• No results found

Como vimos nas seções anteriores, há vários autores que discutem e entendem o letramento sob diversos pontos de vista. Nesta seção, discutiremos a chegada dos “novos estudos do letramento” e dos “novos letramentos”.

Lankshear e Knobel (2006) defendem que nos “Novos Estudos do Letramento” (New Literacy Studies) há uma nova perspectiva paradigmática, ou seja, uma preocupação com uma abordagem sociocultural para entender e pesquisar o letramento, contradizendo uma prática dita ortodoxa e dominante. Trata-se também de uma maneira de se pensar o letramento como um fenômeno social. Tais estudos chegaram ao Brasil e contribuíram com diversas pesquisas, como aponta Marinho (2010):

a concepção de letramento que tem tido mais influência no Brasil reporta aos Novos Estudos sobre o Letramento – New Literacies Studies (NLS). Além de outras razões que explicam essa influência, esses estudos guardam aproximação com o pensamento de Paulo Freire, profundamente marcado por fundamentos políticos, sociais e antropológicos da alfabetização, da leitura e da escrita. Não é gratuita a presença da obra de Paulo Freire nos trabalhos de vários estudiosos do NLS e o lugar da ideologia, das relações de poder que identificam essa produção. Assim como nesses estudos, na obra de Freire o conceito de alfabetização (literacy) ultrapassa o nível das habilidades linguísticas, de domínio do código escrito ou de habilidades técnicas, neutras (MARINHO, 2010, p. 19).

Como o termo foi cunhando inicialmente em língua inglesa, há uma leve diferença em sua utilização no Brasil. Os conceitos dos New Literacy Studies (NLS) se relacionam com as pesquisas de Soares (1998) sobre letramento, quando se refere ao seu modelo social principalmente, apesar de a autora ter sido influenciada por pesquisadores que antecedem os estudos dos NLS, como Street (1984). Já a prática ortodoxa e dominante de literacy apontada no texto de Lankshear e Knobel (2006), pode se relacionar ao que se conhece no Brasil como alfabetização (conforme já discutido)

ou à dimensão individual de letramento apontada por Soares (1998), mesmo que haja divergência de alguns autores sobre essa diferenciação (SOARES, 2010). Há também em outros países de língua espanhola e francesa, por exemplo, escolhas por termos diferentes para se referirem ao mesmo fenômeno (MARINHO, 2010) (ver Quadro 1 a seguir).

A expressão new literacies, entretanto, se refere às novas exigências sociais a partir da era pós-tipográfica, onde novas formas de práticas sociais acabam surgindo, valorizando a multimodalidade e as tecnologias digitais e, consequentemente, exigindo novas formas de se pensar os letramentos (LANKSHEAR; KNOBEL, 2006). Mesmo que essas tecnologias sejam empregadas na sociedade e/ou na sala de aula especificamente, não significa que sua utilização seja a única maneira de se relacionar aos novos letramentos. Como ressalta Coscarelli (2010),

Não acredito que o universo digital tenha transformado tudo a ponto de ser uma total revolução e, dessa forma, sermos obrigados a repensar todas as noções e categorias com as quais trabalhávamos até agora. Acredito mais numa ampliação das possibilidades do texto e da comunicação do que realmente numa revolução que implicaria uma mudança completa de nossas bases teóricas (p. 517).

Dessa maneira, os novos letramentos surgem, não somente devido às tecnologias digitais, mas à evolução das ciências, das mídias e de outros meios que se transformaram a partir da globalização. Lankshear e Knobel (2006) apontam um exemplo, ao mencionarem os mangás, originalmente do Japão, que se espalharam pelo mundo e introduziram, em diversos outros países, uma nova maneira de leitura. O mesmo acontece com as cartas de animes como Pokémon, Dragon Ball Z e Yu-Gi-Oh!, que trouxeram para países ocidentais maneiras de interpretar imagens e textos em um formato de papel conhecido pelos brasileiros, mas com informações organizadas de outra maneira e com outros objetivos.

Lankshear e Knobel (2006) apontam, por fim, outra possibilidade de articulação para os novos letramentos, quando exemplificam que esse mesmo mangá mencionado acima pode não ser lido em seu formato impresso. Assim, se vier publicado em um site da Internet, por exemplo, mesmo que se refira à mesma história impressa, pode oferecer opções de compartilhamentos, comentários e diversas maneiras de interações com outros internautas, trazendo, mais uma vez, algo de novo para os letramentos que podem ser motivados por esse contexto.

O Quadro 1 abaixo é uma tentativa de relacionar os termos utilizados em alguns países de língua inglesa com aqueles utilizados no Brasil. Mas, devido ao fato de que esses termos podem estar carregados de sentidos não somente teóricos, mas sócio- históricos e práticos, talvez não se relacionem em sua totalidade. Entretanto, possuem uma grande proximidade e esta organização pode ajudar o leitor a ter uma melhor compreensão dos fenômenos discutidos.

Quadro 1 – Correspondência de termos entre alguns países de Língua Inglesa e o Brasil

EUA, Austrália, Inglaterra,

dentre outros Brasil

Literacy (visão tradicional) Alfabetização Literacy (visão atual que pode se remeter

aos New Literacy Studies) Letramento

New Literacies Novos Letramentos

Fonte: Elaborado pelo autor.

O quadro acima não define uma relação de tradução necessariamente, mas tenta demonstrar uma proximidade conceitual dos termos. Como a palavra letramento não existia no Brasil antes da década de 80, utilizava-se apenas alfabetização para designar o processo de aprendizagem de leitura e escrita nas escolas. Até essa época o termo literacy nos países mencionados na primeira coluna, também se referia, principalmente, à aprendizagem de aspectos estruturais da língua apenas, sem considerar o letramento como prática social.

Os NLS aprofundam estudos já iniciados por outros autores, como Street (1984) e trazem outras contribuições para a área. A tradução Novos Estudos do Letramento é utilizada no Brasil em algumas pesquisas, principalmente naquelas que se referem ao ensino de língua estrangeira. No entanto, a tradução não foi utilizada na tabela devido à grande proximidade de seu sentido com o termo letramento utilizado atualmente no Brasil, conforme já destacado por Marinho (2010) nesta seção. Por fim, os new literacies ou novos letramentos trazem sentidos bastante aproximados tanto para os países da primeira coluna, quanto para o Brasil.

Dessa maneira é possível perceber a utilização do termo new, em New Literacies Studies, referindo-se a uma abordagem sociocultural de letramento, contradizendo o modelo ortodoxo já muito difundido. Já em new literacies, new está relacionado às

mudanças trazidas pela globalização que, consequentemente, exigem outras maneiras de ler, escrever e se relacionar com as novas tecnologias de escrita. Todavia, mesmo com as diferenças apontadas por Lankshear e Knobel (2006), nota-se uma aproximação muito grande desses dois conceitos, uma vez que, para se falar de letramento como um fenômeno social, é muito pertinente que se lembre, ao mesmo tempo, da utilização das tecnologias digitais e das novas demandas de leitura e escrita que são inerentes à sociedade atual.

A próxima seção apresenta o conceito de Letramento Crítico, proposta que chegou ao Brasil principalmente relacionada ao ensino de língua estrangeira.