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Além do riacho Maceió, a Varjota, nos limites da rua Tavares Coutinho, apresenta intensa vida de relações com o Mucuripe, a ponto de os próprios moradores ficarem confusos ao responder em qual desses dois bairros moram. Silva (1992) comenta como era a Varjota:

A Varjota, bairro da cidade relativamente isolado entre o leito da Estrada de Ferro (Ramal Mucuripe) e o riacho Maceió, área antes ocupada predominantemente por uma população favelada, se encontra hoje repleta de construções, sobretudo luxuosos edifícios, aí

construídos, por serem os lotes menos valorizados do que os da Aldeota. (SILVA: 1992 p.52).

Os agentes imobiliários tiveram importante papel no arranjo espacial da Cidade, bem como nos terrenos valorizados da Varjota. Esse Bairro, juntamente com a Aldeota, apresentava nos anos de 1980 os terrenos que mais se valorizavam fora dos limites da área central. Assim, a Varjota se revestia de edifícios com as funções, primeiramente, residenciais, e depois, hoteleira, como acontece no Mucuripe.

Alguns elementos contribuem para o aumento do fluxo de pessoas entre a Varjota e o Mucuripe. O primeiro deles é a pesca, pois alguns pescadores, ao serem removidos do Mucuripe, foram habitar na Varjota, mantendo ainda relações com o bairro de origem.

O segundo elemento é o riacho Maceió que atravessa esses dois bairros, constituíndo-se de uma divisa entre eles. O terceiro elemento está ligado às vias de circulação de transportes, que são as avenidas Abolição (1967) e Via-Expressa (iniciada por volta do ano de 1999). Essas avenidas contribuíram para maior valorização do Mucuripe e da Varjota. Para a construção da Via-Expressa, várias casas de antigos pescadores foram retiradas. Portanto, entendemos que o conjunto das infra-estruturas na Cidade foi implantado primeiramente para satisfazer as necessidades das camadas de alto poder aquisitivo.

Já o Cais do Porto, como escrevemos antes, é uma área industrial que, a partir da criação do porto teve e ainda tem um grande papel na estruturação de toda essa área do “Grande Mucuripe”. As áreas em torno do Cais do Porto, zona industrial, também participaram do processo de expansão da Cidade para o setor leste, iniciando assim a ocupação dessa área por famílias de baixa renda. CAVALCANTI (1999) chama a atenção para a forma como se deu o processo de ocupação no Cais do Porto:

Nos anos anteriores a atual fase de urbanização, o porto, foi fator determinante para a reocupação do Mucuripe e de toda aquela área. Deu-se por causa dele, a ocupação das dunas até então desocupadas, com a implantação de habitações, quando José Macedo ao mesmo tempo que instalava suas atividades industriais, vendia terrenos para a população pobre. Essa população viria mais tarde constituir mão-de-obra importante para o local, na época, distante do centro da cidade

(CAVALCANTI:1999,p.60).

A citação anterior mostra a situação fundiária do Mucuripe no passado, quando a terra pertencia a poucos proprietários, dentre eles, o empresário José de Macedo; a família Edson Queiroz, proprietária da Companhia Norte Gás Butano, e alguns terrenos do Mucuripe (identificados através de pesquisa direta), onde atualmente moram os trabalhadores das fábricas pertencentes a este grupo empresarial; e também Emílio Hinko, proprietário de terrenos em consórcio com a Prefeitura de Fortaleza e iniciativa privada para a construção do Parque Foz riacho Maceió. Atualmente a verticalização já atinge também as áreas próximas ao Cais do Porto, mostrando que a expansão urbana acontece não apenas pelo crescimento horizontal, mas também pelo crescimento vertical.

Seguem-se as figuras n° 12- Mapa de Renda Nominal Mensal (responsável pelo domicílio) e figura n°13- Mapa de Domicílios Tipo Apartamento, que vão identificar a existência da segregação urbana que se dá ao nível do espaço através dos tipos de moradia. “Domicílio Tipo Apartamento refere-se ao domicílio situado em um prédio de: um ou mais pavimentos, com mais de em domicílio particular permanente, servidos por espaços comuns (vestíbulos, escada, corredor, portaria e outras dependências); dois ou mais pavimentos, com mais de um domicílio particular permanente, e com entradas independentes para os andares, ou três ou mais pavimentos,onde as unidades fossem não- residenciais.” (PNAD:1998, p.17)

Relacionando as informações contidas nas figuras n°12- Mapa de Renda Nominal Mensal e n°13- Mapa de Domicílios Tipo Apartamento, fica claro que a renda mensal tem profunda relação com a moradia, pois esta reflete as condições de vida dos habitantes. Através do mapa de renda, percebe-se que grande parte do bairro Mucuripe, principalmente a zona litorânea e ruas próximas a esta, são habitadas por pessoas com maior nível de renda. Aí se verifica a presença da verticalização, com grandes prédios residenciais e/ ou blocos de prédios menores, como aqueles localizados na rua da Paz.

A produção da moradia nessas áreas é algo bastante lucrativo para os especuladores, já que a verticalização é uma forma de expandir o volume de capital sobre a terra. Considerando a valorização dessas áreas, evidenciada pelo preço médio por metro quadrado dos terrenos aí encontrados, como mostraremos a diante, é fácil perceber porque essas terras não são mais acessíveis em termos de moradia para a população de origem. Explica também as constantes remoções de moradores ou saída destes para o Conjunto Santa Terezinha, Morro do Teixeira Cais do Porto, Vicente Pinzón e até mesmo outros bairros mais distantes do Mucuripe.

Nas áreas ao longo do bairro Mucuripe e próximo ao da Varjota a renda mensal por domicílio estava no ano 2000, em torno de 200,00 reais e 300,00 reais. Em pesquisa direta, percorrendo as ruas principais da área estudada, verificamos que existe uma maior quantidade de espécies diferentes de domicílio, e a presença de áreas ainda não incorporadas pela verticalização.

Dentre as áreas de menor renda estão à favela Maceió, parte do Conjunto Santa Terezinha e o Cais do Porto. Não se verificam domicílios tipo apartamento nessas áreas.

Com base nas informações apresentadas na figura n° 14- Mapa de Densidade Demográfica Populacional, compreendemos que no ano 2000, o Mucuripe e a Varjota apresentavam grande densidade demográfica, em torno de 50hab/km² a 300hab/km². Tal fato se justifica pela intensa ocupação do solo nesses bairros.

A área mais escura, no bairro Mucuripe, representa a favela Maceió, também densamente ocupada, chegando a apresentar em torno de 600hab/km². A favela Maceió é uma área de risco, caracterizada por habitações unifamiliares. A futura transformação dessa área em zona de habitações multifamiliares (apartamentos) também provocará grande densidade populacional. Na verdade, a ocupação de áreas que possuem mananciais deveriam obedecer a baixas densidades demográficas estabelecidas a fim de evitar a degradação desses ecossistemas. Porém, o desemprego estrutural que assola o País aliado ao déficit habitacional das cidades não deixam muitas alternativas para a população de baixa renda, fazendo com que a ocupação do solo aconteça de forma desordenada.

Em ambos os casos, núcleos favelados ou áreas bastante verticalizadas permitem grande densidade populacional. O grande adensamento demográfico pode causar problemas relativos às condições de infra-estrutura e equipamentos urbanos nessas áreas.

O Cais do Porto, apresentava-se em 2000 como uma área bastante heterogênea relativamente a distribuição da população aí residente.Isso porque constitui uma zona industrial, com áreas ocupadas pelas residências e outras ocupadas predominantemente por indústrias.

Mostraremos na tabela de n°01 que o fato de o morador ser o proprietário do imóvel mostra que nem sempre a propriedade da casa está relacionada a uma boa condição social por parte do morador, como é o caso do Cais do Porto, é preciso perceber qual é a situação do terreno, como se deu a construção da habitação, quais são os materiais empregados.

Tabela n° 1-Bairros Mucuripe, Varjota e Cais do Porto – População, Média e Moradores por Domicílio e N° de Domicílios Particulares. Ano: 2000

Bairros Área/há(*) População 2000(**) Média de moradores/domicílio(**) Nº de domicílios particulares(**) Cais do Porto 246,8 21.529 4,23 5.073 Mucuripe 61,8 11.900 3,84 3.068 Varjota 63,7 6.916 3,41 2.027

Fonte: IBGE – Censo Demográfico, 2000(**)

(*)Fonte: IPLAM

Fazendo uma comparação entre os bairros apresentados, deduz-se que, apesar de o Cais do Porto ser uma área industrial, este possui maior contingente populacional, distribuído por essa extensa área. Isso acontece porque esse bairro apresenta muitas habitações onde moram numerosas famílias, amontoadas em pequenas casas. A paisagem desse bairro apresenta-se bastante desordenada. Muitas ruas se apresentam bastante irregulares, com a presença de um grande número de becos e vilas.

Com base nos dados do Censo 2000, apresentados na tabela 1 e também em pesquisa direta realizada no mesmo ano, percebemos a existência, Mucuripe, de trechos como o morro do Teixeira e favela Maceió, onde em uma mesma habitação, moram numerosas famílias, fazendo com que, a exemplo do Cais do Porto, o Mucuripe também apresentasse um número significativo de habitantes por domicílio.

Na Varjota, a média de moradores por domicílio era menor que no Mucuripe, além de apresentar uma menor quantidade de domicílios particulares.

A tabela de n° 2 mostra como se encontra distribuída a população por espécie de domicílio nos bairros Cais do Porto, Varjota e Mucuripe.

Tabela n° 2- População Residente por Espécie de Domicílio. Ano: 2000

Bairros casa apartamento cômodo improvisado coletivo

Cais do Porto

20.910 131 433 53 2

Mucuripe 6.115 5.600 33 11 101

Varjota 2.657 4.233 14 8 4

Fonte: IBGE-Censo Demográfico 2000

De acordo com os dados do Censo Demográfico 2000, dentre os três bairros apresentados, o Mucuripe apresenta a maior quantidade de população morando em imóveis verticalizados, evidenciados pelo número de pessoas que moram em apartamentos e habitações classificadas como coletivas.

O IBGE classifica como domicílio coletivo os hotéis, as pensões, os alojamentos de trabalhadores, enfim “quando a relação entre as pessoas que nele habitam é restrita a normas de subordinação administrativa” ( PNAD:1998, p.15)

Nesse sentido, o domicílio coletivo pode ser vertical, como parece ser o caso de Mucuripe e Varjota, com os hotéis, ou apresentar-se na forma horizontal.

Apesar da crescente verticalização no Mucuripe, ainda há uma predominância da população residente em casas. Estas demonstram muito da história dessas pessoas, pois a habitação é como se fosse um retrato da condição socioeconômica dos indivíduos que nelas habitam.

No Mucuripe, segundo dados do Censo de 2000, cinco mil e seiscentas pessoas moravam em apartamentos. Este revela-se como um indicador bastante significativo se levarmos em consideração o processo inicial de ocupação do bairro. Há no Mucuripe um embate entre o valor de uso e o valor de troca, que acontece principalmente por

meio da moradia. A cada dia, edifícios começam a ser construídos no Bairro, deixando para trás a história de um lugar.

Na Varjota é diferente porque esse bairro não apresentou em sua gênese, tampouco na atualidade, uma história de luta, uma identidade cultural forte como no Mucuripe. A Varjota apresenta ligações com o Mucuripe, mas isso acontece principalmente nas áreas mais próximas a este Bairro. Isso porque entre os dois mil seiscentos e cinqüenta e sete moradores que habitam as poucas casas da Varjota, estão alguns pescadores, antigos moradores do Mucuripe. Expulsos pela força do capital imobiliário, estes moradores foram habitar nas áreas próximas ao Mucuripe.

O Cais do Porto que continua marcado pela concentração da população de baixa renda, apresenta um estoque de terras que ainda são pouco valorizadas na Cidade. Esse fato decorre muito da presença do porto, pela sua condição de zona industrial, concentrando depósitos e fábricas que produzem uma grande poluição nesse ambiente, comprometendo a qualidade de vida. Pela ausência de condições favoráveis à verticalização no bairro Cais do Porto, este apresenta-se com um menor número de população morando em apartamentos. Em contrapartida, demonstra maior número de população vivendo em condições precárias. Nessa área notadamente periférica, a paisagem é marcada pela presença de casas em forma de autoconstrução, e famílias morando em cômodos, bem como em domicílios improvisados. Segundo o IBGE, domicílio improvisado significa “aquele localizado em unidade que não tivesse dependência destinada exclusivamente à moradia, tal como: loja, sala comercial,etc. Assim também foi considerado o prédio em construção, embarcação, carroça, vagão, tenda, barraca, gruta, etc, que estivesse servindo à moradia. (PNAD:1998, p.15).

É importante destacar a expansão dessa área chamada Mucuripe, que não mais restringe-se à delimitação oficial da Prefeitura de Fortaleza, mas abrange uma grande gama de bairros que formam o chamado Grande Mucuripe e contém relações sociais, econômicas e culturais.

Capítulo 3- A VERTICALIZAÇÃO NA ÁREA DO MUCURIPE