OUTRO NO LAÇO SOCIAL
Žižek, em sua crítica à lógica do capitalismo, apresenta o sujeito do inconsciente da psicanálise como sendo capaz de gerar Atos políticos apropriados para promover uma transformação social. Vejamos então a constituição do sujeito da psicanálise e os principais conceitos que permeiam sua estrutura.
a - A Constituição do Sujeito na Psicanálise Lacaniana
O sujeito do qual a psicanálise trata é o sujeito do inconsciente, que se constitui a partir de duas operações de causação: alienação e separação. Estas duas operações são efeitos da linguagem sobre os quais o sujeito, que ao constituir-se por eles, dá origem à sua singularidade.
É no seminário XI que Lacan (1964/1998) formalizará alienação e separação. A partir do axioma “o inconsciente é estruturado como uma linguagem”, Lacan deduz uma topologia para dar conta da constituição do sujeito. Sobre este axioma Lacan (1964/1998) nos dirá que “O inconsciente, são efeitos da fala sobre o sujeito, é a dimensão em que o sujeito se determina no desenvolvimento dos efeitos da fala, em conseqüência do que, o inconsciente é estruturado como uma linguagem” (p. 142). O fato de o inconsciente ser estruturado como uma linguagem, quer dizer que ele (o inconsciente) é causado por ela (linguagem), ou seja, há uma singularidade do sujeito que o determina a revelia de sua consciência em função de sua alienação como efeito da linguagem.
A entrada na linguagem veda o acesso ao Real, estruturando o sujeito em uma constituição alienante. O sujeito, então, ancorado pela linguagem, ao agregar o que capta do mundo, se constrói determinado pelas leis do inconsciente.
Para melhor compreensão desta passagem, começaremos tratando da formalização lacaniana da operação de alienação, que é tida como forma única de inserção do sujeito na cultura pela entrada na linguagem, pois é pela via da alienação que o sujeito existe, não há sujeito fora dela.
O processo de alienação corresponde ao encontro do sujeito com a linguagem, que já estava instalada nele antes de seu nascimento, nos planos que os pais traçaram para ele. Estes planos são determinados por aqueles que virão a ser os primeiros Outros (os pais) no início da vida da criança, aqueles para quem o sujeito apela e que lhes fornecerão os
significantes necessários para que ele possa servir-se da linguagem.
O Outro, a quem este apelo é dirigido, é aquele que pensamos que deseja algo de nós, quando na verdade somos nós mesmos que desejamos e não podemos lidar com a responsabilidade de desejar tais coisas. Em seu texto “A psicanálise e seu ensino”, Lacan (1957/1998) ilustra essa forma de funcionar nas seguintes palavras: “O inconsciente é esse desejo do Outro em que o sujeito recebe, sob a forma invertida que convém à promessa, sua própria mensagem esquecida” (p. 440). Outro ponto importante a ser marcado sobre o
Outro é que ele é um discurso com o qual o sujeito tem que lidar para ajustar seu desejo à
lei, um anseio inconsciente. Assim, o inconsciente é discurso do Outro, portanto, como disse Lacan (1962/2005) “o desejo do homem é o desejo do Outro” (p. 31). O Outro é também o tesouro dos significantes, ou seja, é a partir do Outro que a cadeia de
significantes é instituída. O significante, por representar o sujeito para outro significante,
instaura o objeto a, o qual está para sempre perdido, pois a cadeia de significantes é infinita. Daly (2006) nos dirá que:
O objeto pequeno a de Lacan refere-se a um certo excesso que é, no objeto, mais do que o objeto – o objeto-causa do desejo. Diríamos que ele menos é o objeto do que o elemento desejável que pode residir em qualquer objeto: o impulso para um ponto de consumação elusivo, que pode ser perfeitamente incidental no objeto em si (por exemplo, uma camisa que um dia foi usada por Elvis Presley). É isto que “autentica” o objeto e/ou a experiência de tê-lo (como a idéia de virgindade em
Esse obscuro objeto do desejo, de Buñuel). Se considerarmos Pulp fiction, de
Tarantino, veremos que a narrativa gira, em última instância, em torno de um objeto perdido/roubado dentro de uma caixa que precisa ser recuperado por Vincent e
Jules. Este objeto não pode ser visto, e há apenas uma alusão a ele no brilho reflexivo dos rostos dos protagonistas. É esse o objeto pequeno a: algo cuja autenticidade não pode ser representada nem materializada, e que é apenas um reflexo da pulsão de completar o circuito (quebrado) do gozo e conciliar-se com o próprio desejo. (ŽIŽEK, DALY, p. 10, grifos do autor)
O objeto a, para a psicanálise lacaniana, representa uma operação constante de falta que causa desejo, ou seja, não há como desejar se não houver falta, pois o que haveríamos de desejar se nada faltasse? Esse desejo se apresenta na busca de um objeto da realidade, mas quando se encontra este objeto da realidade, já não é mais ele. É assim que a lógica do capitalismo coloca em funcionamento o mais-de-gozar pelo consumo, prometendo que o próximo objeto da realidade será o objeto que trará o gozo pleno, mas o que o sujeito encontra é seu desejo sempre mais dividido, mostrando que o objeto a é inatingível, pois insiste apenas como operação de falta, simbolizando algo perdido. E justamente por não poder ser encontrado, movimenta infinitamente o desejo do neurótico, sempre na busca da completude de gozo, tido como impossível pela psicanálise, de modo que, o objeto a é o nome desta impossibilidade. O sujeito, ao se tornar linguageiro, renuncia ao gozo pleno estabelecendo o objeto que coloca em funcionamento o mais-de-gozar. Lacan (1968/1969) nos diz que:
O mais-de-gozar é uma função da renúncia ao gozo sob o efeito do discurso. É isso que dá lugar ao objeto a. desde o momento em que o mercado define como mercadoria um objeto qualquer do trabalho humano, esse objeto carrega em si algo da mais-valia. Assim, o mais-de-gozar é aquilo que permite isolar a função do objeto a. (P. 19)
Vemos aí que o mais-de-gozar é algo ineliminável por isolar a função do objeto a. Ou seja, a função do mais-de-gozar faz parte do sujeito da linguagem, e põe em funcionamento a busca do sujeito pelo gozo pleno, impossível aos usuários da linguagem.
A lógica do capital se apropria do mais-de-gozar ao apresentar os objetos da realidade para serem consumidos, prometendo o gozo pleno buscado pelo sujeito, um gozo
do Real. O problema nesta lógica está em que o gozo do Real, lei insensata do supereu, não pede objetos da realidade apontados pela lógica do consumo. O objeto do desejo oferecido pelo mercado de consumo, não é o objeto a, pois este é indecifrável, é sempre desejo de outra coisa. Safatle (2008), nos dirá que:
Tal caráter insensato indica, entre outras coisas, que o supereu não tem nenhum conteúdo normativo, ele nada diz sobre como gozar ou qual é o objeto adequado ao gozo. Diz apenas um “goze!” sem predicações, um puro “não seda de seu desejo”. O caráter insensato desse puro gozo fica evidente se pensarmos que toda escolha empírica de objeto é inadequada a um gozo que procura afirmar-se em sua pureza de determinações, em independência em relação a toda e qualquer fixação privilegiada de objetos. Ele só pode realizar-se no “infinito ruim” do consumo e da destruição incessante dos objetos que nada mais faz do que atualizar um excedente de gozo. (p. 131-132)
O desejo causado pelo objeto a, então, não é o desejo de objetos nomeáveis pela linguagem. O desejo causado pelo objeto a ao ser instaurado no sujeito em decorrência de seu acesso à linguagem, nunca será um objeto da realidade. O objeto a se torna indeterminado por causa da materialidade do significante que faz com que o sujeito ignore suas necessidades biológicas dando prioridade total à demanda, passando por um apelo ao
Outro, tesouro dos significantes. Dito de outra maneira, é o significante que determina o
desejo do sujeito, sempre como desejo de outra coisa. Lacan (1960a/1998) coloca o desejo como o que “se esboça na margem em que a demanda se rasga da necessidade” (p. 828).
Para entendermos como a demanda se rasga da necessidade, podemos pensar no seguinte exemplo: quando uma pessoa faz greve de fome, é exatamente isso que acontece. Ao abrir mão da necessidade orgânica de alimento, é a demanda quem manda, a necessidade se anula. O desejo causado pelo objeto a, representado pela greve de fome, anula a necessidade de se alimentar e embora o sujeito sinta fome e saiba de suas necessidades orgânicas, ele não comerá, pois, determinado por seu significante, torna-se mais importante não comer do que matar a fome. Há um significante determinando sua atitude de não comer. E é claro, somente os seres usuários da linguagem é que fazem greve de fome. Soler (2002) vai nos dizer que a partir do significante surgido do simbólico “O
corpo não é mais o organismo animal, é um organismo, não somente domado, mas também transformado. Se alguém pode chamar a voz do corpo, recorrer à voz do corpo, não pode esquecer que o corpo toma a voz da linguagem a quem recorre a voz do corpo” (p. 14).
E é por recorrer à voz do corpo tomado pela linguagem que o sujeito pode sustentar uma greve de fome1 e anular as necessidades orgânicas, priorizando a demanda e caracterizando o desejo. Da mesma maneira, outras necessidades podem ser anuladas a partir de uma demanda. É claro que o sujeito vai pagar o preço que o desejo lhe impõe. No caso da greve de fome, o preço é passar fome ou até morrer de fome. É esta a lógica do desejo que condena o sujeito a só poder aparecer numa divisão. Esse poder de superar as necessidades biológicas é um exemplo do que Lacan chama de materialidade do
significante.
No momento em que o sujeito é atravessado pela linguagem, há a presença de um ato que determina sua estrutura, estabelecendo um resto de gozo para sempre perdido, mas incessantemente buscado pelo sujeito. Este resto de gozo para sempre perdido faz nascer o corpo simbólico, que é o corpo de que a psicanálise trata. O corpo passa a ser simbólico por ser atravessado pelos significantes da linguagem e o gozo fica encarregado da distribuição do prazer no corpo, sempre em falta. Desta maneira nasce o corpo simbólico que resiste sobre o corpo orgânico através da cadeia de significantes que ocorre simultaneamente a entrada do Outro na vida do sujeito, o corpo orgânico, passa a ser determinado pelos
significantes deste Outro e não mais por suas necessidades biológicas.
Vejamos agora a topologia deduzida por Lacan para dar conta da constituição do sujeito, ou seja, deste corpo simbólico. Para caracterizar a alienação estrutural pela linguagem, Lacan recorre ao vel da reunião. Lembramos que já há uso para dois tipos de
1 Não queremos com este exemplo afirmar que a greve de fome seja um fenômeno que só se aplique aos sujeitos neuróticos. Sabemos que os psicóticos, por exemplo, também podem se negar a comer afetados por um delírio de que querem envenená-lo, mas neste caso seria um exemplo do que está fora do laço social.
vel, o vel união e o vel da exclusão2. Daí ele vai desenvolver o terceiro vel, o vel da reunião, da escolha forçada. Lacan (1964/1998) se utiliza da lógica da teoria dos conjuntos3 para explicar o vel da alienação a partir da lógica da reunião:
O vel da alienação se define por uma escolha cujas propriedades dependem do seguinte: que há, na reunião, um elemento que comporta que, qualquer que seja a escolha que se opere, há por conseqüência um nenhum nem outro. A escolha aí é apenas a de saber se a gente pretende guardar uma das partes, a outra desaparecendo em cada caso. (p. 200, grifos do autor)
A partir do exemplo de um assaltante que aponta uma arma para uma pessoa e diz: “a bolsa ou a vida”, Lacan coloca que o sujeito vai perder de qualquer maneira, pois se escolher a bolsa perde a vida e conseqüentemente perde também a bolsa. E se escolher a vida, fica sem a bolsa, perdendo assim a liberdade, mas guardando uma das partes, a vida.
Para melhor entendermos o desenvolvimento deste vel, vejamos recorte de Soler (1997):
2 Aqui não nos aprofundaremos na questão do uso destes dois tipos de vel, pois eles não estão em jogo para os nossos propósitos. Se houver interesse de saber mais sobre eles, ver Soler (1997, p.58 a 67), presente nas referências bibliográficas deste trabalho.
3 Teoria dos conjuntos é a teoria matemática que trata das propriedades dos conjuntos. Ela tem sua origem nos trabalhos do matemático russoGeorg Cantor (1845–1918), e se baseia na ideia de definir conjunto como uma noção primitiva. Também chamada de teoria ingênua ou intuitiva devido à descoberta de várias
antinomias (ou paradoxos) relacionadas à definição de conjunto. Estas antinomias na teoria dos conjuntos conduziram a matemática a axiomatizar as teorias matemáticas, com influências profundas sobre a lógica e os fundamentos da matemática. (http://wikipedia.org/wiki/teoria_dos_conjuntos)
Bolsa Vida Vel da “escolha forçada” V V F
V F F
F V V (Nossa única escolha) F F V
Quando se é confrontado com alguém que diz “a bolsa ou a vida”, não se pode escolher a bolsa, pois se escolhermos a bolsa, a vida se torna falsa: perde-se a vida. Não se pode ter ao mesmo tempo a bolsa e a vida. E a bolsa sem a vida também é falso. Assim, quando alguém nos diz “a bolsa ou a vida”, só temos uma única escolha real: obviamente escolheremos a vida. Neste caso a bolsa é perdida e o vel é verdadeiro. Existe apenas uma outra possibilidade, a última do quadro: tem-se a possibilidade de perder as duas. Mas a principal possibilidade para nós é a escolha da vida; logo perde-se a bolsa, e neste caso a vida é apenas uma meia vida, uma vida em que algo (o dinheiro) está faltando. (SOLER, 1997. p. 60)
É por não poder conservar as duas, a bolsa e a vida, que o ser do sujeito se instala subordinado pelo Outro, ou seja, algo dele se aliena ao Outro. Nesta operação o sujeito perde o direito ao gozo pleno, por se instalar no mundo, a ao Outro pela linguagem.
Lacan exemplificará a alienação do sujeito pela linguagem analisando a dialética do senhor e do escravo em Hegel. Em sua análise, ele conclui que tanto para o senhor quanto para o escravo a liberdade é limitada. Sobre a liberdade do escravo, Lacan (1964/1998) vai nos dizer:
Eu lhes falei da última vez, da forma da alienação, que ilustrei com vários exemplos e que lhes disse poder articular-se num vel de natureza muito especial. Poderíamos hoje tentar articulá-lo de alguns modos. Por exemplo – não há algo... sem outra coisa – A dialética do escravo é evidentemente não há liberdade sem a vida, mas não haverá para ele vida com a liberdade. De uma a outra há uma condição necessária. Essa condição necessária se torna precisamente a razão suficiente que causa a perda da exigência original. (p. 205/206, grifos do autor)
Para ter a liberdade de conservar a vida, o escravo paga com o trabalho, comprometendo sua liberdade. Na atualidade, para ilustrar a alienação estrutural do escravo, levando em conta a lógica do capitalismo, podemos exemplificá-la da seguinte maneira: o trabalhador, no lugar de escravo na dialética de Hegel, tem a liberdade de vender sua força de trabalho, mas ao vendê-la, ele perde sua liberdade durante o tempo em que trabalha ao fazer coisas que não concorda, por exemplo. Mesmo assim, trabalha para garantir sua sobrevivência por meio do ganho que terá trabalhando. O que fica evidenciado
aí é que toda a liberdade o sujeito não tem. Neste caso, o trabalhador fica equiparado ao escravo na dialética de Hegel. Ao garantir seu sustento pelo trabalho, sua liberdade fica comprometida, evidenciando sua alienação estrutural ao Outro.
Em seguida Lacan (1964/1998) coloca que as coisas não são diferentes para o senhor, pois sua alienação fundamental aparece pelo fato de sua escolha passar pela morte. Vejamos:
E, a olhar as coisas com um olhar que vá mais longe, vocês verão que é exatamente do mesmo modo que se estrutura a alienação do senhor. Pois se Hegel nos indica que o estatuto do senhor se instaura pela luta de morte de puro prestígio, é mesmo porque é por fazer passar sua escolha pela morte que o senhor, também ele, constitui sua alienação fundamental. Seguramente pode-se dizer que a morte não é, mais do que ao escravo, poupada ao senhor, que ele sempre a terá no fim, que é aí que está o limite de sua liberdade. Não é dizer pouco demais, pois a morte aí não é morte constitutiva da escolha alienante do senhor, a morte da luta de morte de puro prestígio. A revelação da essência do senhor se manifesta num momento de terror, quando é a ele que se diz a liberdade ou a morte e quando ele só tem evidentemente a morte a escolher para ter a liberdade. (p. 208)
Neste caso, o senhor só tem a morte a escolher, pois para ele é insuportável viver sem o prestígio. Ele está alienado, ele só tem, então, a liberdade de escolher a morte. Entendemos com isso que senhor e escravo estão submetidos à alienação fundamental. Ainda na atualidade capitalista, para ilustrar a alienação estrutural do senhor, podemos citar o seguinte exemplo: o capitalista, no lugar de senhor na dialética de Hegel, apesar de alcançar a mais-valia dentro da estrutura capitalista, ao gozo pleno ele também não tem acesso. Sua luta de morte pode ser representada pelo stress por exemplo. Afinal, muitos empresários capitalistas sofrem desse mal e preferem morrer dele a se tratar, pois se tratar significa diminuir sua carga de trabalho e/ou se desligarem das preocupações, e suas preocupações geralmente são referentes a manter seu status e aumentar cada vez mais seu poder. E disso não abrem mão e isso estabelece sua luta de morte. É claro que este é apenas um dos exemplos.
Assim, o sujeito se constitui alienado à linguagem pelo significante do Outro. A partir da alienação à linguagem há um limite de liberdade para todo ser falante, senhor ou escravo, capitalista ou trabalhador, pois para manter a vida algo dele se aliena. Portanto, ao capitalista é possível ter acesso à mais-valia extorquida na exploração do trabalho, porém ao mais-de-gozar ele também não tem acesso, há como estabelecer essa extorsão (mais-de-
gozar) devido a sua alienação à linguagem.
É a partir da alienação que entra em jogo a segunda operação de causação do sujeito, a separação, mostrando que há uma margem de liberdade, ou seja, o ser falante não está totalmente submetido à alienação. A separação é a forma de aparecimento do desejo do sujeito. A separação determina uma margem de liberdade a partir da alienação na linguagem, situando o sujeito em relação à lei, instituindo o desejo recalcado, inconsciente, dando origem ao objeto a.
Lacan coloca a separação como uma operação tão importante quanto a operação da
alienação, pois é a partir dela que o sujeito é conduzido a uma dialética e encontra uma falta no Outro, uma margem de liberdade instituída simultaneamente à alienação à
linguagem, ou seja, aparece o desejo que determina que as situações não precisam ser estáticas.
Tratando o termo freudiano Vorstellungsreprasentans, que é traduzido por representante da representação por Lacan, ele o localizará em seu esquema como o movimentador de significantes do neurótico. Mas o que seria o representante da representação? Lacan (1964/1998) nos diz que:
Podemos localizá-lo em nosso esquema dos mecanismos originais da alienação, esse Vorstellungsreprasentans, nesse primeiro acasalamento significante que nos permite conceber que o sujeito aparece primeiro no Outro, no que o primeiro significante, o significante unário, surge no campo do Outro, e no que ele representa o sujeito para outro significante, o qual o outro significante tem por efeito a afânise do sujeito, donde, divisão do sujeito – quando o sujeito aparece em algum lugar como sentido, em outro lugar ele se manifesta como fading, como desaparecimento. Há então, se assim podemos dizer, questão de vida e de morte entre o significante unário e o sujeito enquanto significante binário, causa de seu desaparecimento. O
É aí que Lacan localiza o Vorstellungsreprasentans como algo que questiona o
significante unário (significante da alienação) surgido do campo do Outro, impondo um
segundo significante, depois um terceiro, um quarto, e assim indefinidamente, dando origem à cadeia de significantes, sustentando a operação do objeto a instituído para sempre na constituição do sujeito e, conseqüentemente, na do seu desejo, sustentando sua divisão. Este é o sujeito neurótico por estrutura. Sobre essa segunda operação, diz Lacan (1964/1998):
Aquilo pelo que o sujeito encontra a via de retorno do vel da alienação é essa operação que chamei, outro dia, separação. Pela separação o sujeito acha, se podemos dizer, o ponto fraco do casal primitivo, da articulação significante, no que ele é de essência alienante. É no intervalo entre os significantes que vige o desejo oferecido como balizamento do sujeito, na experiência do Outro, do primeiro Outro com o qual ele tem que lidar, ponhamos, para ilustrá-lo, a mãe, no caso. (p. 207)
O termo Vorstellungsreprasentans, aí, é o próprio desejo, se intrometendo a todo o momento no ponto fraco da cola entre os significantes, dando origem à cadeia de