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O processo de análise foi orientado pela compreensão das entrevistas como práticas discursivas, ou seja, uma das possibilidades de produzir realidades psicológicas e sociais, ativamente, através da linguagem. Esse

entendimento leva a considerar a entrevista como uma ação por meio da qual se constroem versões de realidade.

Foram construídos mapas de identificação dos temas surgidos nos diálogos, introduzidos pela entrevistadora ou pelos entrevistados, separando-os em categorias descritivas a partir da técnica de análise denominada Mapas de Associação de Idéias. (Spink, 2000)

As categorias temáticas apriorísticas Aldeia, Mãe Social e Casa, Irmãos Sociais e Família de Origem, nomeada pelos entrevistados como família biológica, refletem os objetivos da pesquisa, e os mapas apresentam-nas mantendo a seqüência das falas, uma vez que o sentido vai sendo produzido no diálogo.

Os significados atribuídos pelos entrevistados aos procedimentos da Aldeia levaram-me a subdividir a categoria Aldeia em Procedimentos, que engloba as regras e ações e Como Qualifica, que agrupa as opiniões do entrevistado sobre tais procedimentos. Em relação à mãe, os entrevistados descreveram diferentes maneiras de cuidar que foram agrupadas na subcategoria Como Cuidava. Estabeleceram também ligações entre estes cuidados e características atuais de suas maneiras de ser: estas foram agrupadas na sub - cetegoria Como Afetou. Os irmãos sociais surgiram como parte da rede, ora como um recurso, ora como um exemplo a não seguir. A posteriori introduzi as categorias: Rede a Partir da Aldeia que aparece como relevante no percurso de formação e emancipação; Dirigente, que não é considerado como um pilar da instituição mas foi apontado por todos como exemplo, apoio, presença firme e amiga. Quando os entrevistados relatam como estão, o que fazem e como vivem atualmente, aparece o amálgama desses “outros significativos co- construtores da experiência coerente no tempo e no espaço que constitui a identidade deles” (Sluzki, 1997, p.15) Denominei A Vida Fora da Aldeia às descrições sobre a vida atual e Ações e Reflexões às narrativas de ação e do que pensam a respeito de si e suas relações. Finalmente, um relato, na primeira entrevista, sobre como jovens criados em instituições costumam ser descritos, alertou-me para a afirmação de Gergen (1996, p.186): “O self não é uma propriedade do indivíduo, mas dos relacionamentos – produto do intercâmbio social. De fato, ser um self com um passado e um futuro potencial

não é ser um agente independente, único e autônomo, mas um ser imerso na interdependência”. Essas narrativas foram categorizadas como Preconceito.

Os mapas sistematizam o processo de análise da conversação estabelecida nas entrevistas, em termos de construções lingüísticas e repertórios utilizados e tem como objetivos: organizar o processo de interpretação e facilitar a comunicação dos passos deste processo.

A construção de Mapas de Associação de Idéias permite que todo o processo de interpretação seja acompanhado pelo leitor da pesquisa, coerentemente com a proposta de que a visibilidade é o que possibilita a legitimação social de uma pesquisa como válida ou rigorosa.

Seguindo o Mapa de Associação de Idéias é possível comparar a relevância dos temas apriorísticos em relação aos outros temas que surgem na conversa, tanto espontaneamente como estimulados por perguntas da entrevistadora, e que constituem categorias a posteriori. Pode-se, também, observar no mapa o serpentear dos temas.

A partir dos mapas foram construídas Linhas Narrativas, mantendo-se, da mesma forma, a seqüência em que aparecem no decorrer da entrevista. As Linhas Narrativas, (Spink e Lima, 2000, p.117), “são apropriadas para esquematizar os conteúdos das histórias utilizadas como ilustrações e/ou posicionamentos identitários no decorrer da entrevista”. A narrativa é construída a dois. Os relatos que surgiram a partir de perguntas da entrevistadora são apresentados em itálico. As linhas narrativas permitem visualizar sinteticamente os eventos significativos, como estes afetaram o/a entrevistado/a e como ele/a historia suas respostas e ações.

Seguindo as Linhas Narrativas é possível visualizar quantas categorias, eixos ou temas são apontados como importantes para as narrações de si mesmo. Todas as falas que se referem a esses temas foram sintetizadas mantendo-se os verbos que apresentam as ações e os adjetivos que contam dos sentimentos do entrevistado.

A análise e interpretação de cada entrevista foram realizadas antes da entrevista seguinte. Ao propor uma entrevista aberta não havia perguntas a priori, mas ao seguir os relatos fui pontuando, comentando e fazendo novas perguntas.

A análise das minhas perguntas e comentários permite explicitar vários tipos de intervenção:

- Perguntas que repetem afirmações do entrevistado, para confirmação, esclarecimento, ou detalhamento de algum significado.

- Perguntas que convidam a explicações ou reflexões sobre algo já narrado, formuladas com palavras do entrevistado, ou que a partir de uma descrição visam ampliar algum significado, mas não introduzem tema novo.

- Perguntas que introduzem um novo aspecto ligado ao tema introduzido pelo entrevistado.

- Intervenções e comentários que mantém a conversação sobre temas narrados pelo entrevistado, que denominei intervenções com função fática.

- Intervenções que introduzem tema novo ou analogias, generalizações. Essa última categoria ocorreu na primeira entrevista e ao analisar todas as intervenções, pude refletir sobre o cuidado necessário para não deslizar dos temas escolhidos a priori ou introduzidos pelo entrevistado, para temas de interesse do entrevistador, alheios à proposta da pesquisa.

A explicitação e a categorização das perguntas permitem a visualização das intervenções do pesquisador e a avaliação dessa interferência na narrativa resultante. As entrevistas na íntegra, as perguntas da entrevistadora, os Mapas de Associação de Idéias e as Linhas Narrativas de todas as entrevistas encontram-se respectivamente, nos Anexos IV, V, VI, VII.