca com 'cabeçulinhas'. A calma aparente engana os forasteiros. Olhares desconfiados, os poucos jovens e adolescentes se aglomeram nos muros para saber o que fazem ali repórter, fotógrafo e motorista a observar uma pichação onde se lê: ''AG, Daniel Pezão''.
- Qual foi?
- Somos do jornal O POVO.
- Tão fotografando aí por quê? - Só fazendo imagens da rua... Como é o nome daqui?
- Rua do Coqueiro ou rua da bala (risos). - Rua da bala?
- Sim. Quem é de lá (final da rua, 'fronteira' com a favela da Baixada) não pode passar por aqui, senão morre e quem é daqui não pode ir pra lá...
- Morrem? - Sim, matam - Quem mata?
- O pessoal da Baixada. - E aqui, quem é que mata?
- Ah, a galera da ''G'' (ou AG). Viu o Pezão? Foi preso, é... - (outro intervém) Tá falando demais, chapa, fica calado aí...
- Quer dizer que vocês são proibidos de passar pra lá e quem é da Baixada não pode vir pra cá...
- É.
- E quem estuda, como faz para chegar à escola se tiver de passar por lá? - Num faz. Estudar o quê? Só se for eles aí, eu mermo num estudo não. - E quem trabalha?
- Passa por outra rua, vai pela Baixada mermo. Aqui não. - E se a gente for lá na Baixada?
- É, só acho que vocês vão perder a máquina (fotográfica).
Mais adiante, a Baixada. Parada na sede do time do Cruzeirinho, para saber onde fica o campinho. Há alguns fins de semana, a quadrilha do AG, segundo moradores, eliminaram um por lá. Fotos, apenas duas. Proibido.
- Que é isso aí, me irmão? - Uma foto, aqui, do time...
- Fotografe não, que porra é essa... (por segurança a equipe de O POVO foi convidada a se retirar do local) (DEMITRI TÙLIO, 2005).
Depois que esse problema (a violência) explodiu na mídia, parece que a polícia se sentiu no direito de intervir, tentar acalmar, então prenderam algumas pessoas (Diretor da Rádio Comunitária Edson Queiroz, morador do bairro há 25 anos).19 A mídia quando vem, escancara: aqui é uma favela, só tem marginal. A violência tá na Aldeota, mas isso não sai na mídia (Dália)20
A polícia foi criada para oprimir a gente, as pessoas periféricas (Jasmin)21
Embora não reconheçam o Dendê apenas como um espaço de violência, os moradores têm consciência da presença das gangues no local e de atitudes violentas que
19 Entrevista realizada no dia 15/06/2005.
20 Depoimento de Dália (nome fictício) após a apresentação do programa Momento Saúde que tratou do tema
violência doméstica, abuso sexual e violência psicológica. Dia 13/06/2005.
acontecem, mas têm também muita clareza de que isso não é um privilégio da área, mas percebem que a violência está disseminada em outros pontos da Cidade.
Um dos fundadores da Rádio Edson Queiroz afirma que o tempo e as mudanças pelas quais o bairro passou trouxeram, como uma das conseqüências, a violência.
O bairro ficou culturalmente pobre, as pessoas ficaram assim ignorantes então isso gerou o quê ? Gerou violência entre os jovens, essa coisa de gangue, hoje está calmo, mais há uns dois anos isso era um problema muito sério e foi até notícia de jornal e tudo. Ficou calmo depois que esse problema se expandiu na mídia, televisão e jornal, então a polícia parece que achou-se no direito de intervir, tentar acalmar aí se prendeu algumas pessoas que pareciam ser as cabeças da coisa, então isso acalmou. O Daniel Pezão era um deles, que eles chamavam de chefe das gangues, essas coisas todas. Na verdade a briga era só entre eles, e eles, a minha análise, era que eles mal prejudicavam as pessoas, só se tivessem no caminho deles na hora da briga deles e se metessem no meio aí talvez saísse prejudicado, mas na verdade a briga era só entre eles (Entrevistado n.1)22
O ex-presidente da Associação dos Moradores da Água Fria também concorda com a idéia de que o bairro está mais calmo depois da ação da polícia.
Eu atribuo justamente a um trabalho que a polícia fez, a Polícia Civil colocou algumas pessoas realmente na cadeia. [...] Nós temos uns determinados grupos que entram em conflitos e que eles estavam numa briga, numa questão de quem mata mais, a disputa era essa. A gente sabe que a polícia vai lá e faz o trabalho dela e a justiça, por sua vez, através dos advogados, através dos recursos, as pessoas acabavam voltando para a rua e fazendo o que eles faziam que era de costume fazer (Entrevistado n.2)23
Ele também atribui ao Dendê um alto consumo de drogas, especialmente o crack e a maconha. Para ele, a maioria dos consumidores é do próprio bairro. “Nós temos aqui criancinhas de 11 anos, criancinhas que os pais estão presos e elas estão ali vivenciando a situação do tráfico de drogas e depois é mais fácil para a criança permanecer” (Entrevistado n.2).
Uma das enfermeiras e professora da Universidade de Fortaleza, que atua na comunidade há mais de 20 anos, concorda com a noção de que o bairro se modifica com o tempo; tem aumentado consideravelmente o contingente populacional. Apesar de garantir que nunca foi vítima de qualquer tipo de violência, a professora considera a violência e o desemprego os dois principais problemas do Dendê.
O que faz a promoção da saúde é a paz. Os problemas que a gente encontra lá são problemas comuns a todas as comunidades, que é a questão do desemprego, a
22 Entrevista realizada no dia 15/06/2005. 23 Entrevista realizada no dia 07/07/2005.
prostituição infantil. São meninas novas, desocupadas, desempregadas... e a violência mesmo. Eu conheço muita gente, de muito tempo; não tem uma rua que não tenha duas ou três pessoas que não conheçam a gente. E hoje os bandidos que estão lá, às vezes são crianças que eu vacinei. Já têm meninas que eu fiz o pré-natal da mãe delas grávidas delas e hoje a gente acompanha o pré-natal da filha. Agora eu tenho muito respeito quando eu entro. Eu oriento os alunos a não entrar fazendo balbúrdia, falando alto, como se estivessem no parque de diversão, e também sempre faço questão de me identificar, de dizer qual é a minha missão naquela tarde, o que é que estou fazendo. Às vezes nem preciso da informação, mas eu peço: “ei, menino, sabe onde é que mora da dona fulana?”, sem parecer muito dona da situação, muito doutora, muito sabida (Entrevistada 4) 24.
Delinear o contexto da violência do bairro possibilita a percepção de que as relações sociais cotidianas da periferia são marcadas por conflitos e que a emergência dos sujeitos acontece justamente nesse processo permeado de contradições e ressignificações.