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Nesta seção apresentaremos a sinopse obtida a partir do plano global dos conteúdos temáticos.

Quadro 9: Sinopse da aula da sala 2

Sequência 1 Conversa inicial (Extrato 1: turnos 1 a 3)

Sequência 2 Apresentação do objeto de estudo pelo professor (Extrato 2: turnos 4 e 5)

Sequência 3 Apresentação pelo professor do suporte a ser utilizado na aula pelos alunos (Extrato 3: turnos 6 e 7)

Sequência 4 Apresentação pelo professor da esfera de circulação da resenha (Extrato 4: turnos 8 a 10)

Sequência 5 Apresentação pelo professor dos possíveis objetos para se resenhar (Extrato4 e 5: turnos 11 e 12)

Sequência 6 Apresentação pelo professor dos suportes onde se podem encontrar resenhas. (Extratos 5 a 7: turnos 13 a 15)

Sequência 7 Apresentação pelo professor da estrutura básica que compõem a resenha: Parte A: descrição técnica; Parte B: Resumo e parte C: Avaliação crítica.(Extratos 7 e 8: turnos 16 a 24)

Sequência 8 Explicação pelo professor de como fazer resumo para a resenha. (Extrato 9: turnos 25 a 139)

Sequência 9 Explicação pelo professor de como fazer avaliação crítica para a resenha. (Extratos 10 a 14: turnos 140 a 244)

Sequência 10 Professor reconstrói a resenha pelas partes que foram apresentadas aos alunos (Parte A, B e C) (Extrato 15: turnos 245 a 249)

Sequência 11 Fechamento do primeiro módulo da aula. (Extrato 16: turnos 250 a 255)

5.4 Gestos Didáticos Fundadores, Específicos e de Aprendizagem

Nesse ponto, explicitaremos como organizamos, apresentamos e interpretamos os dados e as análises. Assim, primeiro exporemos os gestos didáticos fundadores verificados na aula da sala 2, provenientes dos estudos de Aeby-Daghé e Dolz (2008). Em seguida, apresentaremos os gestos didáticos fundadores encontrados, acrescentados daqueles que emergiram da análise realizada no corpus obtido na sala 2. Optamos, também, por apresentar e analisar os dados que comprovam o que verificamos sobre os gestos didáticos fundadores, os gestos didáticos específicos e os gestos postulados por nós como gestos de aprendizagem.

5.4.1 Gestos didáticos fundadores

Para chegarmos a este formato de apresentação dos resultados e análise dos mesmos, é importante dizer que realizamos algumas tentativas que propiciaram que fôssemos aprimorando o modo de apresentação. Tínhamos o corpus, sabíamos como iríamos analisá-lo, mas nos deparamos com a dificuldade em apresentá-lo, de forma mais organizada e, por fim, discuti-lo. Realizamos, então, as análises da sala 1, e procuramos colocar em um sistema as apresentações dos resultados, as análises e as discussões.

Foi dessa maneira que construímos um molde de apresentação dos resultados, análise e interpretação dos resultados para as salas 1, 2 e 3.

Verificamos um percurso diferente quanto ao que o professor faz, resultando em gestos didáticos diferentes daqueles que foram verificados na sala 1. Não há dúvida de que uma explicação para isso seja o objetivo da aula ser diferente na sala 1 e na sala 2 para o mesmo objeto de estudo, ou seja, na aula da sala 1, a professora tinha como objetivo levar os alunos a escreverem, ao final de sua explicação, uma resenha acadêmica, gerada por uma situação comunicativa, que julgavam positiva em relação ao desempenho dos alunos. Na aula da sala 2, a professora tinha por objetivo explicar um conteúdo de prova.

Nesse sentido, a verificação dos gestos didáticos fundadores sofrerá uma pequena mudança em sua ocorrência. O gesto didático fundador de formulação de tarefas, por exemplo, não ocorreu. Se olharmos o objetivo do professor nessa aula, poderemos justificar, pelo menos neste segmento de aula, a não ocorrência de tal gesto, uma vez que a professora não tinha a mesma situação comunicativa que levasse a contextualizar a aula, provocando o aluno para que assumisse o papel de resenhista, uma vez que ele não tinha vivenciado aquela determinada situação que foi a exposição do projeto.

Dessa forma, no que se refere aos gestos didáticos fundadores, podemos dizer que seis gestos, tais como nos fundamentamos na proposição de Aeby-Daghé e Dolz (2008), foram identificados: 1) Presentificação; 2) Focalização; 3) Implementação de dispositivos didáticos; 4) Criação de memória didática; 5) Regulação interna e local e 6) Institucionalização.

Confirmamos que dos gestos didáticos fundadores emergem os gestos didáticos específicos, como postulam Aeby-Daghé e Dolz (2008). Optamos, em nossas análises, por não estabelecermos relações imediatas entre os gestos fundadores e específicos, ou seja, para cada gesto didático fundador, apresentar o gesto didático específico, embora a relação seja intrínseca entre eles, como atestam os autores, em alguns casos. Assim, nossa opção foi apresentar inicialmente os gestos didáticos fundadores, depois os gestos didáticos específicos e, por fim, os gestos de aprendizagem, separadamente.

Com relação aos gestos de aprendizagem, podemos dizer que também se relacionam aos gestos didáticos específicos, pois emergem destes, sendo que os três tipos de gestos – dois do professor (fundador e específico) e mais o gesto produzido pelo aluno (de aprendizagem) – criam uma cadeia de interrelações que, nesta pesquisa, não será abordada com profundidade, mas que pudemos verificar no percurso de nossa análise, como já dito anteriormente.

Também, optamos por selecionar os extratos que melhor apresentam os gestos didáticos fundadores, com o objetivo de melhor organizar os dados e dar clareza às análises e interpretações. A análise dos gestos didáticos fundadores nos permitiu observar o agir docente no momento do ensino-aprendizagem do gênero resenha no contexto geral (em sociedade). Embora a professora tivesse interesse

em explicar a resenha na esfera acadêmica, até o ponto da gravação, a professora explicitou a resenha na esfera social.

É perceptível que os gestos didáticos fundadores vão emergindo de intervenções didáticas provocadas pela professora, que parte de um objetivo definido para sua aula (ensinar o gênero resenha acadêmica) e conhece o percurso a ser percorrido (apresentar a estrutura da resenha no contexto geral e resenha acadêmica).

Também verificamos que foram expressivas as ocorrências dos gestos didáticos fundadores de criação da memória, presentificação, focalização, regulação e institucionalização. Não ocorreram os gestos didáticos fundadores de formulação de tarefas, como dissemos. Os gestos didáticos fundadores de implementação de dispositivos didáticos ocorreram com menor frequência. A partir da não ocorrência dos gestos didáticos fundadores de formulação de tarefas e dos de implementação de dispositivo didático, dois gestos que se interrelacionam, foi possível inferir que a aula se desenvolveu com gestos centrados no agir docente, em maior grau; e em menor grau, no agir do aluno. Este é um índice importante que pode ser levado em consideração para revelar o processo de ensino-aprendizagem.

5.4.1.1 Presentificação e implementação do dispositivo didático

Excerto 25

(Turno 4) PROFESSORA eu pretendo trabalhar com vocês resenha// E aí eu começo a trabalhar/ aqui na lousa/ e eu gostaria de fazer o seguinte: como eu vou construir com vocês? Eu gostaria/ na verdade/ de construir com vocês a noção/ o conceito de resenha// E/ com ele/ eu também vou falar sobre resumo// Não há como falar sobre resenha sem falar sobre resumo//

A professora começa a aula com o gesto didático fundador de

presentificação do objeto de estudo. Além disso, já define o dispositivo didático que

fará uso: a lousa, gesto didático fundador de implementação de dispositivo

didático, negritado no exemplo acima. A professora informa aos alunos que

construirá com eles a definição de resenha, com o objetivo claro de envolvê-los na aula. Entendemos que não podemos ir rotulando todos os gestos como “este” ou “aquele”, mas poderíamos inferir que quando o professor confere responsabilidade

ao aluno na construção do seu conhecimento, este também pode ser entendido como um gesto didático fundador de (co)responsabilidade no processo de ensino- aprendizagem.

Excerto 26

(Turno 4) PROFESSORA Eu gostaria/ na verdade/ de construir com vocês a noção/ o conceito de resenha//

Diferente da aula na sala 1, em que a professora utilizou o gesto didático fundador de utilização da memória, nesta sala a professora começa por presentificar o objeto e informa que será conteúdo da prova, enfatizando, assim, a importância de o aluno prestar atenção na aula.

5.4.1.2 Gesto didático fundador de implementação de dispositivo didático do aluno

Excerto 27

(Turno 6) PROFESSORA Eu prefiro que você use o Caderno/ então/ tudo bem? Por isso que eu disse: “Abre o Caderno.” E/ eu gostaria que vocês estivessem bem concentrados/ porque a gente vai construir aqui alguns conceitos// A resenha/ onde é que ela circula? Circulação da resenha.

(7) [Escreve na lousa]

A professora define o uso do seu dispositivo didático (a lousa), para, em seguida, definir o dispositivo didático do aluno (o caderno).

Ao que nos parece, como o objetivo da aula é ensinar resenha acadêmica com o objetivo final de aplicação do que foi entendido em questões de prova, percebemos que a objetividade no percurso dos conteúdos temáticos que vão sendo hierarquizados é maior e mais pontual do que o que ocorreu na sala 1, que tinha como objetivo aplicar os conhecimentos obtidos em resenha na vivência dos alunos em uma situação comunicativa.

5.4.1.3 Focalização do objeto

Pela razão já apresentada anteriormente, em relação ao direcionamento dado à aula, pela professora, esta passa à delimitação do objeto, ou seja, produz gestos

didáticos fundadores de delimitação. Tais gestos focalizam as dimensões

ensináveis da resenha, à sua decomposição e exposição ao estudo. Excerto 28

(Turno 8) PROFESSORA: A resenha circula tanto em sociedade/ e na universidade// Geralmente/ a gente não tem muita dúvida/ muito problema com a resenha na sociedade/ mas haverá alguns problemas na universidade/ porque quando o texto surge na universidade/ ele surge junto com a formatação do trabalho acadêmico// Dessa questão vocês não vão poder

(Turno 11) PROFESSORA: Em sociedade a resenha vai aparecer em jornais e revistas// O objetivo da resenha é sempre dar conhecimento de algo a alguém// Esse algo... Esse algo pode estar dentro da universidade ou pode estar dentro da sociedade// Esse alguém então pode ser um ser universitário/ ou como pode ser um ser aí social//

(Turno 12) PROFESSORA Se a resenha ela dá conhecimento de algo a alguém/ vamos ver em sociedade como é essa resenha/ para que serve essa resenha// Eu vou pegar alguns exemplos// O objeto da resenha – o objeto/ não é mais objetivo... O objeto da resenha é sempre algo apreciável// “Ora/ de que maneira algo apreciável?” Algo que você possa apreciar// Em sociedade/ esse algo apreciável é um filme/ por exemplo/ uma peça teatral/ ou ainda uma música/ ainda um restaurante/ ou ainda um bom vinho// “Nossa! Então o que é uma resenha?”

Assim, vemos, no turno 8, que a professora apresenta a esfera de circulação da resenha; já no turno 11 a professora apresenta o objetivo da resenha. No turno 12, a professora explica o objeto da resenha. Esses gestos vão decompondo as dimensões do gênero resenha.

Excerto 29

(Turno 18) PROFESSORA: Estrutura da resenha// A resenha apresenta uma estrutura mais ou menos fixa/ que é: parte A/ a parte B e a parte C//

(Turno 19) PROFESSORA: Na parte A você tem a descrição técnica... Ô/ meninas/ vamos parar de conversar aí/ em nome de Deus!

(Turno 21) PROFESSORA: Na parte B/ você vai ter o resumo e na parte C você tem avaliação crítica.

Nos turnos 18 a 21, a professora apresenta a estrutura da resenha, nas partes que elegeu para o estudo: A, B e C, descritas no extrato.

5.4.1.4 Criação de memória didática

Há, em muitos momentos da aula, ocorrências onde a professora evoca a memória dos conteúdos que já foram ensinados. Assim, o gesto que emerge é o

gesto didático fundador de criação de memória didática. Vejamos os exemplos a

seguir.

Excerto 30

(Turno 1) PROFESSORA: Agora que o negócio vai ferver! Vocês se lembram quando nós aprendemos resumo? Lembram-se? Lembra lá/ pro trabalho acadêmico?

(Turno 2) ALUNOS: Sim.

(Turno 3) PROFESSORA: Eu dizia assim: vamos textualizar o seu resumo// Vamos tirar o resumo do trabalho acadêmico/ e me digam/ por favor/ qual é objetivo do resumo lá no trabalho acadêmico// Quem se lembra?

Entendemos que convocar a memória do aluno sobre o que aprendeu em outras aulas é importante, porque faz ponte entre o que o aluno já sabe e o novo conteúdo. Nesse sentido, o objetivo da professora é fixar conhecimentos.

5.4.1.5 Regulações para o aprendizado

Durante o processo de ensino-aprendizagem, o professor cria oportunidades para mensurar o que o aluno sabe. Assim, o gesto didático fundador de regulação marca bem esse movimento didático observável na interação com o aluno.

Excerto 31

(Turno 98) PROFESSORA: [...]Quem daqui já teve aquele problema de ler alguma coisa/ mesmo que seja pequena/ fechar e dizer assim: espera/ eu lembro o que eu li? Péra que eu vou lembrar! Já?

(Turno 99) ALUNO: Já.

(Turno 100) PROFESSORA: Dá aquele branco, não?... (Turno 101) ALUNO: Dá!

(Turno 102) PROFESSORA: Já/ ué[?][25’11]! No dia de prova mesmo/ você lê o negócio/ acabou de ler/ vai lá fazer a prova e dá um branco! Acontece isso?

(Turno 103) ALUNO: Acontece.

(Turno 104) PROFESSORA: E aí você diz assim: “Não é possível! Eu devo ter problema!”/ não é? “Eu devo ter caído do berço...” (Turno 105) ALUNO: Eu devo ter problema!

São observados os gestos didáticos fundadores de regulação, neste caso,

gesto didático fundador de regulação interna, com o objetivo de obter

informações, mesmo na brincadeira, sobre os conhecimentos que os alunos mobilizam sobre o ponto que a professora deseja ensinar.

Com relação ao gesto didático fundador de regulação local, no que se refere às avaliações feitas pelo professor na participação do aluno, encontramos alguns exemplos, expostos a seguir.

Excerto 32

(Turno 71) PROFESSORA: [...]Descrição técnica/ para uma resenha/ é dizer qual é o objeto// Se eu tenho/ no caso aqui livro/ eu vou fazer de que maneira? Como o apresentaria a descrição técnica desse livro? Vamos ver se vocês chegam...

(Turno 73) ALUNO: [Comentário ininteligível] [17’43]

(Turno 74) PROFESSORA: Fala/ que você disse, está certo! (Turno 75) ALUNO: Tá certo?

(Turno 76) PROFESSORA: Tá! Fala! [Risos]

(Turno 79) PROFESSORA: [...] Só me diga o elemento mais “assim” que você apresentaria esse livro?

(Turno 80) ALUNO: Nome.

(Turno 81) PROFESSORA: Nome... Exatamente. (Turno 82) ALUNO: Autor.

(Turno 83) PROFESSORA: [...] Como se faz a referência bibliográfica dele?

(Turno 84) ALUNO: O nome do autor?

(Turno 85) PROFESSORA: Isso! O nome do autor//

A regulação entendida como local é feita de maneira que a professora avalie o que os alunos desenvolvem sobre os conhecimentos, no momento do ensino- aprendizagem de um determinado objeto de estudo. As avaliações positivas do professor fazem parte dessa regulação, entendidas como gestos didáticos

fundadores de regulação local, importantes no direcionamento do aluno para que

5.4.1.6 Institucionalizar para fixar

O gesto didático fundador de institucionalização para o estudo da resenha, nesta sala, foi um dos mais ocorrentes. Observamos que a professora pautou sua aula na exposição oral do objeto de ensino; vez ou outra a professora utilizou a lousa e quando o fez foi para apresentar esquemas do objeto de estudo. Observamos que cada vez mais a professora fazia alusão a diferentes objetos passíveis de serem resenhados. Dessa forma, com o objetivo de fixação do saber, cada vez mais eram elaboradas generalizações sobre o objeto de ensino. Essas generalizações, que formam os gestos didáticos fundadores de institucionalização, envolvem informações sobre outros objetos possíveis de serem resenhados, como foi o caso, por exemplo, da alusão feita à resenha de bares, restaurantes, baladas, vinhos, filmes e obra literária. Vejamos alguns exemplos.

Excerto 33

(Turno 13) PROFESSORA: Resenha é um texto que/ em sociedade/ aparece muito em jornal// Lá no lazer vocês já escolheram filme a partir das resenhas/ a partir daqueles textos pequenos que te informam uma descrição técnica/ ou seja/ quem é ou quem são os autores – os atores/ melhor dizendo –/ quem é o diretor/ onde foi rodado o filme// Depois você tem um resumo bem breve do filme/ sem contar o final/ e depois você tem uma avaliação// Uma bombinha significa que o filme é ruim/ uma carinha sorrindo ou estrelinha significa que o filme é bom// A revista Veja ela traz resenhas ali de bares/ de baladas/ de restaurantes// Vocês já viram essa revista?

(Turno 154) PROFESSORA: Critérios de análise// Esses critérios de análise/ eles devem ser primeiro pensados pra você saber que tipo de avaliação você vai fazer// Eu vou dar um exemplo// Se eu tenho um livro para eu fazer uma análise/ eu posso falar/ em primeiro lugar/ sobre o título.

(Turno 156) PROFESSORA: Título e obra// Obra é o escrito/ né? É o que tá dentro/ escrito// A relação... A relação... Por exemplo/ os livros de literatura... Existe um livro de literatura “Lucíola”// Acho que vocês devem ter ouvido falar// Esse livro/ “Lucíola”/ ele não tem/ não apresenta nenhuma personagem dentro que tenha o nome de Lucíola// Nenhuma! A história vai falar sobre o quê?

(Turno 198) PROFESSORA: Eu já li uma resenha de um filme/ aquele filme “Um dia depois de amanhã”// Vocês assistiram a esse filme?

Com os gestos didáticos de institucionalização, o professor leva os alunos a observarem o objeto de estudo, em nosso caso, de forma imagética, ou seja, procura na memória do aluno as imagens que ele guarda sobre o objeto de estudo, que, por vezes ele não sabe denominar, mas conhece. Este movimento nos faz pensar que se o professor dispusesse de dispositivos didáticos como vídeos que pudessem presentificar o objeto sobre o qual ele declina, o processo de ensino- aprendizagem poderia ser muito mais enriquecido, não mais com imagens mentais, mas com imagens visuais. Certamente, isso já ocorre em muitas escolas brasileiras, mas nos referimos a dispositivos didáticos que estejam à disposição de professores e alunos sem que estes tenham que ser descritos em planos de aula, engessados em projetos, mas na emergência de uma determinada situação imprevista em sala de aula. Entendemos que o que “plastifica” muito as aulas, em qualquer nível, são, por exemplo, as previsões provenientes das prescrições de planos de aula, tema sobre o qual não nos aprofundaremos.

5.4.2 Gestos didáticos específicos

São gestos didáticos específicos, como já dissemos, os gestos verificados nas ações de um professor de uma determinada disciplina. Esses gestos são característicos no ensino-aprendizagem de um objeto de ensino específico, em nosso caso, a resenha acadêmica. Ressaltamos que a gravação da aula da sala 2 não se estendeu, pelos motivos já apresentados, ao ensino da resenha na esfera universitária, ou seja, focalizar a resenha acadêmica, o que ocorreu posteriormente. Por essa razão, utilizaremos a denominação resenha e consideramos aquelas que circulam na esfera social: revistas, jornais, etc. Também ressaltamos que destacamos a mesma estrutura básica para o ensino da resenha, tanto a acadêmica como a de circulação em sociedade.

Assim, em relação aos gestos didáticos específicos, identificamos cinco materializações desses gestos nas ações da professora, sendo que o quarto gesto, o gesto didático específico de focalizar a estrutura da resenha, foi decomposto em 3 aspectos e o quinto gesto, apresentado em quatro aspectos. Assim, relacionamos: 1) gesto didático específico de focalizar a esfera de circulação da resenha; 2) gesto

didático específico de focalizar o objetivo do gênero resenha acadêmica; 3) gesto didático específico de apresentar o suporte que contém o gênero resenha; 4) Gesto didático específico de focalizar a estrutura da resenha: a) descrição técnica; b) resumo; c) avaliação crítica; 5) Gesto didático específico de: a) diferenciar; b) comparar; c) focalizar emissor da resenha; d) estabelecer critérios de análise. Por fim, apresentamos nossa interpretação sobre os gestos que consideramos gestos de aprendizagem.

Os gestos didáticos específicos vão emergindo ao longo do processo de ensino-aprendizagem da resenha e são movimentos intencionais do professor em delimitar e desconstruir as dimensões ensináveis do gênero, focalizando essas dimensões em um movimento que verificamos crescente, com relação ao gênero resenha.

A seguir, apresentaremos alguns exemplos, destacando os gestos didáticos específicos identificados e, ao final, como já dissemos, os gestos de aprendizagem.

5.4.2.1 Gesto didático específico de focalizar a esfera de circulação da resenha

Em relação ao objeto de estudo gênero resenha, observamos o gesto

didático específico de focalizar a esfera de circulação da resenha. Esse gesto é

relativo ao gesto didático fundador de delimitação. Assim, a professora explica a esfera de circulação da resenha, procurando estabelecer contato com o que o aluno já conhece, de forma a fixar conhecimento novo a partir da focalização dessa dimensão. Vejamos um exemplo.

Excerto 34

(Turno 11) PROFESSORA: Em sociedade a resenha vai aparecer em jornais e revistas// O objetivo da resenha é sempre dar conhecimento sobre algo a alguém// Esse algo... Esse algo pode estar dentro da universidade ou pode estar dentro da sociedade// Esse alguém então pode ser um ser universitário/ ou como pode ser um ser aí social//

5.5.2 Gesto didático específico de focalizar o objetivo do gênero em estudo

Excerto 35

(Turno 11) PROFESSORA: Em sociedade a resenha vai aparecer em jornais e revistas// O objetivo da resenha é sempre dar conhecimento sobre algo a alguém// Esse algo... Esse algo pode estar dentro da universidade ou pode estar dentro da sociedade// Esse alguém então pode ser um ser universitário/ ou como pode ser