Diante da conjuntura apresentada na categoria anterior, questiona-se como é a saúde desses profissionais perante a dificuldade de horários e de disponibilidade de tempo vivenciados no dia a dia de trabalho.
De acordo com o discurso dos participantes, as necessidades relacionadas ao cuidado com a própria saúde são, em geral, procrastinadas. Assim, todos os participantes relataram que o cuidado com a saúde não é feito da forma que gostariam. Alguns chegaram a relatar que muitas vezes ensinam aos pacientes algo que não costumam fazer, como a prática de atividade física, o consumo de alimentos saudáveis e a visita periódica ao médico. Como expressa os obstetras a seguir:
Às vezes até para fazer uma consulta médica a gente demora, a gente passa do prazo de fazer um citológico, uma mamografia que tudo é para ser feito anualmente e às vezes a gente passa. Eu mesma, falando por mim, eu passo do tempo, porque não tem tempo, vai deixando, deixando. (GO 1)
Eu penso muito em manter a saúde, só penso... É uma questão de poder, de horário. Então tem fases que você está muito sobrecarregada, muito mesmo, aí não consegue conciliar. Além disso, eu tenho quatro filhos... então quando você chega, tem o esposo, então você tem que ter tempo né. Então, eu não posso, além de passar tanto tempo fora, quando chegar ainda vou me encher de outras coisas. (GO 9)
A participante GO 8 também relata: “Na verdade, eu sei de tudo, mas não estou fazendo nada” (GO 8). Dessa forma, contata-se nesses fragmentos que esses profissionais diminuem
os cuidados com a saúde por falta de tempo, apesar de saberem exatamente do que necessitam, muitas vezes, colocam outras prioridades na sua rotina. Em concordância, Nogueira-Martins
(2003) considera que há uma tendência de médicos cuidarem pouco da sua própria saúde e que em geral se autodiagnosticam e se automedicam.
Para Dejours (1992), a relação com o trabalho produz no homem tanto saúde quanto a doença, de modo que o trabalho nunca é neutro. Nesse sentido, além da indisponibilidade de tempo para cuidar de si, a jornada de trabalho desgastante e os acidentes de trabalho apresentam-se como fatores que podem possibilitar a degradação da saúde dos obstetras.
No que concerne a jornada de trabalho desgastante, já foi discutido anteriormente que os obstetras convivem diariamente com o ritmo de trabalho muito intenso, no qual, a jornada de trabalho não se apresenta fixada apenas nos horários de plantão ou no consultório particular, mas se estende para qualquer hora do dia e da noite em que as pacientes necessitem. Esse ritmo intenso de trabalho favorece, de acordo com alguns obstetras, a uma sensação de cansaço permanente.
Além disso, para trabalhar em um ritmo de trabalho sempre intenso é necessário que estes profissionais estejam em um estado de constante alerta e atenção. Assim, é possível observar no discurso dos participantes que a atividade médica tem um carácter estressante. Como expressam os obstetras a seguir:
...você trabalha em um ambiente de pressão. Você trabalha pressionado todos os dias. Então, a gente vê a quantidade de colegas que tomam antidepressivos, ansiolíticos, é enorme. Não somente com a obstetrícia, eu acho que a medicina de uma forma geral.
(GO 7)
Em geral é o estresse. O que o médico mais adoece hoje em dia é por stress mesmo, por todas essas questões de cobrança. De você querer fazer uma coisa e não puder, e não ter condições e, assim, tem a s doenças psicossomáticas né, às vezes vem insônia,
dor de cabeça, diarreia, que são doenças que estão diretamente ligadas ao stress. ...como a gente leva um estilo de vida assim, dormindo pouco, comendo mal, sem fazer atividade física, então às consequências são essas. (GO 1)
Assim, nota-se que o constante estado de alerta e vigília e um ambiente de elevada pressão faz com que a atividade médica tenha um caráter estressante. A pressão, o estresse, as cobranças, a falta de insumos proporciona insônia, falta de apetite ou muito apetite, problemas intestinais, entre outros. Consequentemente, esses aspectos da atividade médica incidem na mente e no corpo dos profissionais.
Nogueira-Martins (2003) salienta que a profissão médica tem um caráter ansiogênico. Para este autor, o exercício profissional da medicina tem como regra geral, com raras variações, uma exposição a efeitos psicológicos que emanam do contato íntimo com o adoecer. Ou seja, no âmbito assistencial dos serviços em saúde, principalmente os serviços de emergência (quadro em que a obstetrícia se encontra), há a possibilidade do encontro do profissional com situações dramáticas, em que a vida de outrem está em suas mãos e suas ações podem favorecer ao restabelecimento da saúde ou a morte.
E com relação às questões psicológicas, o estresse de várias coisas, por exemplo a falta de sono adequado ou o estresse de excesso de carga horária trabalhada, a perda de uma vida, isso tudo gera trauma s que são, eu acho que não há nenhum ser humano que fique inerte ou passivo a uma perda de uma vida ou um bebê especificamente. ...a gente fica com transtorno ansioso, muitos colegas desenvolvem a depressão, ou piora da depressão. ...então isso gera muito trauma, uma noite sem dormir, gera estresse né, transtorno ansioso. ...às vezes a gente chega em casa o sono fica todo trocado, você não consegue dormir, entendeu?!” (GO 6)
Destaca-se, portanto, que a carga psíquica causada pela natureza da profissão leva o organismo a reagir de inúmeras formas para retomar o equilíbrio. De acordo com Dejours (1992), apesar de o trabalhador conviver com situações duras e desestabilizastes, as pesquisas clínicas demonstram que a maioria das pessoas conseguem resistir e encontram um estado de normalidade. Para tanto, esta normalidade não é facilmente conquistada, mas a custo de certas patologias somáticas e até crônicas, no qual, submergiu uma parte do sofrimento vivenciado pelos trabalhadores. Ou seja, quando o sofrimento não consegue encontrar soluções concretas para a transformação do vivido, no caso do obstetra, quando este não consegue vencer a morte ou contornar a falta de estrutura – por exemplo – é possível que este sofrimento desencadeie doenças psicológicas e/ou psicossomáticas.
Em uma conversa observada entre uma obstetra e um residente de obstetrícia, foi expresso pelo residente a seguinte frase: “Quando eu acabar esse rodízio eu vou tomar uma cachaça muito grande, porque ficar de segunda a sexta aqui a gente pira” (OBS GO 8). Dessa
maneira, é possível inferir que essa é uma forma de liberar a tensão e o estresse vivenciados no ambiente de trabalho, uma estratégia de defesa.
Em contrapartida, importa salientar que alguns entrevistados expressaram que o ambiente de constante pressão e estresse não ocasiona problemas em sua saúde, ou pelo menos não percebem relação entre o seu trabalho e seu estado de saúde.
No que se refere aos possíveis acidentes de trabalho, os participantes relataram unanimemente que a profissão médica, assim como os outros profissionais da saúde, convive diariamente com riscos para a integridade física dos trabalhadores, em um ambiente insalubre. Como exemplo, destacam-se os trechos a seguir:
Contaminação. Assim, existe um paciente que você nem sabe que estão, por exemplo, com HIV positivo, a gente já cansou de pegar paciente aqui que não sabia que era soro positivo e descobriu no pós-parto. Então uma paciente dessa você necessita de uma cesariana, se corta com o bisturi ou você está dando um ponto numa paciente dessa e se fura com agulha. É um risco, é um risco inerente à profissão. (GO 2)
Existe, porque a gente trabalha muito com fluidos então a gente fica com luva, mas muitas vezes a gente suja braço, os óculos estão sempre sujos com sangue entendeu? O pé, o sapato com liquido, então muitas vezes são pacientes com VDLR positivo, HIV positivo que ainda não sabem.... Então a gente está exposta sobre esse ponto de vista né sobre essa questão de sangue de tudo. (GO 12)
Assim, corrobora-se com Dejours (1992), quando este afirma que as condições de trabalho incidem no corpo do trabalhador. Contudo, apesar de os obstetras trabalharem em ambiente de tantos riscos à saúde, foi possível perceber no discurso dos participantes que estes não atribuem grande relevância a essa problemática. Talvez seja porque atribuem outros riscos à saúde, como as ameaças sofridas no ambiente de trabalho (no eixo subsequente esse assunto será retomado). Ou ainda, essa atitude reflita mais uma estratégia de defesa, ou seja, mais uma negação da realidade.
Você acaba se contaminando, então os riscos são reais. Só que de fato a gente negligência um pouco, como se a gente entregasse a Deus... É, "isso aqui não é nada, vamos simbora", olha os exames da paciente lá na hora, mas os exames podem dá um falso negativo e na verdade a gente fica um pouco omisso em relação a isso. (GO 6)
Eixo IV