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Ao descrever o universo dos bebês com suas competências, sinais de risco psicopatológico, janelas clínicas, entre outros, percebemos a importância do papel do pediatra como aquele capaz de, a partir de uma escuta atenta, poder detectar sinais de risco. Também percebemos a importância do olhar materno, e os efeitos de uma falha desse olhar para o desenvolvimento do bebê.

Considerando esses aspectos, é de suma importância localizar o pediatra na condição de pessoa mais próxima da dupla mãe-bebê e, assim, mais capaz, num primeiro momento, de recebê-los e detectar precocemente sinais psicopatológicos no bebê, de desencontros na díade ou de estados preocupantes na mãe.

Gostaríamos de saber se os pediatras se sentem instrumentalizados para desempenhar essa tarefa, como fazem suas avaliações em seu exercício clínico e como ajudá-lo de maneira eficaz nesse percurso.

7. Objetivos

Objetivo geral

Investigar e compreender como a pediatria se aproxima da questão da depressão puerperal, que elementos orientam a escuta dos pediatras e como eles entendem seus efeitos sobre o desenvolvimento do bebê.

Objetivos específicos

Realizar, a partir do vértice psicanalítico, um estudo teórico associado a uma reflexão teórica a respeito da depressão materna e seus efeitos sobre o desenvolvimento do bebê.

Verificar se os pediatras são capazes de diagnosticar a depressão puerperal.

Observar se a formação pediátrica oferece subsídios para que o médico se aproxime das questões referentes ao mundo psíquico.

Investigar e compreender a atenção que esses profissionais dirigem aos aspectos da relação entre mãe e filho e sua importância no desenvolvimento do bebê.

Apontar de que forma a psicologia pode fornecer subsídios à compreensão das questões referentes à depressão materna.

8. Método

Esta pesquisa serviu-se da psicanálise como o balizador teórico para analisar os fenômenos observados. A psicanálise, desde sua origem, apresentou-se como uma terapia e um método de investigação da psique humana. Freud, seu fundador, trabalhou concomitantemente na clínica e na sistematização de seu pensamento acerca dos fenômenos psíquicos que observava. Dessa forma, a marca do método psicanalítico sempre foi um diálogo contínuo entre a teoria e a clínica (SAFRA, 1993). A teoria e a clínica constituem duas faces da mesma moeda: uma nasceu para informar a outra.

A teoria não é um acessório da clínica. Pode-se ver aí uma espécie de retroalimentação, em que a teoria fornece subsídios à prática clínica, e os elementos surgidos na clínica pedem, conseqüentemente, a formulação de novos conceitos teóricos.

Seguindo Garcia-Roza:

[...] enquanto prática clínica, o que a psicanálise explora é exatamente essa potência significante. Quer dizer, o que a psicanálise explora na prática clínica é essa possibilidade do significante dar lugar a múltiplos sentidos. E é essa potência significante de gerar múltiplos sentidos, que constitui, a meu ver, a própria potência da clínica psicanalítica. [...]

Mas a psicanálise se constitui também como uma teoria, teoria essa que informa essa prática. E dizer que a teoria informa a prática significa dizer que ela não é um mero enfeite complementar dessa prática, mas que ela constitui essa prática enquanto prática. Sem a teoria, a psicanálise fica reduzida a um empirismo cego. (GARCIA-ROZA, 1994, p.17)

A psicanálise pressupõe um modelo de pesquisa, em que o que está em jogo são dois sujeitos, e não mais sujeito e objeto, como era comum na ciência positivista. Além disso, os sujeitos são considerados a partir daquilo que parece ser mais intrínseco da vida psíquica de cada um deles, o que não é dado a ver de uma

maneira clara ou óbvia. Dessa forma, o objeto da psicanálise é o inconsciente, e o método psicanalítico revela-se, por um lado, pela associação livre do sujeito – falar sem restrições ou críticas, ”tudo o que vier a cabeça” – e, por outro lado, pela atenção flutuante por parte do analista, sem privilegiar material algum a priori.

A experiência psicanalítica visa a uma abertura do campo como uma possibilidade para que o inconsciente se expresse. O inconsciente se expressará não só através da abertura do campo, propiciada pela associação livre e pela atenção flutuante, como também “imantado” pela transferência – modelos de comportamentos infantis que se repetem constantemente na relação com o analista. A especificidade do método psicanalítico configura-se pela transferência, e é a partir da análise da transferência que se torna possível capturar, mesmo que de uma maneira fugaz, um sentido novo acerca da psique humana. Assim, o método psicanalítico revela-se inovador, ao contar com a transferência e com a contratransferência – conteúdos sentidos pelo analista, relativos, especificamente, ao encontro com uma dada pessoa –; possibilita a emergência do novo.

O método psicanalítico pode ser utilizado não só em consultório, com enquadre clássico (várias vezes por semana, com uso do divã, entre outros); se devidamente empregada, a psicanálise pode auxiliar na compreensão e, como dito, na emergência de sentidos novos na experiência humana como um todo. Na pesquisa acadêmica na universidade, devemos ter clareza de que não faremos análise na universidade, mas usaremos o método com seus instrumentos a fim de compreender e levantar significados sobre a investigação a que nos propusemos.

A pesquisa psicanalítica não é terapia psicanalítica feita na universidade. A pesquisa é psicanálise, ou seja, é alguma coisa que se dá dentro dos quadros da psicanálise, dentro do referencial e sobretudo dentro do método psicanalítico. Mas não é análise, terapia. (HERMANN, 1991, p. 39)

9. Sujeitos

Tendo em vista os objetivos iniciais explicitados, foram entrevistados doze pediatras que trabalham atualmente (seja em clínica particular, na rede pública ou em instituições ligadas a convênios médicos) e que possuem, no mínimo, cinco anos de experiência.

As entrevistas foram realizadas com pediatras que se formaram desde há 11 até há 35 anos, em diferentes escolas. Alguns têm experiência constante em consultório particular; um não atua mais em consultório, mas atuou durante cerca de sete anos, e, nesse momento, trabalha numa universidade pública como preceptor de residentes em pediatria, bem como no atendimento em uma unidade básica de saúde; outro trabalhou no berçário de uma maternidade em São Paulo e, atualmente, trabalha no ambulatório de um convênio médico, que atende várias especialidades, e também num um pronto-socorro.

A amostra é composta de cinco profissionais que atendem preponderantemente convênio médico, sendo que, nesse grupo, um também trabalha numa unidade básica de saúde, e outro está ligado a uma universidade. Nesse mesmo grupo, há dois profissionais que são homeopatas.

Outros cinco pediatras atendem em consultório particular e, atualmente, não trabalham com convênio. Dois estão ligados a um hospital na cidade de São Paulo, um dos quais atende também numa unidade básica de saúde na região norte da cidade. Um desses cinco profissionais trabalha especificamente com aleitamento; outro possui dois consultórios em bairros distintos de São Paulo e está vinculado a

uma universidade, sendo o único homeopata nesse grupo. Outro profissional desse grupo atende em consultório particular há cinco anos, e também trabalha numa universidade pública, na preceptoria de residentes, e numa unidade básica de saúde.

Os entrevistados trabalham em regiões diferentes da cidade de São Paulo, e, em alguns casos, fora do município. Atendem pessoas de variados níveis socioeconômicos, seja em seus consultórios particulares, seja em unidades básicas de saúde ou, no caso único supracitado, no ambulatório de um convênio médico.

Fizeram sua formação em diferentes universidades de São Paulo, e alguns fora da capital, como em São Bernardo do Campo, Santos e Ribeirão Preto.

A amostra é composta de três homens e nove mulheres. A fim de preservar suas identidades, optamos por referi-los apenas por meio de prenomes fictícios.

10. Instrumentos

Aplicamos uma modalidade de entrevista psicológica, a saber: a entrevista semi-dirigida segundo Bleger.

De acordo com Bleger (1985, p. 10), a entrevista psicológica semi-dirigida possibilita uma investigação profunda da personalidade do entrevistado e caracteriza-se por uma certa flexibilidade por parte do entrevistador, visando permitir que o entrevistado configure o campo da entrevista:

[...] devemos desde já sublinhar que a liberdade do entrevistador, no caso da entrevista aberta, reside numa flexibilidade suficiente para permitir, na medida do possível, que o entrevistado configure o campo da entrevista segundo sua estrutura particular, ou dito de outra maneira, que o campo da entrevista se configure, o máximo possível, pelas variáveis que dependem da personalidade do entrevistado. (BLEGER, 1985, p. 10)

Bleger (1985, p.13) salienta que a regra básica da entrevista não é obter dados completos da vida total da pessoa, mas dados completos de seu comportamento total no decorrer da entrevista. De acordo com o autor: “este comportamento total inclui o que recolheremos aplicando nossa função de escutar, porém também nossa função de vivenciar e observar, de tal maneira que ficam incluídas as três áreas do comportamento do entrevistado”.

As entrevistas abertas com os pediatras, visando alcançar os objetivos pretendidos, foram realizadas sem roteiro pré-estabelecido, mas com atenção a alguns pontos relevantes que o entrevistador procurou contemplar ao longo do encontro. A forma de abordagem desses pontos dependeu muito da dinâmica entrevistador-entrevistado. O campo da entrevista, configurado pela personalidade

do entrevistado, possibilitou ao entrevistador apenas alguns assinalamentos, referentes a lacunas percebidas nos temas de interesse da pesquisa.

11. Procedimentos

Encontro com os pediatras

Realizamos entrevistas com pediatras, a fim de fazer uma caracterização da depressão puerperal pela ótica da clínica dos profissionais entrevistados, de modo a compreender de que elementos clínicos e observacionais os pediatras se valem para diagnosticar uma depressão puerperal e que observações fazem do contato das mães com seus bebês. Os profissionais foram escolhidos pela pesquisadora, eventualmente mediante indicação de terceiros. O roteiro da entrevista realizada está no anexo 1, e a autorização de cessão de direito de uso, no anexo 2.

As entrevistas foram gravadas e, posteriormente, transcritas para auxiliar na efetiva análise do material. Com referência ao local da realização das entrevistas, cada pediatra teve a possibilidade de optar por ser entrevistado em seu consultório ou em qualquer outro lugar de sua preferência.

Depois, o material foi submetido a análise, tendo como referencial o método psicanalítico, buscando compreender quando e por que os pediatras se preocupam com a dupla mãe-bebê, na situação em que a mãe se deprime no pós-parto.