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O levantamento de conteúdos dos depoimentos dos professores da escola pública e da particular, na perspectiva de conteúdo categórico (LIEBLICH et al., 1998) subsidia a análise comparativa dos dois contextos. Tal levantamento é apresentado no quadro 4, na parte 2 deste estudo, por meio de temas e correspondentes aspectos emergidos no discurso dos professores da escola pública e da particular. Na observação dos dados, foi possível constatar mais semelhanças do que diferenças nos apontamentos dos professores dos dois contextos. Os mesmos temas e grande parte dos aspectos relacionados emergiram tanto no discurso dos professores da rede

pública quanto no dos professores da rede particular. Sendo assim, a seguir, apresento quadro que marca especificidades dos discursos dos professores, as quais considero que não sejam muitas e nem delimitadoras. Razão disso é que ao analisar os dados apresentados, observo que aspectos mencionados por professor de um contexto não ressaltados nos depoimentos dos professores de outro contexto, poderiam emergir em outra oportunidade de fala do professor. Por exemplo, o professor da escola particular afirma que usa inglês em sala de aula, apontando isso como proveitoso para seus estudantes. Os professores da escola pública poderiam ter essa prática e entender seu benefício sem, no entanto, ter mencionado tal aspecto no momento da coleta de seu depoimento. Portanto, reflito que as especificidades apresentadas nesta investigação, referentes a cada contexto, não diferenciam necessariamente a escola pública da escola particular.

QUADRO 11- Temas e aspectos específicos da escola pública e da particular

Temas Aspectos explicitados somente pelos

Professores da Escola Pública

Aspectos explicitados somente pelos Professores da Escola Particular Descrição dos

Estudantes

x Personalidade extrovertida x Curiosidade

x Gosto por desafio no processo de aprendizagem

x Não têm medo de arriscar e de errar

Agência e Motivação

dos Estudantes

x Usam a aprendizagem da sala de aula em situações reais de uso da língua

x Pesquisam na Internet (letras de música) x Buscam ajuda, para aprender, de amiga

com maior conhecimento da língua

x Usam estratégia de aprendizagem /Têm metolodogia própria de estudo (registros de vocabulário e

expressões aprendidas, em pasta catálogo, para futuras consultas) x Interagem em inglês com o professor x Usam inglês em sala de aula

Contexto Favorável à Aprendizagem

na Escola

x Sala ambiente para língua inglesa em uma escola pública

x Ambiente escolar lhe traz prazer/ alegria

x Sentimento de segurança /confiança em relação ao trabalho pedagógico oferecido pela coordenação da escola x Autonomia para escolher material

didático

x Acesso à e-board em sala de aula Contexto

Favorável à Aprendizagem

Fora da Escola

x Apoio de amiga mais proficiente na aprendizagem

Prática do Professor Promotora de Aprendizagem

x Orientam os estudantes: apresentam instruções claras sobre objetivos das atividades propostas

x Trabalhos com gêneros textuais – gramática contextualizada

x Conversas informais com os alunos em inglês

x Uso de inglês em sala de aula x Momentos de reflexão sobre

necessidade de aprender inglês e sobre a utilidade da língua

x Sugestões de como aprimorar inglês fora de sala de aula

x Incentivo à fala em inglês independente do nível linguístico (ênfase de que todos estão no processo de aprendizagem, no qual o erro faz parte)

x Prova oral que instiga aprendizagem

Observo que os professores da rede pública e da rede privada, ao discorrer sobre seus estudantes e sobre o contexto de trabalho, assinalam experiências de motivação ligadas a ações específicas dos estudantes para aprender inglês, promovidas pelo contexto sociocultural situado, isto é, pelo seu contexto fora da escola favorável à aprendizagem (oportunidades de acesso à mídia, à interação com par mais proficiente, etc.) e pelo contexto escolar favorável (prática do professor, subsidiada pelo apoio e condições adequados ao processo de ensino/aprendizagem oferecidos pela escola).

Portanto, tanto professores quanto estudantes referem-se à ações empreendidas pelos estudantes, nos dois contextos escolares – público e privado, para aprender a língua, revelando exercício de agência, mediado por contexto propício.

Com isto em mente, concluo que a prática de agência desses estudantes se manifesta de maneira similar na escola pública e particular, envolvendo determinação voltada para alcançar objetivos significativos, a saber: ser falante da língua devido à escolha da futura profissão, interagir com colegas em sala de aula, jogar jogos online, etc., ou até mesmo cumprir papel de aluno, segundo suas concepções, como no caso de estudante que expressa crença de que o sucesso na aprendizagem de inglês acontece por meio de esforço, de prestar atenção às aulas e de se comportar durante as aulas. Os estudantes encontram sentido nas experiências de aprendizagem em sala de aula (MICCOLI, 2011a)172, ao relacionar o ensino da língua às suas intenções de uso de língua e às suas crenças. Favorecidos pelo contexto situado, motivados e propositados a aprender inglês, e ainda, acreditando nesta possibilidade, alunos da escola pública

172

Miccoli (2011 a) relaciona aprendizagem ao sentido que os estudantes encontram no que acontece em sala de aula, conforme citei anteriormente neste trabalho.

e da particular buscaram oportunidades de uso da língua fora da sala de aula, participaram ativamente dentro de sala de aula, e ainda influenciaram positivamente seu contexto escolar, atuando como agentes no processo de aprendizagem. Desse modo, a consequência de seus atos agentivos é de êxito na aprendizagem da língua.

Finalmente, ressalto que o contexto das escolas públicas pesquisadas não se mostrou menos favorável do que o contexto das escolas privadas. Evidenciamos nesta pesquisa dois professores comprometidos com o seu ensino, satisfeitos com o seu trabalho e com condições satisfatórias para o seu trabalho. Ainda que, uma professora da escola pública aponte demora na aquisição de recursos pedagógicos. Em suas palavras:

Em relação à escola, tenho apoio da direção na aquisição de materiais, dicionários, vídeos, embora demore um pouco, mas sempre chega. Instalaram uma tv e dvd na sala e tenho acesso ao datashow sempre que preciso. Há também alguns professores com quem posso contar no caso de atividades interdisciplinares. Esse ano, por exemplo, devo aproveitar que a professora de ciências vai trabalhar alimentação e devo entrar com o vocabulário em inglês para os alunos produzirem pirâmides alimentares e colarem nas salas de aula.

[Excerto 79: professora Angela da escola pública]

Tendo apresentado os principais resultados deste trabalho e a partir da análise dos dados coletados, bem como evidenciado que é possível aprender inglês na escola, e que para tanto, é preciso oferecer propiciamentos aos estudantes, passo a tecer considerações finais desta pesquisa, retomando minhas perguntas iniciais e respondendo-as, discutindo as implicações, bem como, as principais contribuições deste estudo, finalmente, sugerindo direções possíveis para futuras pesquisas.

CAPÍTULO 5