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Se as instituições museológicas da década de 1930 não eram o que se pode chamar de “museu integral”, as ações de documentação como a realizada pela Missão de Pesquisas Folclóricas também não eram a prática dos tradicionais museus voltados a celebrar feitos históricos escolhidos por parcela da sociedade. A pesquisa idealizada por Mário de Andrade baseava-se no interesse pelo registro das expressões culturais que julgava formadoras do homem brasileiro. A atual recorrência ao pensamento do escritor se dá também pelo fato de estar implícita em suas propostas uma noção alargada de arte e de cultura no seu sentido antropológico,

109 Fundado em 1985, “o MINOM agrupa, numa vasta plataforma de tendências e de

organismos, indivíduos dedicados a uma museologia ativa, interativa, preocupados com a mudança social e cultural. Favorece a cooperação entre os usuários e os profissionais dos museus. Defende uma museologia aberta a todas as perspectivas que possam contribuir para fazer do museu e da exposição um instrumento de desenvolvimento da personalidade das comunidades e um laboratório de construção do seu futuro. Por isso, o MINOM defende a aproximação intercultural e a criação de solidariedades a nível local, nacional e internacional. O seu percurso está ligado a conceitos como a Museologia Social e mais recentemente a Sociomuseologia”. (MINOM, 2016)

assim como o seu conceito de patrimônio artístico abranger o tangível e o intangível (CHAGAS, 2003).

No que diz respeito aos princípios voltados à preservação da produção cultural brasileira, a coleção originária da Missão de Pesquisas Folclóricas é tomada como exemplar, também, por integrar uma política cultural bem definida como foi a do Departamento de Cultura de São Paulo. Não foi uma ação isolada de um modernista que via na cultura popular a essência do homem brasileiro. Ultrapassava essa concepção, pois, por meio daquele órgão público - idealizado por um grupo de intelectuais que pensavam no papel do Estado enquanto gestor da vida social –, estabeleceu-se a estrutura da administração pública da cidade de São Paulo em diferentes esferas além da cultura, como educação, assistência social e planejamento. (CERQUEIRA, 2014).

A década de 1980 marca o início da redemocratização do país, portanto, não é de se estranhar o interesse despertado por projetos como os do Departamento de Cultura de São Paulo e a revalorização da coleção da Missão de Pesquisas Folclóricas. Datam dessa época, também, os movimentos e experimentações no campo que podemos chamar de uma museologia mais democrática, mais participativa. Esses anos foram ainda pautados por movimentos sociais populares por direitos básicos, como saúde, habitação, educação, além de um contexto de valorização da cultura popular (MIRA, 2014). Paralelamente, intensificou-se a discussão sobre diversidade e cidadania, revigorando as expectativas da quebra de fronteiras estabelecidas entre a chamada cultura erudita e a popular, contribuindo para a inclusão e fortalecimento do protagonismo cultural de sujeitos historicamente marginalizados.

Como demonstra Maria Celeste Mira, vive-se um novo momento favorável para as Culturas Populares, com a mundialização e o triunfo da diversidade cultural. No Brasil Mário de Andrade surge como referência maior, mas os folcloristas como Rossini Tavares de Lima também ressurgem (MIRA, 2014). A ênfase às ações e propostas de Mário deve-se muito ao fato deste intelectual ter sido mais do que pesquisador da cultura popular, tinha uma concepção mais ampla da ideia de bem patrimonial e mesmo de política cultural. Rossini, por sua vez, além de voltar-se especificamente ás atividades de pesquisador e professor do tema, estava preso a uma noção de folclore do passado, o que afasta seu nome da retomada temática atual.

A questão do patrimônio cultural tem se beneficiado, no Brasil e no contexto internacional, da difusão da noção de diversidade cultural, que será objeto de convenção a ser elaborada no âmbito da Unesco. Essa discussão chega à área da cultura mais de dez anos após a Convenção da Diversidade Biológica (CDB), e num momento em que já se alcançou uma razoável percepção dos prejuízos – materiais e simbólicos – que podem decorrer do desgaste dos recursos naturais e da extinção de espécies vegetais e animais. Entretanto, como já havia observado, a acelerada perda de expressões culturais e artísticas, de línguas e tradições orais, de conhecimentos tradicionais, ainda não chega a provocar o mesmo impacto que a degradação ambiental, e é até considerada uma consequência inevitável do desenvolvimento. Essas questões têm levantado novos e instigantes problemas que – pela multiplicidade e variedade de atores envolvidos – evidenciam a complexidade de que se reveste hoje a questão do patrimônio cultural (FONSECA, 2005a, p. 19)

Em consonância com as discussões mundiais, explicitadas na Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais durante a Conferência Geral da Unesco de 2005, o governo brasileiro incorpora demandas do movimento das culturas populares, por meio da criação da Secretaria da Identidade e Diversidade Cultural em 2003 (dois anos antes da aprovação na Convenção da Unesco) (MIRA, 2014). Políticas públicas são adotadas no Brasil e exemplificam a tentativa de incorporação de diferentes sujeitos de direito, entre eles os produtores de cultura tradicional e populares.

Tomando como exemplo as coleções da cidade de São Paulo, especificamente tratadas neste texto, verificamos que, apesar das alterações conceituais, propositivas e mesmo da reformulação da missão das instituições museológicas, não ocorre um rompimento de fato de fronteiras ou uma reorganização do campo de atuação para inclusão e diálogo. O mesmo se dá com o novato Pavilhão das Culturas Brasileiras, onde descontados os problemas estruturais, as primeiras ações permaneceram em torno de estratégias tradicionais.

Podemos inferir que a postura adotada ao longo dos anos na condução dessas coleções, manteve esses conjuntos como objeto de interesse para estudiosos, sem despertar muita curiosidade aos que representam lutas por políticas públicas e ações de proteção ao saber e fazer tradicional. Os próprios agentes públicos, envolvidos na sua preservação, poucas chances têm de refletir sobre a função social das coleções, limitando-se a trabalhar com ações de conservação e de mediações à formação de público. A difusão é reduzida a determinados recortes discursivos, assinados por

curadores especialistas, e a responsabilidade de sensibilizar e atrair público é atribuída às atividades de mediação.

Uma exposição, por si só, não garante a apresentação da produção cultural de um grupo sem a divisão de “nós” e o “outro”. Apesar das atualizações de discurso que adotamos ou as tentativas de reflexão sobre as temáticas, não necessariamente traduz-se num diálogo com os sujeitos da cultura representada. Sempre haverá nesses formatos um “nós” e um “eles”. Ao provocar uma discussão sobre o potencial de diálogo existente nas coleções, procuramos recuperar as motivações como as que levaram os profissionais como os envolvidos na gestação do movimento da Nova Museologia e repensar as responsabilidades políticas e sociais existentes nas ações do cotidiano museológico, em especial dos equipamentos públicos. Varine (2010), ao avaliar o encontro de 1972, identifica o cerne de dois fenômenos que ocorrem no mundo contemporâneo, o surgimento de museologias nacionais e, consequentemente, a multiplicação de museus locais. Ele faz um recorte em que excetua aqueles a que chama de ‘oficiais’, para identificar o surgimento de espaços atrelados às suas comunidades de origem.

A não vinculação com a população local, no entanto, não pode desobrigar as instituições públicas de sua responsabilidade frente ao seu acervo e aos grupos sociais que o originaram. Alguns aspectos pertinentes às ações de salvaguarda e difusão de coleções não necessariamente estão de acordo com algumas políticas conquistadas pelos sujeitos produtores de tais bens culturais. O trato com documentos, registros e objetos testemunhos da vida de parcela da população historicamente marginalizada, como os povos indígenas ou comunidades tradicionais ou periféricas, não pode se eximir de um diálogo que retome o espírito da ideia de museu integral, de museu vivo.

Em palestra na Estação Pinacoteca, Mário Moutinho discorreu sobre como era tranquilo quando se sabia o que era um museu e o que não era110. Moutinho explicou como a narrativa oficial identifica as instituições museológicas por meio de sua tipologia: arte, arqueológica, numismática, de imagens, etc. Um princípio classificatório que permite a organização e o controle social da história e de como o

110 Anotações da autora no decorrer do Curso de Extensão Universitária em Sociomuseologia com

Mário Moutinho, da Universidade Lusófona Lisboa Portugal – Pinacoteca do Estado de São Paulo dias 2 a 5 de setembro de 2013. Programa de Pós-Graduação Interunidades em Museologia da Universidade de São Paulo.

conhecimento deve ser difundido e, portanto, garantir a manutenção de dada realidade política, social e econômica.

A análise de Moutinho indica o quanto algumas instituições responsáveis pela guarda de referências históricas e culturais estão pautadas pelo discurso de um determinado tempo e de uma compreensão específica de mundo e de seus indivíduos. Também podemos considerar como é mais confortável nos atermos a uma análise que podemos chamar de técnica ou científica do objeto, de sua objetividade, ou seja, suas características físicas, função, origem, data, fabricante e outros dados de identificação. Não chegaremos muito longe sem suas informações subjetivas de uso e dos indivíduos que o produziram e utilizam, além de seu contexto cultural e menos ainda atingiremos as questões políticas, culturais que envolvem as coleções e suas temáticas.

Como alerta Moutinho, não é mais possível olhar os museus da mesma maneira. É irrefutável a identificação de espaços museológicos completamente diferentes dos tradicionais a ponto de sequer terem acervos. Mais evidente isto se torna quando tratamos de instituições cujas coleções dizem respeito às culturas de grupos tradicionalmente marginalizados (povos indígenas, povos de origem africana, grupos de cultura popular), ou seja, os “outros”, aqueles não pertencentes às elites econômicas, sociais, acadêmicas ou sujeitos reconhecidos, por essas mesmas elites, como artistas.

Diante deste raciocínio seria possível às coleções como as da Missão e do Museu de Folclore serem utilizadas por meio de ações diferentes das utilizadas até o momento? Ações que considerem não só os contextos em que foram constituídas e, especificamente, os vínculos com aqueles que produziram os registros que as compõem e ainda os representam?

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