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A historiografia produzida no contexto das comemorações dos centenários da Guerra de Canudos trouxe para o centro do debate historiográfico sobre a comunidade de Antônio Conselheiro o problema do campesinato como sujeito histórico no Brasil contemporâneo. Em texto clássico, José de Souza Martins sugere a produção de um silêncio sobre a participação camponesa na construção do Brasil contemporâneo, o que tem produzido certas distorções na historiografia brasileira, na medida em que alguns dos mais importantes acontecimentos políticos da história contemporânea do Brasil são camponeses e, não obstante, desconhecidos do conjunto das classes populares, bem como de grande parte da intelectualidade. Como nos alerta o autor, poucos sabem que o campesinato é a única classe social que, desde a proclamação da república, tem experimentado constantes confrontos militares com o Exército: em Canudos (1896/1897), no Contestado (1912/1916), em Trombas e Formoso (1948/1964); na insurreição do Sudoeste do Paraná nos anos 50, no Nordeste às vésperas do Golpe de 1964 ou ainda durante a chamada Guerrilha do Araguaia

289 FELDMANN, Helmut. Entrevista ao autor. 5 de setembro de 1997; Die sozioreliöse Bewegung von

Canudos (1893-1897). In: Afrika sien Brasilien Portugal. Teil I: Geschichte, Gesellschaft und Religion. Frankfurt, IKO, Heft 2/1997; Die sozioreliöse Bewegung von Canudos (1893-1897). In: Afrika sien

no início da década de 70290.

Talvez o fato dos movimentos camponeses deixarem poucos registros escritos e, em geral, seu conhecimento proverem de cronistas e observadores letrados, quase sempre ligados às instituições estatais e religiosas, concorra para isto. Isto implica que não podemos esquecer que a história política do campesinato brasileiro não pode ser reconstruída separadamente da história das lutas pela sua tutela política. Em sua leitura sobre as manifestações da rebeldia camponesa, Martins afirma que as primeiras grandes lutas camponesas no Brasil se deram na transição do regime imperial para o republicano, quando as sublevações dos pobres no campo, especialmente as Guerras de Canudos no sertão da Bahia (1896-1897) e do Contestado na fronteira entre Santa Catarina e Paraná (1912-1916), evidenciaram, com a dura repressão militar por parte das tropas federais e estaduais, a transformação de guerras camponesas em guerras políticas. Isto é, descobriram nas rebeliões místicas dos camponeses de aparente insignificância localista, municipal e pré-política, dominadas pelo messianismo e pelo banditismo social, uma dimensão política profunda, que levou perigo para a ordem constituída e acentuou o seu poder desagregador291.

Como vimos, no caso da Guerra de Canudos, encontramos, na construção da narrativa de Os Sertões, uma intenção deliberada de Euclides da Cunha de desqualificar o sertanejo como agente histórico, especialmente por tentar lê-lo a partir da ótica política da Revolução Francesa.

Talvez uma das formas de propor o campesinato como sujeito da história, livrando- o da pecha de movimentos pré-políticos, seja o desenvolvimento da história oral no Brasil, ainda que, entre nós, ela tenha tardado a se desenvolver pela falta de tradições institucionais não-acadêmicas que se empenhassem em desenvolver projetos registradores das histórias locais, bem como a ausência de vínculos universitários com os localismos e a cultura popular. Merece destaque o registro de algumas exceções como as iniciativas pioneiras de José Calasans e Odorico Tavares em torno da construção da memória dos sobreviventes da Guerra de Canudos no final dos anos 40.

As reportagens alusivas ao cinqüentenário da Guerra de Canudos do jornalista

290 MARTINS, José de Souza. Os Camponeses e a Política no Brasil: As lutas sociais no campo e seu lugar no processo político. Petrópolis, Vozes, 2ª edição, 1983, p. 27.

pernambucano, Odorico Tavares, ao lado das fotografias de Pierre Verger, para a revista

Cruzeiro podem ser colocadas como um marco da fase pós-euclidiana, na medida em que

elaboraram uma narrativa contada a partir da “ótica dos jagunços”, principalmente por revelar traços da vida cotidiana dos conselheiristas292.

Tavares resgata, antes dos estudiosos que elaboraram a revisão histórica de Antônio Conselheiro, a imagem de um Conselheiro que “nunca fez o mal a ninguém”. Entre os sobreviventes entrevistados, há um consenso de que Antônio Conselheiro era um bom homem e era chamado de “Bom Jesus”. Maria Avelina da Silva, Francisca Guilhermina dos Santos, José Travessia, Manoel Ciríaco, Francisco Cardoso de Macedo, Maria Guilhermina de Jesus, Idalina Maria da Conceição e o velho Mariano, todos, sem exceção, colocam o líder da comunidade de Canudos como um homem bom e respeitador. Ainda que Tavares mantenha a leitura de um certo fanatismo do séquito de Antônio Conselheiro, o jornalista pernambucano foi o primeiro a divulgar a visão dos sobreviventes de Canudos, demonstrando, ao contrário da leitura euclidiana, a capacidade organizativa de Antônio Conselheiro e seus seguidores293.

Foi a partir das sendas abertas por Odorico Tavares que José Calasans iniciou sua trajetória renovadora das pesquisas em torno da Guerra de Canudos, viajando pelo sertão e coletando, através de entrevistas com sobreviventes ou seus descendentes, uma rica tradição oral. É interessante observar que Calasans não chegou ao tema da Guerra de Canudos por intermédio do livro vingador de Euclides da Cunha, mas, inicialmente, através de suas conversas com o major do Exército, Marcelino José Jorge, chefe do Estado Maior do general Savaget294. Com o passar do tempo, ao aprofundar suas pesquisas sobre o folclore político e sobre a cachaça nos mercados de Aracaju, nos anos 1940, encontrou, no cancioneiro popular, as primeiras evidências das imagens populares de Canudos, o que resultou no livro hoje clássico sobre o tema, intitulado O Ciclo Folclórico do Bom Jesus

Conselheiro (1950). Pode-se considerar este livro como o primeiro esforço acadêmico de

rever as assertivas de Euclides da Cunha, pois, segundo Calasans, existem “novas técnicas de pesquisa, (...) que o autor de Os Sertões e outros escritores contemporâneos não estavam

292 CALASANS, José. Cartografia de Canudos. Salvador: EGBA, 1997, p. 107-108.

293 TAVARES, Odorico. Canudos Cinqüenta Anos Depois (1947). Salvador: Conselho Estadual de

Cultura/Academia de Letras da Bahia/Fundação Cultural do Estado, 1993, p. 39-53.

em condições de sentir”295.

Em entrevista por mim realizada com José Calasans e publicada em 1997, ele resume um pouco de sua trajetória rumo a Canudos:

“Lera Os Sertões de Euclides da Cunha como todo brasileiro diz que leu... O encontro, porém, nas perquirições folclóricas, de quadro e estórias sobre a guerra do Belo Monte, levaram-me a considerar que Canudos devia ser estudado em função da memória popular, ainda existente no sertão, para que nós conhecéssimos o movimento pelo lado de lá. Daí o ciclo folclórico do Bom Jesus Conselheiro. Seduziu-me o assunto e terminada a angústia do concurso, continuei indo ao sertão do Conselheiro, numa mesopotâmia limitada ao norte pelo Vazabarris e ao sul pelo Itapicuru. Interessou-me mais a gente do sertão do que a guerra fatricida e o próprio Bom Jesus, o grande líder de uma gente sofredora e resistente. Ouvi sobreviventes, filhos de conselheiristas, netos de participantes da luta. Procurei valorizar a oralidade, naturalmente pensando ao mesmo tempo no real e no imaginário. Por isto, escrevi sobre Canudos na literatura de cordel, Canudos nos depoimentos dos historiadores, levantando bibliografias, reunindo e doando à Universidade Federal da Bahia, vasto material, que hoje constitui o Núcleo Sertão”296.

J. Calasans colheu fragmentos de memórias delicadamente construídas ao longo de cinqüenta anos de pesquisa e que pode ser consultada numa plêiade de pequenos artigos e estudos publicados nos mais diferentes veículos. Um dos seus principais interlocutores foi Manuel Ciriaco, também entrevistado por Odorico Tavares. Em vários textos, emerge a fala do combatente canudense, ora para comentar sobre os habitantes de Canudos como é o caso de José Beatinho, “bom tirador de rezas, amigo de Antônio Conselheiro”, ora para informar-lhe sobre a constituição do arraial antes da chegada do Conselheiro. Revisando as afirmações de Euclides da Cunha, ele afirma a existência de uma pequena capela e umas duas ou três casas de melhores condições, da qual se destacava a de Antônio da Mota,

295 CALASANS, José. O Ciclo Folclórico do Bom Jesus Conselheiro: Contribuição ao Estudo da Campanha de Canudos. Salvador: EDUFBA/Centro de Estudos Baianos, 2002 (Edição fac-similada), p.

101.

296 SÁ, Antônio Fernando de Araújo et. al. Professor José Brandão Calasans da Silva. In: Cadernos UFS: História. Volume 03, número 4, p. 7-10 [10].

muito além das “capuabas arruinadas” da descrição euclidiana297. Outro depoente importante foi Pedrão, Pedro Nolasco de Oliveira, compadre do Conselheiro e integrante da Guarda Católica do Belo Monte, que registra a fala do santo peregrino antes de morrer: “tantas imagens e tantos inocentes para estes incréus destruírem”298. Ou ainda o depoimento da velha Francisca Guilhermina que apontou entre os participantes do massacre da família de Antônio da Mota, “Vicentão, negro muito malvado”299.

Segundo o historiador sergipano, é importante pesquisar a guerra, mas é impossível compreendê-la sem a percepção dos jagunços, sem acompanhar o sentido da história desse grupo. Segundo Calasans, surgiu dessa preocupação o livro Quase biografias de jagunços, que utilizou o recurso da biografia como apelo metodológico, pois, “para quem vê de fora todos sertanejos se parecem e as individualidades ficam meio embaçadas”. Assim, “compreender as diferenças individuais” foi um exercício fundamental na obra de Calasans, proporcionando-lhe uma leitura de Canudos como coletividade de beatos, de santeiros, renunciantes”300.

Então, nas entrevistas com sobreviventes da Guerra de Canudos e perscrutando uma rica tradição oral existente em Sergipe e Bahia, Calasans acabou por reiterar que os “vencidos” também têm um lugar na História, quando através de uma série de biografias dos jagunços, na qual resgata os combatentes conselheiristas como sujeitos históricos301. Sua principal contribuição foi, pacientemente, recompor de forma digna “a imagem e o valor de Antônio Vicente Mendes Maciel, esse seguidor do Padre Ibiapina, imagem e valor degradados pelas elites brasileiras: políticos, Igreja, a tradição letrada e o Exército nacional”302.

297 CALASANS, José. Cartografia de Canudos. Salvador: Secretaria da Cultura e Turismo do Estado da

Bahia/Conselho Estadual da Cultura; EGBA, 1997, p. 44 e 51.

298 Idem, p. 145. 299 Ibidem, p. 47.

300 MEIHY, José Carlos Sebe. “Meu Empenho foi ser o Tradutor do Universo Sertanejo” (Entrevista com José

Calazans). Luso-Brazilian Review. vol 30, n.2, Winter 1993 p. 26.

301 CALASANS, José. Quase Biografias de Jagunços: O séquito de Antônio Conselheiro. Salvador:

CEB/UFBa, 1986; ver também REESINK, Edwin. A Memória das Memórias de Canudos: A Pesquisa e a Obra de José Calasans. In: Revista Canudos. V. 5, n. 1, jun. 2001, Centro de Estudos Euclydes da Cunha/Universidade do Estado da Bahia.

302 MENEZES, Eduardo Diatahy B. de. José Calasans. In: Jornal de Poesia. Fortaleza/CE: Secretaria de

Cultura do Estado do Ceará, 2001. Capturado em 4/10/2003 no endereço eletrônico: www.secrel.com.br/jpoesia/jcalasans.html.

Na mesma direção, no início dos anos 1960, Nertan Macedo constrói um pequeno livro em que Canudos é relembrado a partir do depoimento de Honório Francisco de Assunção, mais conhecido como Honório Vilanova, irmão de uma das principais lideranças do conflito de Canudos, Antônio Vilanova. Macedo, como José Calasans, busca na memória sertaneja uma leitura na qual a figura de Antônio Conselheiro é revista e contraposta à história oficial, mostrando-o como um homem “manso de palavra e bom de coração”. Isto significava rever a imagem euclidiana de um “gnóstico bronco” e ensandecido, pois, segundo o depoente, “Não era doido e ninguém soube de fatos que lhe desabonasse a conduta. Santos e justos eram os seus conselhos a todos, homens e mulheres”. E seus conselhos mostravam-no ainda versado nas escrituras sagradas da Igreja Católica. Registre-se aqui a importância de se publicar, com base nas reportagens da revista

O Cruzeiro, datada de 1953, parte das prédicas de Antônio Conselheiro, o que possibilitou

uma nova escritura da história de Canudos. Vale lembrar que a fala de Honório Vilanova foi registrada após a publicação destas reportagens jornalísticas, o que pode ser visto nos exemplares por ele guardados em um baú. Mesmo assim o seu depoimento transmite informações daqueles que experimentaram Canudos a partir de uma perspectiva interna, transmitindo imagens que seriam apropriadas por diferentes intérpretes em trabalhos posteriores. Talvez a mais significativa delas seja aquela em que, no negro poço de suas reminiscências, Vilanova lembra que

“Grande era a Canudos do meu tempo. Quem tinha roça tratava da roça, na beira do rio. Quem tinha gado tratava do gado. Quem tinha mulher e filhos tratava da mulher e dos filhos. Quem gostava de reza ia rezar. De tudo se tratava porque a nenhum pertencia e era de todos, pequenos e grandes, na regra ensinada pelo Peregrino”303.

Apropriando-se das pesquisas realizadas desde os anos 1940 por estudiosos como José Calasans, Nertan Macedo e Odorico Tavares, percebo, a partir dos anos 1980 e 1990, uma proposta de recuperar as experiências cotidianas registradas na memória popular camponesa, tanto por parte de jornalistas como de historiadores. Dentre as iniciativas,

303 MACEDO, Nertan. Memorial de Vilanova. 2ª edição. Rio de Janeiro: Renes; Brasília: Instituto Nacional

merece destaque o trabalho desenvolvido pelo Centro de Estudos Euclydes da Cunha (CEEC), vinculado à Universidade Estadual da Bahia (UNEB). Criado em 1984, no contexto do Projeto Interdisciplinar de Desenvolvimento Integral da Área de Canudos, mais conhecido como Projeto Canudos, o Centro desenvolve um conjunto de pesquisas que levaram à constituição de um Núcleo de História Oral, liderado pelo professor Manoel Neto com a colaboração de José Carlos Pinheiro. Têm-se duas vertentes complementares. De um lado, a busca de se construir um espaço para o discurso popular dentro do projeto, através da tradição oral canudense (A Guerra de Canudos na memória do Povo do

Cocorobó e Os Caminhos de Antônio Conselheiro na Bahia: As cidades e o Povo de Antônio Vicente Mendes Maciel). E, de outro, dialogando com o discurso popular, estes

pesquisadores desenvolvem, atualmente, o Projeto Os Intelectuais e Canudos que visa colher depoimentos de intelectuais e artistas sobre a temática de Canudos.

Próximo à primeira linha de investigação, a obra de Sérgio Guerra, inserida nos quadros da produção intelectual vinculada ao CEEC, procura desvendar e compreender os confrontos entre os universos sertanejo e litorâneo na construção dos discursos sobre Belo Monte X Canudos. Sua escrita mescla o envolvimento militante nos sertões bahianos, como o apoio ao Movimento Popular e Histórico de Canudos, liderado pelo Padre Enoque Oliveira, com a experiência acadêmica na produção da dissertação de mestrado, que originou o livro em questão, visando reconstruir as experiências de vida dos moradores de Canudos. Para tanto, o autor fundamenta suas reflexões nas observações da Caderneta de

Campo, de Euclides da Cunha e do depoimento de Honório Vilanova a Nertan Macedo,

intitulado de Memorial de Vilanova, com o objetivo de analisar as falas sobre Canudos/Belo Monte, utilizando tanto o material transcrito quanto impresso.

Partindo das reflexões de Walter Benjamin e da historiografia social inglesa (E. P. Thompson, R. Williams, Stuart Hall, principalmente), Guerra pretende escovar as fontes históricas analisadas a contrapelo, percebendo os belomontenses como sujeitos de sua própria história. Segundo ele, no momento crítico em que ocorreu o episódio de Belo Monte, explicita-se na luta entre aqueles que a denominavam de Belo Monte - o povo da terra - e aqueles que o chamavam de Canudos - jornalistas, militares, historiadores. Isto fica evidente na literatura popular, marcada pela oralidade, presente nas estrofes dos ABCs, nas quais há uma afirmação de uma identidade própria e diferenciada belomontense. Assim, há

uma dominância do termo Canudos em relação a Belo Monte, “em função da vitória da imposição da linguagem produzida pelos setores hegemônicos da sociedade, mesmo sobre os remanescentes da cidadela destruída física e culturalmente nesse confronto”304.

O historiador baiano com base no livro de Nertan Macedo observa que, na visão dos belomontenses, uma tendência a interpretar as palavras de Conselheiro de forma profética, apesar de as prédicas editadas no mesmo texto não demonstrarem esse caráter profético. Por outro lado, ele afirma que os comportamentos dos habitantes de Belo Monte se assentavam nos ensinamentos e práticas de vida do Conselheiro. Talvez uma explicação para esta leitura seja o fato de ele se basear não nas Prédicas de Antônio Conselheiro, mas nos fragmentos colhidos tanto oralmente quanto em escritos por Euclides da Cunha em suas Cadernetas de Campo.

Na busca das bases da identidade belomontense, de uma territorialidade, nas tradições da oralidade e da gestualidade sertanejas, Guerra as vê explicitadas no caso dos depoimentos de prisioneiros registrados por Euclides da Cunha, em condições bastante adversas, como é o caso da riquíssima Carta de um Jagunço. Nesta carta registrada por Euclides da Cunha, encontramos o silêncio como um modo de comportamento dos sertanejos, a coragem, a “têmpera” e a altivez com que se apresentaram os prisioneiros diante das autoridades. Segundo ele, os prisioneiros empreenderam uma “verdadeira luta verbal como o maior e único recurso dos belomonteses, diante do arrasador arsenal militar com que assediaram a cidadela de Conselheiro”305.

Note-se que, mesmo buscando recuperar a memória popular de Canudos no entre- lugar do discurso, o autor acaba por reproduzir a imagem, construída no final do século XIX por intelectuais e jornalistas, de uma cidadela, caracterização esta que se materializa, no funcionamento discursivo, numa tentativa de “minimizar os avanços econômicos e sociais do Arraial”. Neste sentido, se apequena a cidade tanto ao nível físico, quanto a nível de representação simbólica306.

A outra linha de pesquisa desenvolvida pelos pesquisadores do Centro de Estudos Euclydes da Cunha da Universidade Estadual da Bahia diz respeito a se pensar a memória

304 GUERRA, Sérgio. Universos em Confronto: Canudos X Belo Monte. Salvador: Universidade do Estado

da Bahia (UNEB), 2000, p. 61.

305 Idem, p. 137.

306 TFOUNI, Leda Verdiani & ROMÃO, Lucília Maria Souza. O Discurso sobre Canudos e a retórica do

de Canudos no discurso contemporâneo a partir de artistas e intelectuais. Nas palavras de Manoel Neto e Roberto Dantas, organizadores do projeto, o que se buscava era ouvir e debater as reflexões dos intelectuais “sobre um acontecimento cuja permanência na memória coletiva e atualidade na ocupação acadêmica já demonstram força incomum e rara vitalidade. Animava-nos, igualmente, a complexa relação que intelectuais, acadêmicos e artistas mantiveram com o tema nos cem anos sobrevindos ao conflito”307.

Como ressaltou o então diretor do CEEC, Luiz Paulo A. Neiva, este projeto é fundamental por efetuar um balanço do trabalho intelectual das últimas décadas sobre Canudos, revelando que do “Canudos euclidiano pouco acabou ficando, graças aos esforços de tantos pesquisadores que foram à procura de outra versão da História, a dos vencidos, que ficou na memória popular e mesmo nos documentos dos vencedores encobertos pela linguagem dos dominantes”308.

Nascido das celebrações dos 100 anos do final do confronto de Canudos, o projeto “Os Intelectuais e Canudos: o discurso contemporâneo” começou em 1998 e findou em 2000, realizando entrevistas na Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo. Seu procedimento de pesquisa foi feito a partir da consulta prévia ao entrevistado, o envio do roteiro da entrevista e a escolha de locais para a entrevista. Sua inspiração se funda, de um lado, no envolvimento dos pesquisadores com a História de Canudos e de seu povo e, de outro, de pensá-la a partir da ótica do presente309.

No primeiro volume, os entrevistados foram aqueles que produziram alguma produção artística vinculada ao tema. Nos depoimentos de Fábio Paes, Trípoli Gaudenzi, Oleone Fontes, Antônio Olavo, Eldon Canário e Lizir Arcanjo se projetam uma multiplicidade de interesses, desejos e necessidades na produção de uma representação do passado, na qual estes artistas e intelectuais não efetuam uma mera reconstituição dos acontecimentos históricos na sua factualidade circunstanciada, mas sim o registro de virtualidades latentes da história individual e coletiva. Nesta perspectiva, construindo o mundo como representação, estes artistas e intelectuais buscam no acontecimento de

307 NETO, Manoel; DANTAS, Roberto e PINHEIRO, José Carlos. Os Intelectuais e Canudos: O Discurso Contemporâneo: História Oral Temática. V. 1. Salvador: Universidade do Estado da Bahia (UNEB), 2001,