A razão – com sua tendência generalizadora típica da terceiridade – só se interessa por aquilo que tem incidência notável, isto é, que se repete, e assim ignora variáveis mil e detalhes ímpares do dia-a-dia e pelo universo afora e parece desperdiçar a seiva da vida em sua plenitude original. Pelo fato da terceiridade se ocupar com aquilo que evidentemente se repete professor Ibri183 metaforicamente costuma compará-la a uma rede grossa capaz de pegar peixes graúdos e comuns, mas que deixa escapar a grande maioria dos inúmeros peixes menores e raros, estes, por sua vez, representando a infinita multiplicidade e originalidade que permeia todo o universo.
Por outro lado a primeiridade – que tem como princípio metafísico o acaso – é essencialmente livre e isto significa não ter compromisso de ser ou de fazer nada em específico.
Primeiridade e terceiridade parecem se opor e criar uma certa tensão no que tange à criação de hábitos já que uma, por ser essencialmente livre, se abstém de regras enquanto a outra se estabelece justamente através delas. Estas duas categorias parecem radicalmente opostas entre si, mas ambas têm um fundamental ponto em comum: ambas se apóiam no continuum que jamais se exaure.
Primeiridade se revela no continuum de qualidades e possibilidades enquanto terceiridade se revela no continuum de necessidades. Da mesma forma que existe uma certa mescla entre mundos interno e externo existe uma mescla entre desordem e ordem na qual dois princípios antagônicos – acaso e lei – se trançam criando, por conseguinte, um tipo de malha entre primeiridade e terceiridade.
183 Ivo IBRI, informação oral em aulas e aparentemente também em seu paper apresentado no 10º. Encontro
Esta mescla é base para o Sinequismo que consiste na doutrina de que tudo que existe é continuo184 o que respalda a articulação entre acaso, existência e lei no processo evolutivo e que, segundo Peirce, é uma idéia de fundamental importância para a filosofia.185
Além disto, primeiridade se baseando no continuum de qualidades e possibilidades e terceiridade no continuum de necessidades dão corpo e alma para a hipótese evolucionária do universo em que as leis nascem do acaso e seguem gradativamente em contínua transformação o que implica numa tensão no processo de aquisição de hábitos. O quadro 6 tenta mostrar diagramaticamente o movimento contínuo que com uma certa tensão segue de caos para ordem.
Caos (Acaso Absoluto) => Ordem (Hábitos/Leis)
<<<<<________________________Continuum____________________________>>>>>>> Continuum de possibilidades => Continuum de necessidades
Quadro 6
Movimento continuum do caos para a ordem
Sugeriu Peirce que:
Como princípio de progresso ou crescimento, algo deve ser tomado não como ponto de partida, mas daquele início infinitesimal que se fortalecerá continuamente. Este poderá apenas ser um princípio do crescimento dos princípios, uma tendência à generalização. Assuma, então, que o sentimento tende a ser associado com e assimilado ao sentimento, ação sob uma fórmula geral ou hábito tendendo a substituir a liberdade viva e intensidade interior do sentimento. Esta tendência de
adquirir hábitos crescerá por s i mesma conforme o hábito. O hábito tende a
184 Cf. CP 1.172 – 1897. 185 Cf. CP 6.103 – 1892.
coordenar os sentimentos, que são, assim, trazidos para a ordem do Tempo, para a ordem do Espaço.186 (Os grifos são nossos.)
Há indícios de um movimento de desordem para ordem e eles parecem apontar para o fato das leis terem nascido de um estado de coisas onde elas não existiam, isto é, do Acaso Absoluto; assim o princípio do acaso parece ser também o princípio da lei, e por isto Peirce coloca que “se as leis da natureza são resultados da evolução esta evolução deve proceder de acordo com algum princípio; e este princípio será por si da natureza da lei”.187
Como já enfatizado a razão está predominantemente associada à terceiridade, que definitivamente envolve todas as categorias, e quando a primeiridade é suprimida o hábito predomina como força bruta.
Nenhum homem vive sem hábitos e ser um feixe de hábitos não significa ser “um sistema fechado”. Como visto no tópico 2 deste capítulo, o homem é parte do pensamento e nele está emaranhado, estando, portanto, em pensamento e longe de ser “um sistema fechado”. Prudência baliza a conduta na racionalidade, contudo, interessantemente quanto mais agimos com prudência mais nos afastamos da espontaneidade – característica típica da primeiridade – e mais nos aproximamos da matéria, e, portanto, mais tendemos a ter atitudes cristalizadas o que parece dificultar o fluxo da evolução. Assim Peirce colocou que:
A força do hábito às vezes obrigará o homem a se apegar a velhas crenças, depois que ele estiver em condição de ver que elas não têm qualquer fundamento. Mas a reflexão a respeito do assunto sobrepujará estes hábitos, e ele deverá conceder à reflexão todo o seu poder.188
186 CP 6.585 – 1905 (For principle of progress or growth, something must be taken not in the starting-point, but
which from infinitesimal beginning will strengthen itself continually. This can only be a principle of growth of principles, a tendency to generalization. Assume, then, that feeling tends to be associated with and assimilated to feeling, action under general formula or habit tending to replace the living freedom and inward intensity of feeling. This tendency to take habits will itself increase by habit. Habit tends to coordinate feelings, which are thus brought into the order of Time, into the order of Space.)
187 CP 7.515 – 1898 (But if the laws of nature are results of evolution, this evolution must proceed according to
some principle; and this principle will itself be of the nature of a law.)
188 CP 5. 387 – 1877 (The force of habit will sometimes cause a man to hold on to old beliefs, after he is in a
condition to see that they have no sound basis. But reflection upon the state of the case will overcome these habits, and he ought to allow reflection its full weight.)
É deveras desafiador perceber que a jovialidade de um ser se mede pelo seu grau de espontaneidade, flexibilidade e abertura para adquirir novos hábitos; mentes mais jovens são mentes mais sensíveis diante do erro e mais aptas a mudar de crenças, e conseqüentemente de conduta. Apesar disto, a evolução se dá pela transformação da espontaneidade em racionalidade, já que tudo o que é espontâneo não tem vínculo com o futuro e já que evolução se delineia através de uma linha cronológica que medeia experiências pretéritas com possíveis experiências futuras.
Na verdade, Peirce apontou evolução como crescimento da racionalidade a qual nunca poderá ser completamente concretizada e a qual deve supostamente ser sustentada pelo continuum de caos para ordem e pela mesclada tensão entre primeiridade e terceiridade na formação de hábitos.
Além desta mesclada tensão entre primeiridade e terceiridade na aquisição de hábitos observa-se que há também uma interação entre contínuo e descontínuo na qual as descontinuidades – típicas da segundidade – se apresentam também como instâncias necessárias para a evolução e mudança de hábitos. O quadro 7 tenta sinteticamente representar as descontinuidades ao longo do continuum.
Caos (Acaso Absoluto) => Ordem (Hábitos/leis)
<<<<<____/_\___/___/__\__\______Continuum__/___/______\________/_______>>>>>>> Continuum de possibilidades => Continuum de necessidades
Quadro 7
Antes de seguirmos para o próximo tópico e de abordarmos um tipo específico de descontinuidade cabe mencionar aqui uma passagem de Peirce:
hábito é uma tendência generalizadora, e como tal uma generalização, e como tal um geral, e como tal um continuum ou continuidade. Deve ter sua origem na continuidade original que é inerente à potencialidade. Continuidade, como generalidade, é inerente à potencialidade, que é essencialmente geral.189