Nestes primórdios do século XXI, as novas descobertas no campo da medicina avançam a um ritmo nunca antes visto. Porém, verifica-se que as populações não são ainda capazes de adoptar comportamentos favorecedores de uma vida melhor e mais longa. O que poderá explicar tal facto? Os indivíduos não sabem? Não querem saber? Não estão interessados? Talvez uma resposta possível seja que, na realidade, estes mesmos indivíduos não são capazes de compreender e processar a informação de saúde disponível (Selden et al, 2000).
O que é literacia em saúde? O termo foi pela primeira vez utilizado em 1974 num artigo intitulado “Health education as social policy”. Referindo-se à educação para a saúde como uma política que afecta o sistema de prestação de cuidados de saúde, o sistema educativo, e a comunicação de massas, o autor alerta para a necessidade de um mínimo de “literacia em saúde” para todos os níveis de ensino. Esta utilização precoce do termo demonstra a existência duma ligação entre literacia em saúde e educação para a saúde. Falhas na educação para a saúde contribuíram certamente para uma baixa literacia em saúde, mas as raízes dos problemas de literacia em saúde não se cingem apenas à história do sistema educativo. Estes problemas têm atingido maiores dimensões a partir do momento em que começa a ser pedido aos pacientes que assumam mais responsabilidades no tocante ao seu estado de saúde enquanto inseridos num complexo sistema de prestação de cuidados de saúde. Podemos então pensar na literacia em saúde dos pacientes como uma moeda de troca necessária para negociar este complexo sistema (Selden et al, 2000).
Uma literacia em saúde apropriada é também essencial para a promoção da saúde, particularmente quando nos debruçamos sobre assuntos relativos à prevenção primária. Um indivíduo literato em saúde encontra-se mais apto a saber como responder à questão “Como é que me posso manter saudável?”. Uma literacia em saúde adequada poderá ser de ainda maior relevância na prevenção secundária, uma vez que uma comunicação não efectiva entre os prestadores de cuidados de saúde e os pacientes pode resultar em erros médicos atribuíveis a mal informação relativa a medicação e instruções de auto-cuidado (Selden et al, 2000).
Um relatório do Council of Scientific Affairs da American Medical Association (AMA, 1999), refere-se a literacia em saúde funcional como “a capacidade de ler e compreender prescrições, bulas de medicamentos, e outros materiais essenciais relacionados com a saúde requeridos para com sucesso ser possível o funcionamento como doente”.
No maior estudo sobre literacia em saúde realizado até à data Williams et al, 1995), nos EUA, verificou-se que um terço dos pacientes que falavam inglês, em dois dos hospitais públicos, foi incapaz de ler materiais básicos relacionados com a saúde. Quarenta e dois porcento dos pacientes não conseguiram compreender indicações acerca da toma de fármacos pós-prandial, 26% não foram capazes de perceber a informação contida numa bula de um medicamento, e 63% não compreenderam o que se encontrava escrito num documento de consentimento informado estandardizado.
Healthy People 2010 define literacia em saúde como “o grau no qual os indivíduos possuem a capacidade de obter, processar, e compreender informação de saúde básica e serviços necessários de forma a ser possível tomar decisões de saúde apropriadas.
Estudos realizados (Davis et al, 1998) (Hopper et al., 1996) (Davis et al, 199&) mostraram que indivíduos com baixa literacia funcional em saúde apresentam menor probabilidade de: compreender informação escrita e oral fornecida pelos técnicos de saúde; serem capazes de navegar pelo sistema de saúde para obter os serviços necessários, tomar os procedimentos necessários e seguir indicações como prescrições. Da mesma forma, verificou-se também, que estes mesmos indivíduos apresentam uma maior probabilidade de: usufruir de cuidados de saúde através de programas financiados, mesmo após serem controlados factores como a idade, o nível educacional ou estrato socioeconómico; despoletarem maiores gastos com a prestação de cuidados de saúde (Gazmarian et al., 1999) (Weiss et al.1999).
Existem também estudos realizados demonstrativos de um pior estado de saúde entre pacientes com baixa literacia em saúde. Por exemplo, verificou-se que, entre 212 indivíduos do sexo masculino com baixo rendimento, uma baixa literacia é um melhor preditor que a etnia ou a idade no cancro da próstata num estádio avançado (Bennet et al., 1998). Um outro estudo,
realizado em 182 indivíduos seropositivos para o Vírus da Imunodeficiência Humana (VIH), demonstrou que aqueles que apresentavam uma baixa literacia em saúde falhavam mais tomas da medicação instituída do que aqueles com uma literacia em saúde elevada, devido a mal compreensão das instruções cedidas (Kallichman et al., 1999).
Com a proliferação de novos meios de informação, a respeitante à saúde está a tornar-se volumosa. Infelizmente, está a tornar-se mais fragmentada e confusa devido aos seus vários e numerosos formatos e a sua duplicação em vários locais. Os produtos educacionais multimédia, a comunicação electrónica, as tecnologias de rede avançadas, e o ensino à distância estão em expansão e poderão contribuir para o aumento da literacia em saúde. Alguns indivíduos podem utilizar os multimédia para aprender interactivamente o que poderão não ter aprendido através de apenas impressos tradicionais ou instruções orais (Selden et al.,2000).
Contudo nem todas as pessoas conseguem entrar neste “Mundo”. Se é um facto que as TIC podem facilitar muito o quotidiano e as interacções entre as pessoas, é igualmente verdade que podem potenciar uma grande infoexclusão que nem sempre é tida em conta. Os mais velhos e os mais carenciados tendem a ficar de fora destes processos de info-capacitação devido à não aquisição de capacidades para tal. Consciente deste problema, a equipa do projecto i-Cidadão tentou minimizar o efeito desta questão neste ensaio, promovendo um Laboratório Digital para potenciar um aumento das capacidades informáticas dos seus utilizadores.