A caracterização metamórfica da Zona de Cisalhamento Guaçuí foi feita por segmento: norte, central e sul. As características principais, por unidade afetada, estão resumidas nas Tabelas 5.1, 5.2 e 5.3.
Tabela 5.1 - Características metamórficas do segmento norte da Zona de Cisalhamento Guaçuí.
Unidade amostrado Ponto Mineralógica Paragênese Características principais Grau e fácies metamórfica
Complexo
Nova Venécia 162
Quartzo +K-feldspato ± anfibólio±biotita
± moscovita
Foliação milonítica, com fitas de quartzo poliminerálicas e novos grãos
Baixo grau, fácies xisto verde Complexo S. Tomé 338 Anfibólio + biotita + quartzo + granada
Anfibólio xisto com granada e evidencias de recristalização estática (grãos
com contatos retos)
Baixo grau, fácies xisto verde Suite G1 (Galiléia e Alto Capim) 157, 171, 214, 220, 222, 232, 237, 238, 240 Quartzo+K-feldspato ± anfibólio ± biotita ± moscovita Foliação milonítica, mirmequitas,com fitas de quartzo poliminerálicas, subgrãos, bandas de deformação e novos grãos.
Grau baixo a médio, fácies anfibolito. Suite G2 (Rio Guandu, Mascarenhas e Af. Cláudio) 180, 181, 194 Quartzo+K-feldspato ± anfibólio ± biotita ± moscovita
Foliação milonítica e novos grãos incipientes
Baixo grau, fácies xisto
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Tabela 5.2 - Características metamórficas do segmento central da ZCGu.
Tabela 5.3 - Características metamórficas do segmento sul da ZCGu.
Segundo Horn (2007), ocorrem, principalmente na região central da Zona de Cisalhamento Guaçuí, rochas da fácies granulito, anfibolito e muito raramente xisto verde, como provável produto de retrometamorfismo. Esse retrometamorfismo se intensifica em direção ao centro da zona.
As características metamórficas das rochas do segmento norte (Tabela 5.1) são típicas de um metamorfismo de baixo a médio grau das fácies xisto verde a anfibolito (Passchier & Trouw 1996). Essas características principais observadas em lâmina foram as seguintes: foliação milonítica, mirmequitas,com fitas de quartzo poliminerálicas, subgrãos, bandas de deformação, novos grãos e, localmente, evidências de recristalização estática (Fig. 5.33).
Unidade amostrado Ponto Mineralógica Paragênese Características principais Grau e fácies metamórfica
Complexo Nova Venécia/Par aíba do Sul 001, 004, 008, 009, 010, 014, 016, 017, 018, 024, 025, 028, 042, 043, 045, 046, 052, 053, 057, 058, 060, Quartzo+K-feldspato ± plagioclásio ± anfibólio ± biotita ± moscovita Foliação milonítica, mirmequitas, com fitas de
quartzo poliminerálicas e monominerálicas, platy quartz em gnaisse listrado,
estruturas núcleo-manto, subgrãos, maclas de deformação e novos grãos.
Médio a alto grau, fácies anfibolito a granulito Suite G1 (Natividade e Muniz Freire) 022, 032, 033, 040, 041, 044, 146, 147, 148, 149 Quartzo+K-feldspato ± anfibólio ±biotita
Foliação milonítica, com fitas de quartzo poliminerálicas, estruturas núcleo-manto, e novos grãos.
Grau baixo a médio, fácies anfibolito. Suíte G5 (Suíte Caparaó)
Não tem ponto amostrado.
Unidade amostrado Ponto Mineralógica Paragênese Características principais Grau e fácies metamórfica
Complexo Paraíba do Sul 080, 081, 091, 096, 101, 104, 106, 107, 109, 110, 111, 119, 120, 126, 134, 135, 138. Quartzo+K-feldspato ± plagioclásio ± ortopiroxênio ± anfibólio ± biotita ± moscovita
Foliação milonítica, com fitas de quartzo poliminerálicas e monominerálicas, platy quartz em gnaisse listrado
(striped gneiss), estrutura núcleo-manto, subgrãos, maclas de deformação e novos grãos. Médio a alto grau, fácies anfibolito a granulito Suite G1
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Figura 5.33 - Características metamórficas das rochas do segmento norte: a) anfibólio xisto do Complexo S.
Tomé com cristais de anfibólio evidenciando recristalização estática (Ponto G 238, Apêndice 2); b) Suíte G1com mirmequita, fitas de quartzo poliminerálicas e bandas de deformação (Ponto G 157, Apêndice 2); c) rocha protomilonítica de composição granítica da suíte G2 (Ponto G 181, Apêndice 2).
Para as rochas do Complexo Nova Venécia, do segmento central (Tabela 5.2), as características principais observadas em lâmina foram as seguintes: foliação milonítica, mirmequitas, com fitas de quartzo poliminerálicas e monominerálicas, estrutura tipo striped gneiss, estruturas núcleo-manto, subgrãos, maclas de deformação e novos grãos (Fig. 5.34). Essas características são típicas de um metamorfismo de médio a alto grau e da fácies anfibolito a granulito (Passchier & Trouw 1996). Para as rochas da Suíte G1, as características metamórficas principais das rochas do segmento central são típicas de um metamorfismo de baixo a médio grau das fácies anfibolito, são elas: foliação milonítica, com fitas de quartzo poliminerálicas, estruturas núcleo-manto, e novos grãos (Fig. 5.35).
Figura 5.34 - Características metamórficas das rochas do Complexo Nova Venécia, no segmento central: a)
estrutura núcleo-manto com núcleo de plagioclásio deformado, manteado também por fitas de quartzo poliminerálico e novos grãos (Ponto G 001, Apêndice 2); b) mirmequita, fitas de quartzo poliminerálicas e maclas de deformação (Ponto G 004, Apêndice 2); c) fitas recristalizadas, platy quartz em gnaisse listrado (striped gneiss), intercaladas por leitos de feldspatos recristalizados (Ponto G 025, Apêndice 2).
a b c
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Figura 5.35 - Características metamórficas das rochas da suíte G1, no interior da zona no segmento central: a)
porfiroclasto de ortoclásio envolvido por novos grãos (Ponto G 022, Apêndice 2); b) porfiroclasto de K-feldspato com estrutura manto-núcleo e fitas de quartzo poliminerálicos (Ponto G 040, Apêndice 2); c) fitas recristalizadas poliminerálicas, intercaladas por leitos de feldspatos e anfibólios recristalizados (Ponto G 148, Apêndice 2).
No segmento sul as rochas analisadas pertencem ao Complexo Paraíba do Sul (Tabela 5.3) e as características metamórficas encontradas, em lâmina, foram as seguintes: foliação milonítica, com fitas de quartzo poliminerálicas e monominerálicas, estrutura tipo platy quartz em gnaisse listrado (striped gneiss), estrutura núcleo-manto, subgrãos, maclas de deformação e novos grãos. Estruturas de deformação essas características de um metamorfismo de médio a alto grau das fácies anfibolito a granulito. Observa-se que o metamorfismo passa a alto grau (fácies granulito) nas amostras dos milonitos que se encontram nas proximidades da junção da Zona de Cisalhamento Guaçuí com a Zona de Cisalhamento Além Paraíba, pontos G 120 (Fig. 5.36e), G 126, G 134, G 135 e G 138 (Fig. 5.36f) (Apêndice 2).
Figura 5.36 - Características metamórficas das rochas do complexo Paraíba do Sul, no segmento sul: a)
segregação quartzo-feldspato com fitas de quartzo poliminerálicas envolvendo novos grãos de feldspato e quartzo em um processo de formação de estruturas do tipo platy quartz em gnaisse listrado (striped gneiss) (Ponto G 081, Apêndice 2); b) ultramilonito (>90% de matriz) onde predominam os novos grãos e onde pode se observar uma foliação anastomosada reliquiar preservada (Ponto G 091, Apêndice 2); c) processo de uralitização observado em luz (Ponto G 096, Apêndice 2); d) fitas de quartzo poli e monominerálicas em estrutura tipo platy quartz em gnaisse listrado (striped gneiss) (Ponto G 138, Apêndice 2); e) ultramilonito com estrutura núcleo- manto, onde o núcleo apresenta-se em sob a forma de subgrãos e o manto em forma de novos grão finos (Ponto G 120, Apêndice 2); f) estrutura núcleo-manto e fitas de quartzo (Ponto G 110, Apêndice 2).
a b c
d e f
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5.7 - ESTIMATIVAS DA COMPONENTE HORIZONTAL DO REJEITO
A aplicação do método de Ramsey & Huber (1989) de isógonas das trajetórias das tramas metamórficas, calculado através de uma seção na parte mediana da zona, evidenciou um deslocamento da componente horizontal do rejeito de 35 km, para a ZCGu.
O valor do cisalhamento (• ) é dado pela relação • = 2/tan2• , onde o ângulo • é o ângulo que o eixo maior do elipsóide de deformação faz com a direção de cisalhamento. Ele é medido, na interseção de AB – linha transversal à zona de cisalhamento traçada em local conveniente – com a trajetória da trama metamórfica, entre a tangente à linha da estrutura com a paralela à ZCGu (Fig. 5.37).
Figura 5.37 - Planta da ZCGu, a cerca de 20 km para NE de Guaçuí/ES, utilizada para medidas dos ângulos θ – valores de 25º, 30º, 35º, 40º e 50º, que aparecem nesta figura.
Calculados os valores de • para cada • , encontra-se o valor de • que é o arco cuja tangente é • . Ver no Apêndice 3 a descrição passo a passo do método.
Em seguida de posse desses valores faz-se a construção da Figura 5.38, utilizando-se os mesmos espaços ou equivalentes da seção AB e traçando-se as paralelas à ZC e depois os valores aquivalentes de • em cada uma delas.
A linha interpolada que passa pelas diversas paralelas dos diversos • vai dar o rejeito pela diferença da medida de seus extremos, medida na escala do desenho.
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Figura 5.38 - Método gráfico de cálculo do deslocamento horizontal do rejeito com utilização dos diversos
valores de ψ.
Fritzer (1991) estimou um rejeito de 59 a 83 km, para esta zona, com base na deformação de bandamento metamórfico e da foliação milonítica. Segundo esse autor, o deslocamento horizontal estimado a partir da interpretação de dados aeromagnéticos (deslocamento de anomalias) ficaria em torno de apenas 25 a 30 km.
5.8 - EVOLUÇÃO TECTÔNICA
Com base nos elementos estruturais, de escalas macro- meso- e microscópicas, presentes na ZCGu e adjacências, quatro fases de deformação podem ser caracterizadas (Tabela 5.4).
A primeira fase de deformação (Dn) está evidenciada por uma foliação gnáissica (Sm), regional, e dobramentos assimétricos vergentes para oeste (Horn 2007), resultante de uma compressão de leste para oeste, durante a fase colisional do orógeno.
A segunda fase de deformação (Dn+1) foi responsável pela formação da Zona de Cisalhamento Guaçuí. A esta fase está associada uma foliação milonítica vertical a subvertical, que possui lineações de estiramento direcionais, além de várias estruturas de pequena escala que servem como indicadores cinemáticos, como dobramentos com eixos verticais assimétricos centimétricos e porfiroclastos assimétricos indicativos de movimentação dextral. Esta fase desenvolveu-se nas condições metamórficas da fácies xisto verde a anfibolito, a norte e de anfibolito a granulito, ao sul, no tempo posterior à granitogênese G2 (585-560 Ma), pelo fato da ZCGu cortar componentes da Suíte G2. Assim, provavelmente, seu desenvolvimento de deu no tempo posterior a 560 Ma.
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A terceira fase de deformação (Dn+2) gerou zonas de cisalhamento normais, principalmente nos segmentos norte e sul, caracterizada por dobras assimétricas, lineação mineral dip, boudins. Tais zonas nuclearam-se, principalmente, por reativação de zonas mais antigas, de modo que sua orientação preferencial, reproduz aquela das estruturas anteriormente descritas. Essa fase foi gerada em regime extensional W-E, restrito, gerado nas condições metamórficas da fácies xisto verde a anfibolito, no intervalo 530-490 Ma.
A quarta fase (Dn+3) é de natureza rúptil e foi responsável pela formação de falhas e juntas com as orientações preferenciais NE-SW e NW-SE, no segmento norte; e NW-SE nos segmentos central e sul. Intrusões de diabásio, pegmatitos e outros veios quartzo-feldspáticos, de espessuras decimétricas a métricas, podem estar encaixados em tais falhas e juntas. Essa fase teria se desenvolvido em um regime rúptil extensional tardio.
Tabela 5.4 - Resumo das características das fases de deformação da ZCGu.
Fase de Deformação Elementos Estruturais (Macro-, Meso- e microscópicos) Interpretação
Dn
Foliação gnáissica (Sm), regional,
dobramentos assimétricos vergentes para oeste (Horn 2007).
Compressão E-W, fácies anfibolito a granulito (intervalo 630-585 Ma).
Dn+1
Zonas transcorrentes dúcteis, foliação milonítica (Sm+1), lineações minerais
direcionais (Lm+1), dobramentos com
eixos verticais assimétricos centimétricos, porfiroclastos assimétricos, ribbons de
quartzo, estrutura núcleo-manto e estrutura striped gneiss.
Regime transpressivo com importante componente horizontal
dextral, gerado nas condições metamórficas da fácies xisto verde
a anfibolito, a norte e anfibolito a granulito ao sul. Tempo posterior ao intervalo (585-560 Ma) porque
as ZC’s cortam os granitos G2, provavelmente no tempo posterior
a 560 Ma.
Dn+2
Zonas de cisalhamentos normais (Segmentos Norte e Sul), dobras assimétricas, lineação mineral dip,
boudins.
Regime extensional W-E, restrito, gerado nas condições metamórficas
da fácies xisto verde a anfibolito. Intervalo 530-490 Ma. Dn+3 Falhas e juntas rúpteis, nas direções preferenciais NE-SW e NW-SE. Regime rúptil extensional tardio.