O folclore é um dos elementos com maior representatividade nos conteúdos identificados na categoria “formação da identidade brasileira e regional”. Para realizar essa classificação foi necessário relacioná-lo com os músicos e compositores, seus porta-vozes. Nesse grupo, os arranjos de canções populares feitos pelo músico brasileiro Villa-Lobos teve presença relevante e expressiva, demonstrando a sua importância para a compreensão do período em questão. Nesses números, o “canto orfeônico” também figurou como elemento útil para se promover o civismo, o patriotismo e a educação musical. Foi com Villa-Lobos que se organizou, no início dos anos 1930, o ensino do canto orfeônico para professores do curso Normal, cuja importância estava em difundir os conhecimentos de teoria musical e dos processos orfeônicos que deveriam ser adotados nas escolas municipais do Distrito Federal, e mais tarde, para todo o País (HORTA, 1994; OLIVEIRA, 2004). Nos auditórios da Hora Educativa foram irradiadas canções folclóricas, que naquele momento estabeleciam relação com o projeto nacionalista de Vargas ao qual o músico estava relacionado:
Heitor Villa-Lobos defendia o forte controle por parte do Estado em relação às atividades ligadas à educação e à cultura. Tal controle visava à valorização da “verdadeira cultura nacional”, que o levou à busca do elemento folclórico e ao propósito de defender a música brasileira “genuína” e de “valor”, ameaçada pela “baixa qualidade” da música estrangeira que invadia o país. A referência à música popular como algo de caráter comercial, o que embutia uma conotação pejorativa, era explícita. A música popular era vista como uma ameaça à música erudita
nacionalista, como algo que representava a confusão e a desordem de uma cultura urbana crescente. Em oposição a essa “barbárie”, o folclore era considerado como fundamento da formação da música brasileira. Era um ponto central usado por Villa-Lobos em defesa da música nacionalista. Ele via no uso do folclore uma maneira de levar a cultura que realmente tinha valor às massas, uma forma de elevar o nível cultural do povo. Para ele, a “música folclórica é a expressão orgânica de uma nação” (NORONHA, 2011, p. 90).
Além de Villa- Lobos, verificamos a presença de Waldemar Henrique e Hekel Tavares, cantores e compositores brasileiros, igualmente referenciados por composições de caráter folclórico206. Waldemar Henrique era natural do Pará e dedicou-se à composição de “canções de inspiração folclórica principalmente amazônica, mas também indígena, nordestina e afro-brasileira” (MARCONDES, 1998, p.797). Segundo Vicente Salles (2005), é no ambiente amazônico que se situa grande parte da sua obra, no entanto, segundo o autor, ele produziu verdadeiro mosaico sonoro nacional. Em 1933, transferiu-se para a capital federal “no momento exato da afirmação da identidade nacional na MPB, introduzindo o estilo amazônico, primeira manifestação de forte cunho regional nortista que se impôs no Rio de Janeiro, na era getulista, cheio de apelos populistas e do desbragado regionalismo” (SALLES, 2005, p. 12). Na Hora Educativa verificamos a irradiação de “Tamba-tajá” e “Cobra Grande”, da Série Lendas Amazônicas, e, “Minha Terra”, canção patriótica composta à época do movimento tenentista. Identificamos também a opereta infantil “O Sapo Dourado”207, produzida junto com Hekel Tavares (SALLES, 2005). Por sua vez, o compositor, regente, arranjador e folclorista alagoano Hekel tem a sua “música situada na fronteira do erudito e do popular” (MARCONDES, 1998, p. 765). Embora tenha optado pelo erudito como estilo de composição, os motivos das músicas eram de inspirações regionais e folclóricas, conforme indica a Enciclopédia da Música Brasileira (MARCONDES, 1998). Muitas de suas obras foram feitas em parceria com outros compositores, como Luis Peixoto e Joraci Camargo. Na Hora Educativa identificamos as músicas E nada mais, Era aquilo só e Casa de Caboclo208. Em seu conteúdo, essas composições remetem ao rural- ao sertanejo- à simplicidade da vida.
206 Conf. Marcondes (1998) e http://www.dicionariompb.com.br/waldemar-henrique/biografia
207 Recebi de presente um CD com a narração e musicalização do conto “Sapo Dourado” de Leniza Castello Branco, a quem agradeço o carinho e atenção.
208 Conf. verbete Hekel Tavares no Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira.<http://www.dicionariompb.com.br/hekel-tavares>
Outras músicas irradiadas são Banzo e Festa, que trazem a figura do negro, da crença e da religiosidade afro-brasileiras209.
Se, por um lado, constatamos um movimento da música popular– folclórica- como depositária de uma pretensa cultura popular brasileira durante o governo Vargas, por outro, notou-se considerável presença de música estrangeira na programação da Hora Educativa, para a qual adotamos a classificação “formação estética e civilizatória”. Esse conteúdo é formado primordialmente pelos números de música erudita tradicional, nos quais verificamos a transmissão de Chopin, Schubert, Mozart, Pierné, Bach, Wagner, Massenet, Mcszkowiski, Mendelshon, Beethoven, Goltermann, Listz. Esses nomes, apesar de vinculados a movimentos musicais diferentes (classicismo, romantismo, etc), trazem em seu bojo a predominância do caráter estético musical, absorvido no seio da sociedade brasileira desde os finais do século XIX. Naquele contexto, tais referenciais respaldavam- se pela tentativa de suplantar a barbárie com que o Brasil era identificado e, nesse sentido, a Europa era tomada como modelo de civilização e progresso a ser seguido210.
Assim, é que no período em estudo, verificamos a permanência de manifestações culturais herdeiras de uma concepção estético-civilizatória calcada em valores importados da Europa ao mesmo tempo em que se pretendia uma ruptura com essa tradição por meio da busca forjada de uma cultura popular nacional, enunciada pelo modernismo. Estava em cena uma multiplicidade de produções artísticas, do erudito, do popular – folclórico ou do samba, maxixe e choro. O rádio, em maior ou menor grau, é lugar, por excelência, de divulgação dessas várias manifestações. Entretanto, no programa infantil Hora Educativa foi possível constatar a presença privilegiada da música folclórica e da música erudita211,
209 Mesmo esses compositores sendo considerados folcloristas, procuramos corresponder o conteúdo da composição com as categorias que elegemos para este trabalho. Assim, algumas das composições mesmo que se relacionando ao folclore/cultura popular de modo geral, foram categorizadas de acordo com o seu tema. Esse é o caso, por exemplo, das músicas de Waldemar Henrique e Hekel Tavares acima citadas, para as quais atribuímos a categoria “formação da identidade brasileira”- dentro da qual se inserem os grupos “rural” e “raça”. Esse procedimento se justifica por tentarmos identificar a presença das identidades no projeto de constituição da nação e, portanto, manifestadas nas produções artísticas. Para os arranjos de Villa-Lobos também procedemos da mesma forma: alguns conteúdos integraram o folclore; outros o patriotismo, conforme a prevalência temática.
210 Arnaldo Daraya Contier (2004) discorre sobre a questão da música nacional tomando como referência a proposta marioandradiana no período entre 1920 a 1945. O autor estabelece contrapontos com o cenário cultural nacional de finais do século XIX, compreendida sob o signo do atraso, e o modernismo da “Semana” de 1922, que buscava o nacionalismo sem romper com as tendências estéticas européias (p.9).
211 Constatamos alguns poucos números de música popular estrangeira como o tango, expresso na música “Lejana tierra mia”, de Carlos Gardel e a música popular italiana “Sole mio”. Da música popular brasileira encontramos “Linda borboleta”, de Alberto Ribeiro e Braguinha, cantada por Carlos Galhardo. Conf. respectivamente MINAS GERAIS,, de 10 jun. 1937, MINAS GERAIS,, de 07 abr. 1937 e MG de 13 out. 1936.
representando, de um lado, uma das vertentes modernistas que se puseram na tentativa de encontro de uma “legítima” cultura popular brasileira; e, de outro, a estética musical européia.